"É verdade que não é a comunicação social que tem obrigação de formar as pessoas e a população, mas a comunicação social tem alguma quota-parte de responsabilidade naquilo que é a formação e a informação das pessoas. Aquilo que me deixa preocupado neste contexto é uma autêntica caça às bruxas que neste momento está a acontecer, sobretudo à volta do Hospital de Setúbal", disse à agência Lusa, o presidente da Associação Portuguesa de Diagnóstico Pré-Natal (APDPN), Álvaro Cohen.

O presidente da Associação Portuguesa de Diagnóstico Pré-Natal falava à agência Lusa na sequência da noticia do jornal Público sobre a existência de mais três casos de malformações não detetadas nas ecografias realizadas pelo médico obstetra Vítor Gabriel, diretor clinico de Centro Materno-Infantil de Setúbal e médico do quadro do Centro Hospitalar de Setúbal, que integra o Hospital São Bernardo.

"Aquilo que sai cá para fora são situações de autêntico linchamento. Esta última situação (do médico Vítor Gabriel) sei que aconteceu há oito anos ou mais. São situações que, ou estão a ser investigadas, ou já foram investigadas, ou o que quer que seja. E não são só estas situações que surgiram (em Setúbal), são outras situações que têm vindo a surgir. Eu sou convidado, praticamente todos os dias, por órgãos de comunicação social para ir comentar ecografias de senhoras que se queixam", disse.

"Há cerca de 30 a 40% das malformações que nós não diagnosticaremos nunca". As ecografias só permitem diagnosticar 60 a 70% das malformações estruturais

"As senhoras agora pegam no telefone, ligam para um órgão de comunicação social e, imediatamente, têm abrigo às queixas. E parte-se logo do princípio de que os médicos erraram e que os médicos não viram aquilo que deviam ver”, disse.

“Não há médico nenhum, por mais experiência que tenha, que não tenha deixado passar malformações, porque nós só conseguimos diagnosticar 60 ou 70% das malformações estruturais todas que o bebé pode ter. Portanto, há cerca de 30 a 40% das malformações que nós não diagnosticaremos nunca. E de repente as pessoas acham e lembraram-se que a ecografia consegue diagnosticar as malformações todas", acrescentou Álvaro Cohen.

O Ministério Público já arquivou as queixas-crime apresentadas contra Vítor Gabriel, mas os pais de um menino que nasceu com múltiplos problemas, incluindo a falta de vértebras e de um rim, ainda reclamam, no tribunal cível, uma indemnização de 145 mil euros.

Segundo o jornal Público, o obstetra Vítor Gabriel é acusado de não ter detetado malformações no feto de uma menina que nasceu em 2010 com síndrome de Pierre Robin, sem palato e parte do maxilar, e de uma outra menina que nasceu com malformações no braço e na mão direita.

O obstetra Vítor Gabriel, que, segundo o Centro Hospitalar de Setúbal, possui declaração de idoneidade do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos para o exercício da ecografia Ginecológica/Obstétrica desde 1992 e acreditação internacional da Fetal Medicine Fundation, para a realização de ecografias do 1.º e 2.º semestre, é ainda acusado de não ter detetado as malformações no feto de um menino, hoje com oito anos, que nasceu com síndrome de Regressão Caudal, sem rim de um dos lados, malformações na coluna, pé boto e outros problemas.

Contactado pela agência Lusa, através do hospital São Bernardo, Vítor Gabriel não quis prestar declarações, mas antes disse ao jornal Público que em dois casos a dificuldade foi "a posição do feto" e, no terceiro, "a obesidade" da progenitora.

No caso da menina que nasceu com a síndrome de Pierre Robin, Vítor Gabriel disse ter feito apenas uma ecografia fora da altura em que o problema seria detetável, às 18 semanas e quatro dias, mas foi desmentido pela mãe da criança que enviou ao jornal quatro ecografias alegadamente efetuadas pelo médico em causa, às oito semanas e um dia, 18 semanas e quatro dias, 22 semanas e a última, às 32 semanas.

No caso do menino com falta de vértebras, Vítor Gabriel argumentou que, à exceção do pé boto, as malformações desta criança não eram visíveis, que a "anomalia na coluna, tubo digestivo e aparelho urinário não são detetáveis na ecografia" e que as "hemivértebras também podem não se ver na ecografia, com o bebé dobrado dentro da barriga da mãe".

Comunicação social "está a meter no mesmo saco situações que não são comparáveis"

O presidente da APDPN, sem querer abordar os casos concretos por não os conhecer em detalhe, garantiu, no entanto, que "não vê erros grosseiros" neste último caso.

"Eu não sei onde é que estão ali erros grosseiros. É verdade que aquilo está integrado num síndrome de regressão caudal, mas aí são situações que nós, quando fazemos a ecografia, não podemos diagnosticar nem ver", disse Álvaro Cohen.

Também sem se referir em concreto ao caso recente do bebé sem rosto, em que as ecografias foram feitas numa outra clínica privada de Setúbal, pelo também obstetra do Hospital São Bernardo, Artur Carvalho, entretanto suspenso pela Ordem dos Médicos, o presidente da APDPN admitiu que "se um médico faz uma ecografia e diz que viu o nariz da criança sem o ver, ou se não justifica porque não conseguiu ver, isso constitui um erro grosseiro".

Certo para o presidente da APDPN, é que a comunicação social, com a denúncia de vários casos de malformações não detetadas nas ecografias "está a meter no mesmo saco situações que não são comparáveis".

"Nós temos um nível médio de ecografia obstétrica em Portugal melhor, muito melhor, do que em França, na Inglaterra e na Espanha", defendeu.

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