A partir do seu posto numa das torres do campo de concentração nazi Stutthof, Bruno Dey, um jovem soldado da organização paramilitar Schutzstaffel, mais conhecida como ‘SS’, conseguia ouvir os gritos dos judeus que morriam na câmara de gás.

Dey confessou às autoridades que o transporte dos corpos para o crematório do campo era diário.

Mais de 70 anos depois, Dey, de 93 anos, está a ser julgado hoje por 5.230 crimes como cúmplice de homicídio no tribunal estatal de Hamburgo, naquele que, segundo a agência France-Presse, deverá ser um dos últimos julgamentos do género.

Os procuradores alegam que, por ter sido um guarda no campo entre agosto de 1944 e abril de 1945, Dey ajudou no funcionamento de Stutthof e, por isso, foi “uma pequena roda na maquinaria da morte”.

“O acusado não era um adorador ardente da ideologia nazi, mas não há dúvidas de que nunca desafiou ativamente as ações do regime nazi”, declararam os procuradores na acusação revista pela agência Associated Press.

Dey, na altura um padeiro em formação, disse aos procuradores que a sua saúde era inadequada para a frente de batalha devido a problemas cardíacos, e que, por isso, foi enviado para Stutthof como guarda.

O ex-soldado, agora idoso, declarou que, com ou sem a sua presença, as mortes teriam acontecido, alegando que a SS “teria encontrado outra pessoa”.

O advogado de Dey, Stefan Waterkamp, afirmou que, ainda que o seu cliente mantenha as declarações que deu à polícia e aos procuradores, o réu não está a ser acusado de nenhuma morte em específico e o tribunal terá de decidir se estar de guarda numa torre, sozinho, é o suficiente para o condenar.

“Muitas pessoas foram mortas de diversas maneiras em Stutthof. Algumas foram mortas diretamente, algumas morreram de fome, outras de tifo… A questão é quem é o responsável imediato [pelas mortes]?”, interrogou o advogado.

Nos últimos anos, os procuradores conseguiram condenar antigos guardas de campo de extermínio argumentando que, ao ajudar a manter o funcionamento de campos como Auschwitz e Sobibor, os soldados foram cúmplices dos homicídios, mesmo sem provas que os comprometessem com uma morte especifica.

Em 2015, a condenação de Oskar Groening, um antigo guarda em Auschwitz, foi baseada nestes argumentos, solidificando o precedente.

No caso de Dey, os argumentos são aplicados ao cenário de um campo de concentração em vez de um campo de extermínio.

Dey serviu no campo quando tinha 17 e 18 anos e, devido à sua idade quando os alegados crimes ocorreram, será julgado em tribunal juvenil, com a possibilidade de passar entre 6 meses a 10 anos na prisão, se for condenado.

Waterkamp afirma que o cliente tem dificuldade em falar sobre o seu passado em Stutthof, mas que vai responder às perguntas que lhe forem colocadas em tribunal e poderá fazer declarações.

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