O aquecimento global é o principal fator, mas outros também alimentam o problema, como a má gestão das florestas ou a construção de casas perto desses espaços verdes. "O paciente já estava doente", afirma David Bowman, professor da Universidade da Tasmânia, na Austrália, e especialista em incêndios florestais, "mas as mudanças climáticas são o catalisador".

Um clima quente, seco e ventoso cria as condições ideais que favorecem os incêndios florestais. Por isso, não é uma surpresa que as regiões devastadas pelos incêndios sejam aquelas onde as temperaturas e as secas estão a aumentar como resultado do aquecimento global.

"As mudanças climáticas, além de trazerem ar mais seco e quente, criam ecossistemas mais inflamáveis ao aumentarem a taxa de evaporação e a frequência das secas", explica Christopher Williams, da Universidade Clark em Massachusetts, também citado pela agência France-Presse. O sul da França e Portugal registaram vários episódios de seca nos últimos 20 anos. Antes acontecia um a cada 100.

Nas zonas temperadas do hemisfério norte, a temporada de incêndios limitava-se tradicionalmente a julho e agosto. Atualmente, pode estender-se de junho a outubro na bacia mediterrânea. Na Califórnia, os especialistas estimam que agora os incêndios florestais podem ter início em qualquer momento do ano.

A seca causa outro problema: a criação de combustível inflamável. "Estes anos de seca extrema ou repetida, em maior número que no passado, criam uma grande quantidade de biomassa seca" com árvores e arbustos mortos, aponta Michel Vennetier, engenheiro e investigador do Instituto Nacional de Pesquisa em Ciência e Tecnologia para o meio ambiente e a agricultura (Irstea). "É um combustível ideal". Um clima mais seco também se traduz num aumento de raios e de possíveis incêndios. No entanto, é importante destacar que 95% dos incêndios continuam a ser de origem humana.

Para piorar as coisas, estão a desenvolver-se espécies melhor adaptadas a condições semiáridas. Nas áreas mediterrâneas, a natureza do sub-bosque está a mudar. "As plantas que gostam de humidade desaparecem e são substituídas por outras plantas que suportam melhor a seca, como o alecrim, o tomilho, a lavanda selvagem, que são mais inflamáveis", refere Michel Vennetier.

Mas as plantas não se estão apenas a adaptar, estão a tornar-se mais sedentas. Com o aumento do mercúrio e menores precipitações, as raízes dos arbustos e das árvores começam a bombear água mais profundamente no solo. Como consequência disso, deixa de existir a terra húmida que poderia ter desacelerado um incêndio florestal.

A perda de massa florestal acaba por contribuir para um ciclo vicioso, já que as florestas são gigantescos absorventes de carbono, que armazenam cerca de 45% do carbono de todo o mundo. Quando queimam, parte do carbono liberta-se na atmosfera, o que contribui para o aquecimento global.

Outro fator que dificulta o combate aos fogos e auxilia a progressão dos incêndios é a alteração da natureza dos ventos. O clima na América do Norte e Eurásia depende fortemente dos ventos em altitude — a corrente de jato — produzidos pela diferença de temperaturas entre as zonas polares e equatoriais. Mas o aquecimento global, resultante num aumento das temperaturas no Ártico, debilita estas correntes. As consequências são "mais eventos meteorológicos extremos" causados por correntes de ar descendentes, que aquecem e secam", explica Mike Flannigan, professor da Universidade de Alberta, no Canadá.

As mudanças climáticas aumentam a probabilidade de incêndios florestais, mas também a sua intensidade. "Se os incêndios se tornam fortes demais, como é o caso atualmente na Califórnia e como vimos na Grécia há algumas semanas, não há medidas que possam detê-los diretamente", estima Mike Flannigan. "É como cuspir numa fogueira para extingui-la", acrescenta.

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