Pedro Boucherie Mendes é diretor de planeamento estratégico da SIC e um rosto bem conhecido da televisão portuguesa. A par, estuda e escreve sobre esta indústria. Foi por isso que o desfiámos a pensar os próximos dez anos de pequeno ecrã — seja de forma linear (ou tradicional, se quisermos) até aos novos serviços que vêm agitar o mercado, como a Netflix, HBO, Apple ou Disney +.

Quando lhe perguntamos como vai ser a televisão do futuro atira com um "não faço ideia". No entanto, sem romantismos ou dotes de futurologia, vai dando luzes sobre a forma como o mercado se está a posicionar nas várias matérias e sobre os desafios e possibilidades que se avistam no horizonte.

É bom dizer que não acredita que a televisão tradicional vá desaparecer e quando vêm com essa 'ideia romântica' de que antigamente é que era bom, quando as crianças andavam a brincar na rua com paus e joelhos esfolados, tem uma notícia para dar: " é porque não estava a dar nada de jeito na televisão (...). Os jovens estavam era aborrecidos porque não tinham nada para fazer, porque se tivessem muito boa televisão (...) tinham ficado em casa a ver esses conteúdos".

"As pessoas veem muito mais televisão do que pensam e têm uma relação com a televisão muito intensa e muito surpreendente. Ainda agora nós estreámos na SIC um programa – A Máscara – que teve ótimas audiências, mais de 1,6 milhões de pessoas viram o programa todo. No entanto, se fores ver as redes sociais aquilo foi um ato masoquista para muita gente: as pessoas comentam 'aquilo não presta', 'eu não gosto'. A televisão é muito importante na vida das pessoas e esse é o segredo da resiliência — e é o que me leva a crer, enquanto pessoa que trabalha em televisão e estuda, que a televisão vai sobreviver".

Em resumo, há uma dimensão relacional na televisão linear e isso é algo em que até os serviços de streaming veem valor, porque "mantém a conversação viva nas redes sociais".

"Nós vimos agora isso com a HBO, que teve uma série chamada 'Watchmen' e cujos episódios foram depois comentados e interpretados, e ainda lemos as críticas e tal. Se a série fosse lançada toda de uma vez se calhar duraria uma ou duas semanas nas redes sociais, mas esta teve 9 episódios, teve 9 semanas de conversa coletiva", exemplifica.

Mas se à televisão tradicional não faltam desafios, a quem vem fazer ondas no mercado também não. "A única fonte de receitas da Netflix é aquilo que nós pagamos mensalmente — e que não serve, nem de perto nem de longe, para cobrir os custos", assinala Boucherie. Encontrar um "noivo", voltar a vender conteúdos originais a outras estações ou disputar o mercado da publicidade — e com isso irritar as televisões. São vários os caminhos possíveis, mas não será um walk in the park.

A conversa não poderia terminar sem saber para quando uma série, filme ou documentário de selo português com projeção internacional. É uma questão de "sorte" e de tempo, porque em Portugal mal há ovos para esta omelete, diz.

"Quem trabalha em audiovisual sabe que nós em Portugal fazemos o trabalho de seis ou sete pessoas: somos guionistas, câmaras, iluminamos, etc., e que em mercados maduros, como o americano, o espanhol ou alemão, isso não é assim, tens equipas a sério para trabalhar", compara.

"A nossa televisão é francamente superior aos meios que nós temos", defende. E agora que está mais calmo já não diz que o que as pessoas mereciam eram um ecrã a negro durante uma semaninha, mas um reality check às vezes também é preciso.



Pedro, como é que vai ser a televisão na próxima década?

Não faço ideia, mas em princípio terá qualquer coisa a ver com a televisão de hoje e a de ontem, portanto, será, em princípio, feita por continuidades, isto é, por mais do mesmo, por repetição de receitas que são eventualmente interrompidas por um salto brusco qualquer. Por exemplo, há 20 anos um especial como este [para projetar os próximos 10 anos] não conseguiria ter previsto que o Big Brother, que apareceu na viragem do século, mudaria as regras do jogo. Hoje, programas como o Big Brother estão acomodados, ou seja, fazem parte da rotina e da norma, já não pensamos neles como novidades, mas naquela altura foram uma novidade, foram aquilo que se chama unkown unknown, ou seja, qualquer coisa que nós nem sequer sabemos que desconhecemos. Portanto, em princípio, a televisão daqui a 20 anos será mais do mesmo, interrompido esse mais do mesmo por algum acontecimento ou alguns acontecimentos

Porque é cíclico.

Por exemplo, vamos imaginar que um dos canais generalistas decide colocar o seu telejornal, portanto, o seu principal bloco noticioso, às 21h em vez de ser às 20h, e que teima nessa mudança. Imaginemos que os espetadores se habituam, isso pode ser uma coisa que pode mudar as regras do jogo.

20/30. 20 perguntas daqui até 2030

O que estamos dispostos a fazer por um futuro sustentável? Vamos ter serviço nacional de saúde daqui a dez anos? A tecnologia faz mal à nossa cabeça? Quando o tema é imigração, quem dita as regras? Vai Portugal perder o barco no 5G?

Este e só o início de uma série de perguntas que o SAPO24 decidiu colocar em cima da mesa para os próximos dez anos. 2020 convida-nos a pensar a década — como é que o mundo vai mudar e como é que nós mudamos com ele — e foi esse o desafio que colocámos a vários convidados nas conversas que serão publicadas em 24.sapo.pt

20/30. 20 perguntas daqui até 2030 é o nome da série em vídeo, texto e fotografia que vai abordar temas como o ambiente, as migrações, a inteligência artificial, o futuro da ciência, relacionamentos e violência, o mar, o 5G, o humor, o futebol, a televisão, o consumo, o Interior, a saúde mental, o Espaço, o Brexit, a educação (para a inovação), as startups o envelhecimento, as redes sociais ou as cidades de amanhã.

Veja aqui todas as entrevistas.

E você, se tivesse de lançar um tema para o debate, qual seria? Envie a pergunta para a década para 24@sapo.pt.

20/30 é um projeto com assinatura MadreMedia no SAPO24, que poderá também acompanhar em 24.sapo.pt, no portal SAPO (sapo.pt) e respectivas redes sociais. Siga-nos no FacebookTwitter e Instagram.

Mas acha que pode acontecer?

Acho que não, estou a dar o exemplo, mas acho que não.

Mas porquê?

Porque apesar de tudo temos imensas pessoas do universo televisivo que já estão reformados, digamos assim, e que não trabalham em Lisboa ou no Porto e que chegam a casa tarde, em princípio seria para essas pessoas. Estava a tentar dar o exemplo de qualquer coisa que é uma pequena mudança, um bater as asas da borboleta, que poderia ter uma implicação brutal.

Nós em televisão estamos também muito ligados às mudanças tecnológicas, por exemplo, é duvidoso que tivesse havido Netflix tal como o conhecemos hoje — tão em todo o lado e que toda a gente vê — sem que a Apple tivesse lançado os iPads. No início as pessoas compraram os iPads com muita excitação e depois às tantas perceberam que não há grande coisa para fazer no iPad. Eu lembro-me perfeitamente que na televisão portuguesa todos os opinion makers passaram a ir de iPad para os seus programas de mesa redonda, programas de conversa, e deixaram as canetas e os blocos, mas depois de algum tempo aquilo não é prático para escrever. E eis que em 2013 a Netflix lança o House of Cards e de repente aquele objeto, que já estava mais ou menos perdido na sala a um canto, passou a ser útil, porque passou a ser um ecrã portátil. Portanto, às vezes há mudanças tecnológicas da indústria, como o lançamento do iPad, que podem mudar a forma como nós acedemos à televisão.

Hoje muitas televisões têm também sites e a mãe pode estar a ver um programa na sala enquanto a filha pode ver o mesmo programa no seu computador ou iPad no quarto — e mãe e filha podem estar a comentar por WhatsApp. Não é um comportamento que possamos dizer que é estranho, é um comportamento que é permitido pela tecnologia.

"Estamos numa era em que não nos será possível ver todas as séries fantásticas que há, mas não podemos ficar angustiados com isso, é a vida, ainda bem que assim é"

Aliás até havia um bit no especial de stand-up da Ellen em que ela falava de estar com a mulher a verem a mesma série lado a lado, mas a trocar WhatsApps uma com a outra a comentar o que estava a acontecer. Por falar em Netflix, escreveu um artigo recentemente no Expresso sobre isso: Temos dois novos serviços de streaming, em princípio muito grandes, a caminho – um é o Disney + e o outro a HBO. A Apple lançou há pouco tempo apesar de ter um portefólio curto. Acha que vamos viver uns próximos 10 anos de excesso de conteúdo?

Isso é um pouco a mesma coisa que dizer que há excesso de livros, ou que há excesso de canções. Por um lado sim, é verdade, há excesso, nunca teremos uma vida que nos permita ler todos os livros bons que há, ou ouvir todos os álbuns de música que há ou todas as músicas. Agora estamos numa era em que não nos será possível ver todas as séries fantásticas que há, ou programas ou documentários, mas não podemos ficar angustiados com isso, é a vida, ainda bem que assim é.

Claro que sim, o que eu estava a falar era mais numa perspetiva de negócio, ou seja, se vai chegar para toda a gente, se vai chegar para todos os players da indústria.

Há uma coisa que às vezes as pessoas têm dificuldade de perceber: o negócio é um problema de quem é dono do negócio. Claro que há negócios que são de tal forma grandes que impactam a sociedade, temos o caso dos bancos em Portugal, por exemplo, cujo processo de falência há uns anos ainda estamos a pagar, mas eu se lanço uma plataforma SVoD [Video On Demand] e depois não funciona, em princípio, é um problema meu e dos meus acionistas.

Pedro Boucherie Mendes
Especial 20/30 do SAPO24 créditos: Rodrigo Mendes | MadreMedia

Isto é um bocado como as casas de ouro que apareceram durante a crise e depois desapareceram.

As empresas aparecerem e irem à falência é uma coisa que decorre do processo capitalista. Aqui a grande questão é a subscrição, portanto, assinar, pagar mensalmente. Aquilo que muito provavelmente tenderá a acontecer é “encha o depósito na Galp e ganhe um mês de plataforma X”. Eu acho que tenderá a acontecer esse tipo de coisas nas plataformas menos premium, se depois as pessoas vão ver ou não é outra questão.

Por um lado, a subscrição é importante, a receita que vem através dos assinantes é importante, mas poder exibir um determinado número de assinantes — a plataforma poder gabar-se que tem tantas contas ativas — também vai ser importante. Assim, tenderá, creio eu, a haver oferta da plataforma como um add on [acrescento] de outros produtos.

Não estou a ver as [plataformas] mais importantes alguma vez a fechar, acho que vão sempre continuar a existir, mas as pessoas terão um acesso facilitado. Algumas vão pagar [o preço de uma subscrição], outras acedem graças a ofertas como a da gasolineira. Mas não será difícil vermos as séries nas plataformas mais importantes, como hoje não é muito difícil vermos um programa da TVI ou da SIC Mulher, ou seja, algures na oferta que temos esses programas existem.

Vamos acabar por conseguir ter acesso, por exemplo através de um bundle "agora subscreve aqui a Vodafone ou Meo ou NOS e tens a HBO e a Netflix e etc."

Isso acredito que daqui a dois ou três anos seja mais vulgar do que é hoje.

Mas isso vai, em princípio, penalizar esses negócios.

Isso é partir do princípio de que esse negócio [de venda do acesso ao conteúdo] é importante na chamada bottom line [no resultado financeiro de base] da empresa.

No caso da Netflix sim, no caso das outras não.

A Netflix só tem o negócio da subscrição, portanto, a única fonte de receitas da Netflix é aquilo que nós pagamos mensalmente — e que não serve, nem de perto nem de longe, para cobrir os custos. [A Netflix] começa a ter alguma publicidade, e eu nesse artigo [no Expresso] cito dois exemplos. O primeiro é o Comedians in Cars Getting Coffee, do Seinfeld: a última temporada já tem separadores do café Lavazza. A Netflix com “Stranger Things” fez acordos com a Levis e a Ben & Jerry’s para ter produtos associados, portanto aí temos outra fonte de receitas. Eu acredito que dentro de algum tempo, que tanto pode ser uma semana como dois anos, teremos nova temporada de “Stranger Things”, imaginemos, brought to you by Volkswagen” [patrocinada pela Volkswagen]. Aí, cada vez que ligarmos um episódio de "Stranger Things” aparece o logotipo da Volkswagen.

Nas outras empresas, como por exemplo na Disney, a plataforma serve sobretudo para, por um lado, a Disney não morrer — porque às vezes temos de fazer coisas para não morrer, isto é, para não deixar a Netflix crescer demasiado — e, por outro lado, para promover a venda para os passes dos parques temáticos Disneyworld e Disneyland, vender merchandising — e não são só os bonequinhos, são pijamas, chupa-chupas, o que for — e potenciar os seus universos. Neste caso, o universo Marvel e o universo Star Wars que são os mais fortes neste momento. Portanto, tens os filmes no cinema, tens as séries na plataforma, tens os brinquedos nas lojas, tens as atrações nos parques temáticos, tens cruzeiros.

Estamos todos na economia da atenção, se alguma pessoa estiver a ver esta entrevista no site não está a fazer outra coisa e isso significa que eu e vocês conseguimos captar a atenção dessa pessoa. Portanto, as pessoas são tão mais valiosas — e as propriedades [das marcas] são tão mais valiosas quanto conseguem captar a atenção do maior número de pessoas possível. Faz sentido que a Disney + se lance com uma série do Star Wars, que ainda por cima é boa — e não sei se reparaste que eles lançaram o Baby Yoda mais ou menos sem querer (que não é o Yoda bebé, mas a quem toda a gente chama Baby Yoda). O lançamento desse Baby Yoda foi tão inadvertido que nem havia brinquedos à venda neste Natal.

Acha que não foi de propósito?

Não foi de propósito porque eles não conseguiriam prever que seria um sucesso massivo ao ponto de encomendarem uns pijamas ou uns pratos de comida para bebé — e a Disney andou atrás das pessoas que começaram a fazer Baby Yoda falsos. Portanto, a Disney lançou sem querer esta série no Disney +, um personagem que eu acho que lhes vai dar milhões durante muitos e muitos anos. É só para veres como estas coisas são estranhas.

É uma questão de tempo até a Netflix ter um parque temático ou não?

O que se diz da Netflix, como creio que sabes, é que é uma noiva à procura de noivo, portanto, uma empresa à procura de quem a compre. Ou então é uma empresa que poderá continuar como está, tentando crescer, e talvez possa comprar coisas.

"[Quando a Netflix entrar no mercado da publicidade] as televisões vão começar a refilar, porque o dinheiro está a sair do mercado"

Acha que nunca vai diversificar? Eu digo isto porque eles têm feito um esforço por passar a ter portefólio próprio — até porque algumas das séries do seu portefólio atual vão para os seus canais de origem.

O que é que se entende por diversificar? Essa é que é a questão, porque a Netflix já está a diversificar, por exemplo já fazem cinema que é projetado em sala e isso pode dar origem a outro tipo de receitas (o bilhete do cinema, as pipocas). Além disso, diz-se que a Netflix poderá voltar a vender as suas séries às televisões — a Netflix quando lançou o House of Cards, por exemplo, a SIC comprou os direitos da série para Portugal. A Netflix começou a produzir séries, exibiu-as nos Estados Unidos e vendeu-as na Europa a outras televisões, inclusive a SIC, e fez com isso dinheiro. Depois optaram por ter uma lógica global e deixaram de vender as suas séries às televisões, mas diz-se na indústria que pode voltar a fazê-lo. Portanto, imaginemos que um canal como a SIC Radical, vou usar o exemplo português, compra o Narcos, aí tens uma diversificação de negócio, bem como a publicidade. Uma das razões por que a chegada da Netflix à Europa, ou mesmo nos EUA, não é vista com grande irritação por parte das televisões é porque não têm publicidade, isto é, não competem pelo mercado da publicidade, só competem pelo mercado da atenção e da subscrição. Mas eu acho que isso vai acontecer, para alguns clientes premium. Isto significa que a Volkswagen, por exemplo, pode, do bilião que tem por ano paga gastar em advertising [publicidade], decidir dar 200 milhões na Netflix e já só sobram 800 milhões para o resto. Aí se calhar as televisões vão começar a refilar porque o dinheiro está a sair do mercado.

Ainda bem que fala no assunto da publicidade, Portugal parece ser uma espécie de oásis no que toca às receitas publicitárias, porque em Portugal há uma grande parte dessas receitas — eu acho que os números de 2017 rondavam os 80% — vão para televisão. No mundo, esse valor se calhar está mais próximo dos 30%.

Não é tanto quanto 80%, mas é uma grande percentagem.

Porque é que acha que isso acontece em Portugal dessa maneira? É porque a televisão ainda tem um impacto muito maior em Portugal?

Nós tivemos uma ditadura de 48 anos, portanto, até 1974, e era uma ditadura que não apostava propriamente na educação do povo, na literacia, na educação para a literacia. Portanto, Portugal passou de uma era de quase analfabetismo para uma era de televisão, com o 25 de Abril. Nós não vivemos uma era de leitura. Os nossos jornais nunca foram muito fortes, por assim dizer. Depois com o 25 de Abril, e durante muitos anos, os jornais faziam parte do chamado combate político, e isto é uma interpretação minha, e os jornais populares morreram depressa. O Diário Popular, por exemplo, morreu depressa. Hoje em dia, se quiseres pôr publicidade num jornal sobra-te o Expresso, que é o jornal mais vendido em Portugal, se virmos as vendas por unidade, o Correio da Manhã, que vai para um público mais popular, e não sobra muito mais, terás o Público, os jornais desportivos não falam se calhar para o alvo que os anunciantes de imprensa querem. Ou seja, temos cada vez menos jornais em papel a serem vendidos, depois temos a publicidade no digital que é uma outra coisa, que funciona de outra maneira, e aí há mais escolha por parte dos anunciantes. Portugal tem também uma anormal penetração de publicidade exterior, chamada outdoor e mupis, tem muita publicidade nas televisões, sim, mas tem cada vez mais publicidade no digital e nas redes sociais (vamos dizer que são digital, obviamente, mas estou a distinguir só para que se perceba que não é apenas nos sites) e na rádio também.

Mas acha que isso acontece por sermos um mercado pouco maduro?

Não, eu acho que somos um mercado bastante maduro, mas somos um país com a história que temos, outros países terão outra história. As pessoas em Portugal não têm o hábito de comprar jornais e revistas, nunca tiveram verdadeiramente, e agora muito menos com os sites. E também não temos o hábito de pagar para ter sites, assinar sites, ter subscrição, vamos ver aonde é que isso nos leva. As pessoas estão no Facebook, veem uma notícia partilhada, leem as três primeiras linhas, isso acontece em todo o lado, “Jorge Jesus vai voltar ao Sporting”, pronto e não leem o resto que é “quando as vacas tiverem asas”. As pessoas não pagam pelo conteúdo, somos um país suis generis. Vejo que estás um bocado desiludido com a resposta.

"Os jornais têm de procurar perceber o que o seu público pretende, de forma a que se possam manter vivos enquanto empresas. Da mesma forma que o café do senhor Armando passou a ter rissóis de camarão e rissóis de leitão"

Não estou, até porque provavelmente concordo em certa parte.

Nem é uma questão de concordar. É importante que os media ganhem dinheiro para que possam ter jornalismo independente, é uma coisa que Portugal também é pouco percebido e para mim é francamente irritante. Isto significa que às vezes as televisões têm que ter programas um bocadinho mais assim, assado ou cozido de forma a que se possam ter receitas para haver um jornalismo forte. Um jornalismo forte é um jornalismo que vigia o poder, no bom sentido da palavra, e que explica e traduz às pessoas normais como nós o que é que se está a passar, porque é que aquele ministro é assim ou assado, etc. É importante que os media tenham modos de se financiarem.

créditos: Rodrigo Mendes | MadreMedia

Isso também é uma perspetiva muito idealista da coisa.

Isto são factos. É importante que se perceba, de uma vez por todas, que no limite as televisões ou as rádios ou os jornais têm de procurar perceber o que o seu público pretende, de forma a que se possam manter vivos enquanto empresas. Da mesma forma que o café do senhor Armando passou a ter rissóis de camarão e rissóis de leitão, que era uma coisa que não existia quando eu era miúdo, para manter as portas abertas, para que a caixa continue a faturar. A missão dos media é diferente, mas ainda assim o seu objetivo é poder pagar as contas do fim do mês, e as pessoas em Portugal não leem muito, para não dizer que não leem quase nada. As pessoas podem ler o jornal quando estão no café, toda a gente faz isso, ou quase toda a gente faz isso, mas se calhar não dão 1,10€ (não sei quanto é que custa um jornal) na tabacaria. Ora, se eu não compro jornais e se não pago pelo site, como é que o jornal se vai manter vivo? Só com publicidade? Isso não é possível, portanto, era aí que eu queria chegar. Antigamente havia mais publicidade nos jornais, porque não havia o digital, e os jornais iam-se mais ou menos aguentando, agora com a concorrência do digital e com esta concorrência que eu falava que no Facebook, Twitter ou o que for, onde vem um bocadinho da notícia, as pessoas escusam de comprar o jornal. Com esta concorrência o panorama não é muito favorável para os jornais em papel.

Quando estava a falar de idealismo tinha só a ver com o objetivo das empresas de media, que em última análise é fazer dinheiro para poder pagar aos acionistas. Percebendo que possam existir motivos como por exemplo fazer jornalismo independente ou entreter as pessoas, em última instância, se tivermos de sacrificar à partida uma coisa em detrimento da outra, deduzo que o objetivo máximo continue a ser manter-se aberta. E se tiver de sacrificar, como já aconteceu, aliás, um jornal ou uma revista, provavelmente vai acontecer.

Sim, quero acreditar que não aconteça. Também tem a ver com conhecer a história dos primórdios dos jornais: os jornais começaram a existir como veículos de publicidade. Por exemplo, o escritor Júlio Verne foi contratado, literalmente contratado, “olha escreve aí umas histórias em fascículos se faz favor para ver se a malta compra isto (isto é o jornal), para ver os anúncios que eu tenho aqui”. Se formos a ver os grafismos dos jornais do século XIX estão cheios de pequenos anunciozinhos por todo o lado. Portanto, esta ideia romântica de que os jornais nasceram porque havia pessoas que queriam contar a verdade é uma ideia romântica, não passa disso mesmo. É muito importante entender, creio eu, que não há jornalismo forte ou informação forte se os meios que nos estão a dar essa informação não forem empresas saudáveis economicamente, que possam falar mal do motor Volkswagen sem ter medo de que a Volkswagen cancele a publicidade, é aí que quero chegar.

"A televisão é muito importante na vida das pessoas e esse é o segredo da resiliência da televisão"

Como é que um miúdo que não se habituou a ver televisão vai ver televisão no futuro?

As pessoas veem muito mais televisão do que pensam e têm uma relação com a televisão muito intensa e muito surpreendente. Ainda agora nós estreámos na SIC um programa – “A Máscara” – que teve ótimas audiências, mais de 1,6 milhões de pessoas viram o programa todo. No entanto, se fores ver as redes sociais aquilo foi um ato masoquista para muita gente: as pessoas comentam “aquilo não presta”, “eu não gosto”. A televisão é muito importante na vida das pessoas e esse é o segredo da resiliência da televisão — e é o que me leva a crer, enquanto pessoa que trabalha em televisão e estuda, que a televisão vai sobreviver. As pessoas têm uma relação muito intensa com a televisão que não têm com as séries da Netflix.

Aliás, uma das coisas que talvez venha a acontecer com a Netflix futuramente é que em vez de lançarem as séries todas para o binge-watching [disponibilizar a temporada toda de uma vez] optem por lançar, em alguns casos, um episódio por semana. É que isso mantém a conversação viva nas redes sociais. Nós vimos agora isso com a HBO, que teve uma série chamada “Watchmen” e cujos episódios foram depois comentados e interpretados, e ainda lemos as críticas e tal. Se a série fosse lançada toda de uma vez se calhar duraria uma ou duas semanas nas redes sociais, mas esta teve 9 episódios, teve 9 semanas de conversa coletiva.

Como é que se ensina uma criança a ver televisão linear? Eu acho que essa pessoa vai acabar por ser atraída inevitavelmente pelo íman que é a televisão tradicional, porque a televisão tradicional tem uma trepidação, tem um “olá, sejam bem-vindos”, tem uma alegria, tem uma energia, um nervosismo, uma carga elétrica que te prende. Muitas vezes as pessoas da minha idade dizem "como era ótimo nós brincarmos na rua e jogarmos à bola na rua". Eu tenho uma má notícia para essas pessoas: é que não estava a dar nada de jeito na televisão ou não havia televisão ainda. Se nós tivéssemos o “Stranger Things” naquela altura, ninguém ia jogar à bola na rua, íamos ficar em casa a ver a série. Portanto, esta ideia romântica de que as pessoas gostavam de andar de joelhos esfolados e brincar com paus... os jovens estavam era aborrecidos porque não tinham nada para fazer, porque se tivessem muito boa televisão, se tivessem vários canais e Spotify e não sei quê, tinham ficado em casa a ver esses conteúdos.

O que é que falta para haver uma grande série portuguesa com projeção internacional em mercados europeus?

Sorte, acaso. A “Casa de Papel” foi uma questão de sorte. Estou convencido que nos próximos 10 anos — isto pode escrever-se e cobrar mais tarde — que vai haver um momento na televisão portuguesa em que, por sorte ou por casualidade, um programa nosso, ou uma cara nossa, ou uma série nossa, ou um filme nosso, ou um documentário nosso, português, vai ter uma dimensão, não diria global, mas... Por exemplo, “A Máscara”, que estreámos na SIC, é um formato fortíssimo por todo o mundo e foi um americano que estava com a família na Coreia e espreitou para a televisão e viu o conceito.

Portugal é um país com uma economia fraca, débil, é um dos países que menos cresce na União Europeia, e a televisão é um mundo que suga dinheiro a uma velocidade impressionante. Quem trabalha em audiovisual sabe que nós em Portugal fazemos o trabalho de seis ou sete pessoas: somos guionistas, câmaras, iluminamos, etc., e que em mercados maduros, como o americano, o espanhol ou alemão, isso não é assim, tens equipas a sério para trabalhar.

Depois, eu comparo muito a televisão a um casamento, onde a nossa atenção acaba para ser muito mais para o facto de faltar um botão na camisa do empregado que nos está a servir ou para o facto de a noiva já estar de chinelas, ou seja, para as pequenas imperfeições daquele conjunto, do que propriamente para o facto de o vestido da noiva ser bonito. A televisão expõe-se muito, nós estamos literalmente a olhar para um ecrã durante uma hora, e é muito fácil notar as imperfeições. A televisão portuguesa, porque não tem muito dinheiro, aliás não tem dinheiro nenhum quando comparada com as outras televisões, ainda tem muitas imperfeições – tem sombras, tem às vezes atores que não são muito bons, tem falhas de iluminação, falhas de som, não se percebe bem o que dizem, e não se percebe bem o que dizem porque não deu para repetir a cena.

Eu agora que estou mais velho estou mais calmo, mas durante muitos anos eu achava que o que os portugueses mereciam era uma semaninha com os canais todos desligados, no sentido de verem aquilo que lhes faz falta. A coisa mais fácil que há é falar mal — e as pessoas podem falar mal, sem problema nenhum, não é isso que está em causa, mas às vezes precisávamos de um reality check, de um choque de realidade, para se perceber que nós que trabalhamos em televisão estamos a fazer... nem ovos nem omeletes! A nossa televisão é francamente superior aos meios que nós temos. É duvidoso que um executivo da televisão americano não se desatasse a rir quando visse os nossos orçamentos para certos programas de televisão. Um episódio de um talent show na Alemanha, tipo “Ídolos”, chega a um milhão de euros. Um episódio em Portugal de “Got Talent” ou “Ídolos” é dez ou quinze vezes menos. Se calhar um alemão vinha cá e olhava para o orçamento e pegava no avião e voltava para a Alemanha. Nós na televisão portuguesa continuamos a achar que vale a pena e que é possível fazer, e assim é que temos feito. Portugal é um país que cresce pouco, portanto, as empresas não têm muito dinheiro e isso faz com que a nossa televisão sofra com essa falta de liquidez, como se costuma dizer no mercado.

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