Este texto faz parte de uma série de três artigos sobre as razões do voto na segunda volta das eleições brasileiras. Sem ruído, pretende ouvir e espelhar o que motiva estes eleitores a votar nos candidatos Jair Bolsonaro ou Fernando Haddad ou a votar em branco ou nulo. Os testemunhos expressos são de eleitores a viver em Portugal e no Brasil e que aceitaram falar com o SAPO24.

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Jair Bolsonaro, de 63 anos, está na política brasileira há quase três décadas.

O capitão do Exército na reserva disputa pela primeira vez a presidência da república no Brasil, concorrendo com o General Mourão (PRTB) como vice, pela coligação que dá pelo nome “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Jair Bolsonaro ganhou notoriedade nos últimos anos e transformou-se num líder capaz de mobilizar milhares de eleitores desiludidos com a mais severa recessão económica da história do Brasil, que eclodiu em 2015, e com os escândalos de corrupção que envolveram vários líderes políticos, incluindo o ex-presidente Lula da Silva, condenado a 12 anos de prisão.

A 6 de setembro, durante uma ação de campanha na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, o candidato do PSL foi esfaqueado na região do tórax. Internado em estado grave e sujeito a duas cirurgias, Bolsonaro viu-se impedido de continuar a campanha eleitoral, sendo substituído no terreno pelos seus dois filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o recém-eleito senador pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro. Jair Bolsonaro deixou o hospital a 29 de setembro, depois de ficar mais de três semanas internado. Durante esse período, subiu nas intenções de voto dos brasileiros e consolidou a liderança na corrida eleitoral.

A primeira volta, a 8 de outubro, confirmou a tendência revelada nas sondagens e venceu o sufrágio com 46,06% dos votos.

O final da campanha para a segunda volta ficou marcado pelo facto de Bolsonaro não participar — por questões de saúde e com justificativo médico — em debates com o seu opositor, Fernando Haddad; e pela reportagem do jornal brasileiro Folha de S. Paulo, que denunciava a alegada compra da divulgação massiva de informações falsas através do WhatsApp contra o Partido dos Trabalhadores (PT), de Haddad. Esta campanha terá sido realizada antes da primeira volta das presidenciais e patrocinada por empresários apoiantes de Bolsonaro.

Considerado um candidato antissistema, conservador e cujas declarações têm gerado polémica, Bolsonaro é para muitos eleitores a esperança na rotatividade política, na resposta à violência e no fomento económico. Mas também é, para outros tantos, a alternativa ao PT de Haddad e, sobretudo, de Lula.

Jorge, 33 anos, agente imobiliário, vive em Belém

Jorge voltará este domingo a votar em Bolsonaro, apesar de confessar que este não era, à partida, o seu candidato. O seu voto, inicialmente, iria para Geraldo Alckmin do PSDB, ou para João Amoêdo, do Partido Novo. "Sou Bolsonaro não porque essa seja a minha primeira opção, sou Bolsonaro porque não quero que um governo de esquerda volte a governar o meu país", diz.

O agente imobiliário justifica a sua escolha pelo candidato do PSL com o "desastre económico do Governo 'petista'" que, diz, atingiu vários setores, inclusive aquele para o qual trabalha. Acresce a isto a questão da segurança pública, "que virou um caos".

"Antes do governo 'petista' [em referência ao Partido dos Trabalhadores], o Brasil era um pouco violento, mas mesmo assim você podia ficar na porta da sua casa até altas horas da noite conversando com os seus vizinhos e não seria assaltado. Até isso mudou. Hoje em dia a gente sente uma insegurança ao sair à rua. Parece que ao longo desse governo os marginais perderam o medo da polícia".

Não existe meio-eleitor, ou é de direita ou é de esquerda. E os eleitores deixaram de ser apenas eleitores e viraram agentes de campanha dos seus candidatos

Jorge diz que esta é a eleição da "direita contra a esquerda", que "não há meio-termo" porque a "população está extremamente cansada do governo da esquerda". "Então a maioria vai votar no governo do Bolsonaro não porque ele é um salvador, mas porque ele é a única opção contra a esquerda", explica. Isso aplica-se, a seu ver, até aos eleitores das minorias ou de grupos ativistas, como a comunidade LGBT, que é comummente conotada com a esquerda.

Sobre a polarização destas eleições, o agente imobiliário ressalva a questão do papel do eleitor-militante, grupo do qual assume fazer parte. "Ambas as partes vestiram a camisa do seu candidato e estão a dar o seu melhor para que ele seja eleito. Não existe meio-eleitor, ou é de direita ou é de esquerda. E os eleitores deixaram de ser apenas eleitores e viraram agentes de campanha dos seus candidatos. Eu me tornei um desses eleitores que fazem campanha para o Bolsonaro, assim como quem vota no Haddad veste a sua camisa para fazer campanha. Deixou de ser uma eleição onde os eleitores guardam para si os seus votos, agora fazem com que outras pessoas venham para o seu lado".

Edu, 27 anos, advogado, vive no Rio de Janeiro

Edu votou no primeiro turno [como se refere no Brasil a primeira volta das eleições] em Bolsonaro e vai voltar a depositar a sua confiança no candidato do PSL. Porquê? "A resposta curta é que ele não é o PT", diz prontamente.

"É inconcebível que depois de tudo o que aconteceu nos últimos anos, não só ao nível da corrupção com a Lava Jato, mas também com o total fracasso do governo do PT do ponto de vista económico, que a gente esteja sequer considerando reconduzir [este partido] ao poder. Assusta-me demais a perspetiva de recolocar esse grupo no poder".

A decisão não foi imediata, mas foi ganhando contornos decisivos à medida que a campanha eleitoral avançou e o candidato do PSL se destacou nas sondagens.

"A resposta curta é que ele não é o PT"

"Fui aos poucos me convencendo que, apesar de saber que ele não é uma pessoa preparada para isso — não teve uma experiência na vida pública que conduzisse naturalmente ao cargo a que está prestes a chegar —, ele tem humildade, parece querer cercar-se de pessoas que sabem o que estão a fazer e parece genuinamente querer o melhor para o país, ainda que nem sempre a opinião dele sobre o que é melhor para o país coincida com a minha e com a maioria dos brasileiros. Mas poderia dizer o mesmo dos adversários dele".

Sobre se estas eleições colocam lado a lado a ideia de democracia e ditadura, o advogado carioca admite que "a compreensão de Bolsonaro sobre democracia é imperfeita". "Ele tem falas, principalmente no passado, mas também agora, não vou negar, que deixam transparente que ele não aceita os limites da democracia liberal que a gente costuma estabelecer no ocidente", diz. Mas Edu também não acha que Bolsonaro seja tudo o "que tentaram pintar nestas eleições" e que o PT tem as mesmas limitações.

Anónima, 28 anos, vive em Niterói

Antes de explicar a sua decisão de votar em Bolsonaro, explica que o maior problema destas eleições "é a alta intolerância das pessoas com o tema". "Está um clima de ódio muito grande com quem pensa diferente da esquerda. Eu não gosto do Bolsonaro, porém votarei nele, sim, apesar deste candidato defender muitas ideias exageradas, com as quais não concordo". Por causa desse clima, esclarece, prefere o anonimato.

Bolsonaro, "embora não seja o meu candidato original, e, realmente, não seja perfeito, nunca se envolveu em esquema de corrupção. Acusam ele de ser racista e homofóbico porque não o podem chamar de corrupto. Já o PT usou 1,4 bilhões na campanha em 2010 e 2014, se envolveu no Mensalão, o maior esquema de corrupção da história e nos esquemas que originaram a Lava Jato, tanto que Lula está preso”.

A razão do seu voto "não é uma questão de afinidade ou ideologia". Considerando o estado atual das coisas, diz que "parece que o brasileiro não deseja ser livre e responsável pelos seus atos. Não deseja o Estado como mero colaborador, mas como fonte eterna de dependência social e económica”.

Não se pode ter certeza do que ocorrerá se Bolsonaro ganhar, tendo ele o benefício da dúvida. Mas, há certeza do que ocorrerá se o PT ganhar

Sobre as propostas, salienta que o candidato do PSL “defende a economia do livre mercado, quer diminuir burocracia e ministérios inúteis”. “Temos um número absurdo de ministérios que só geram gastos e nada fazem”, considera.

Por fim, diz que não crê que “os argumentos 'ad terrorem' dos apoiadores do PT irão se materializar”. “Não se pode ter certeza do que ocorrerá se Bolsonaro ganhar, tendo ele o benefício da dúvida. Mas, há certeza do que ocorrerá se o PT ganhar, depois de 13 anos”, termina.

Cristina, 46 anos, auxiliar administrativa, a viver em Portugal há 11 anos

"Para mim não era nem o Bolsonaro nem o Lula. Lula não, o Haddad ", diz quando lhe perguntamos o porquê de votar no candidato do PSL.

"O Lula foi um ótimo presidente. Não é a Dilma, não será o Haddad. Foi o Lula. E ninguém pode tirar isso. Inclusive, falo isso para todo o mundo, eu lhe agradeço a minha legalização aqui em Portugal, que foi ele que trouxe os acordos".

"Não vou dizer que o Bolsonaro seja um ótimo presidente, mas os brasileiros procuram paz e ele tem esse foco"

Mas "no Brasil o problema não é mais dinheiro ou desemprego, é um problema de violência. O que eu estou vendo, mesmo estando fora do Brasil, é que ele [Jair Bolsonaro] vai resolver esse problema. Não vou dizer que o Bolsonaro seja um ótimo presidente, mas os brasileiros procuram paz e ele tem esse foco".

O fim da violência não será conseguido, na opinião de Cristina, através da uma política de liberalização do porte de arma, "porque violência só gera violência", diz. "Se lhe dão uma arma e me dão uma arma, isso só vai gerar violência", continua. No entanto, também não acha "que isso seja uma proposta [de Jair Bolsonaro], como estão dizendo, que 'arma vai ser vendida no catálogo da Avon'. Eu espero que ele acabe com a violência de outra forma, na lógica do bandido na cadeia e do inocente na rua, não dando armas para todo o mundo".

Raphael, 35 anos, com formação em jornalismo e a trabalhar na restauração, de Minas Gerais a viver em Portugal

"Votaria sempre no Bolsonaro e não votaria de jeito nenhum no PT”, começa por dizer quando iniciamos a chamada. "O Brasil não aguenta mais o PT, foram 16 anos para fazer alguma coisa e 16 anos é muito tempo", acrescenta.

"O Bolsonaro não é um candidato perfeito, se existe hoje foi por causa da política do PT nos últimos anos. Há dez anos um candidato como ele não existiria", diz. E porque é que existe hoje? "Porque há um desrespeito pela lei, criminalidade alta e corrupção sem precedentes no país."

Raphael vê no sentimento generalizado de insegurança uma das razões de força maior para votar no militar do Exército na reserva, que considera ter maior capacidade de fazer frente ao problema. E dá como exemplo: "Você não pode sair de casa no Rio de Janeiro depois das oito [da noite] ou é assaltado ou morto". No entanto não acredita que a proposta sobre a reformulação do Estatuto do Desarmamento vá para a frente, pelo menos nos moldes como é agora apresentada. "Tem que mexer na Constituição, tem de passar no Congresso e na Câmara", diz. "Eventualmente pode flexibilizar, mas essa coisa de liberar armas para toda a gente é uma lenda”, considera.

"Votaria sempre no Bolsonaro e não votaria de jeito nenhum no PT"

Mais. O brasileiro a viver em Portugal destaca a troca de favores políticos como outro motivo de valorização do programa de governo do candidato do PSL. Diz Raphael: "Bolsonaro quer acabar com o 'toma-lá, dá-cá'. Todos os outros candidatos estão dispostos a fazer grandes coligações e coligações no Brasil traduz-se em favores. E o que são favores? São cargos políticos. Bolsonaro quer colocar cada especialista da área para ser ministro sem ter esse apoio toma-lá, dá-cá".

Jenner, 37 anos, economista, vive em Brasília

O economista nascido em Salvador e a viver na capital federal do Brasil votará em Bolsonaro. "O voto em Bolsonaro é a opção de tirar o PT" do poder, diz-nos via WhatsApp.

Uma das suas principais preocupações, a "insegurança que existe no país", coincide, diz-nos, com as do candidato do PSL.

Para além disso, destaca a proposta da Reforma da Providência — o equivalente à Segurança Social em Portugal e que o candidato adversário já disse estar contra. Jenner assume que essa é "uma medida antipopular" mas "de extrema importância para o país".

Irineu, 62 anos, jornalista e escritor, vive em São Paulo

O voto do jornalista paulista na primeira volta foi para o candidato do Partido Novo, João Amoêdo. Mas agora será depositado em Jair Bolsonaro. "O que eu quero é que a esquerda saia do Brasil, quero que esses socialistas e marxistas saiam e não governem mais", justifica. "Voto não porque concorde com pensamento dele [Jair Bolsonaro], mas porque é antimarxista", esclarece. Na opinião do jornalista, as principais áreas da sociedade, como a imprensa, a justiça, as universidades e os grupos ativistas, estão "dominadas" por marxistas.

"O que eu quero é que a esquerda saia do Brasil, quero que esses socialistas e marxistas saiam e não governem mais"

Sendo Bolsonaro muito criticado por algumas declarações que fez sobre a comunidade homossexual, o jornalista e autor de um livro sobre televisão e sexualidade defende que essas críticas são exageradas e que o pior governo no Brasil para os homossexuais foi o de Lula. "Ele reduziu a verba dos medicamentos para os doentes de Aids [SIDA] e todas as conquistas civis para os gays não foram conseguidas no Congresso mas no Superior Tribunal Federal", diz. Mais, afirma "isso não foi um escândalo" porque "todos os movimentos gays foram capturados pelo PT e que até hoje é assim".

Da mesma forma que circulam vídeos de Bolsonaro com declarações menos simpáticas para com a comunidade homossexual, o escritor diz que também tem "vídeos do Lula falando muito mal [homossexuais]". Mas, critica, o que chega a Portugal e à Europa é diferente do que circula no Brasil e culpa a imprensa por isso.

Sobre todas as críticas apontadas ao candidato do PSL, entre elas o de ser homofónico, o jornalista e escritor diz que, por estes dias, "já não cola mais no Brasil". "Qualquer coisa que você fala contra o Bolsonaro dá pontos para ele, porque as pessoas não aguentam mais a vitimização da esquerda", diz.

Carlos, 54 anos, jornalista correspondente, vive em São Paulo

O jornalista brasileiro que já foi correspondente do extinto jornal O Independente, da Rádio Comercial e da TVI, faz agora comentários na RTP África. Este domingo votará em Bolsonaro.

"Desequilibrar o jogo"

Enquanto eleitor, o que o faz votar no candidato do PSL é a vontade de "desequilibrar o jogo". E enumera alguns pontos que considera fundamentais na candidatura de Bolsonaro e que têm, na sua análise, esse fim: "tirar o Brasil de um caminho que está indo para a esquerda"; que "nos próximos anos ministros conservadores assumam o Supremo Tribunal Federal"; que o "Brasil entre numa rota de diminuição do tamanho do Estado", que o "Governo que olhe para o Estado e diga que o brasileiro não aguenta mais carregar esse peso nas costas"; "abrir o mercado brasileiro para empreendedores"; e "fazer o dinheiro circular". A dicotomia está, na sua opinião, "entre Haddad, que é tudo aquilo que já aconteceu antes, e [pode] voltar a se repetir, e um governo que não temos a certeza que vá fazer isto, mas que pelo menos sabemos que não vai ser o outro".


Os candidatos Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL) e Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT) irão defrontar-se este domingo, 28 de outubro, na segunda volta das eleições presidenciais brasileiras, onde 147 milhões de brasileiros decidirão quem será o sucessor de Michel Temer na Presidência do país. Nas últimas sondagens do Instituto DataFolha Bolsonaro aparece com 55% das intenções de voto enquanto Haddad tem 45%.

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