Diário de um pai em casa. Dia 27


Um flashback foi a minha primeira reação à decisão de hoje do executivo de António Costa em relação ao ano letivo do 1º ao 9º ano. Todos em casa, ligados ao computador e com a RTP Memória sintonizada até ao fim do ano escolar. Alunos e pais.

 “...Ai aguenta, aguenta”. A frase dita pelo então presidente do banco BPI, Fernando Ulrich, a 30 de outubro de 2012, em pleno período da Troika, numa conferência em que se falava sobre se os portugueses aguentariam mais austeridade, sobrevoou a minha memória.

Ouvi a declaração de António Costa. Escutei e li a decisão. Duas ou três vezes. As aulas, tal como as conhecemos e com as quais sempre vivemos “terminaram” este ano, e o ensino, no 3º período, vai continuar à distância, uma ferramenta desta “nova” escola com quem tivemos um blind date recente e não desejaríamos voltar a ter depois das férias da Páscoa. Nem atender o telefone.

O anúncio, confesso, não me apanhou de surpresa. No entanto, uma secreta esperança vivia em mim que, pelo menos, o 9º ano poderia começar a rotina de casa-metro-escola-metro-casa-trabalhos de casa.

Nada disso.

 Os meus filhos estavam à espera da decisão. Aparentemente aceitaram melhor que eu. Terão as suas razões que a própria razão desconhece.

A aprendizagem dos meus filhos, dos nossos filhos, será a saltitar entre as plataformas digitais – da escola virtual ao Teams e Zoom, apps que sugam os nossos big data – e a Telescola, RTP Memória, o tal canal que inteligentemente foi colocado à disposição de um Portugal que não é trendy, nem gourmet, mas que me faz lembrar o Eládio Clímaco, Jogos Sem Fronteiras, TV Rural, Canção de Lisboa e Júlio Isidro (um enorme profissional, a propósito).

“Ai aguenta, aguenta...”. O ritmo sincopado, não se sai da cabeça. E começa a pesar nos meus ombros.

Aguentarei? Aguentarei, enquanto jornalista, ou a minha mulher (advogada), ficar parte do dia fechado em casa? Quantos pais vão aguentar desmultiplicarem-se em vários papéis, sobejamente já conhecidos por todos: teletrabalho, no caso, jornalista, professor, auxiliar de educação, e muito mais. E, no final do dia, sem sair da “casa de partida”, ainda vão ajudar os filhos com os famosos TPC’s. Aguentarei? Aguentaremos?

O desabafo, como é óbvio, é de um pai de um agregado familiar de quatro filhos que cabem todos no universo agora decidido. 1, 2, 3 e 4 filhos, até meados de junho, em casa. E sujeitos, naturalmente, a avaliação. Que conta para a nota final. E se conta. E os alunos e os professores estão a contar connosco, pais. E eu, com eles. Professores e filhos (alunos).

Mais que um sonho mau, o anúncio do fim, este ano, da velha escola e o início da nova escola foi o despertar para um filme bem real no qual vou (re)entrar.

Chega de escola.

Por falar em grande ecrã, antes de começar esta nova fase, juntos, vamos, em família, ver um filme: "O Clube dos Poetas Mortos". Para substituir o “aguenta, aguenta” pelo “Oh Captain, My Captain”. E no final, dar a minha nota a cada um deles.

Levo desta quarentena (já me estou cansado da palavra) o agradecimento de me (re)despertar para a música. Sem nome, género, idade. Escuto tudo.

Hoje o dia foi ao som de David Bowie. Life on Mars, Space Oddity, Under Pressure, Heroes, China Girl, Modern Love, Ashes to Ashes, Young Americans, Ziggy Stardust, The Jean Genie, This Is Not America, Absolute Beginners, Starman e muitas outras. Terminei com o "Let’s Dance".

É o que me apetece fazer. E beber.

PS – Fernando Ulrich, o banqueiro autor da frase que dá título a esta crónica, desculpou-se mais tarde pelas palavras. Explicou o contexto. Acreditava que sim, que os portugueses aguentariam mais austeridade imposta pela Troika, em contraposição a Paulo Trigo Pereira, professor, outro dos oradores na dita conferência, que tinha entendimento diferente. Hoje sou professor. E serei até junho. No final do período, serei banqueiro. Tenho a certeza.

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