Chegou ao Congresso um pouco mais tarde do que o previsto, mas escusou fazer qualquer declaração aos jornalistas à chegada. "Vão ter oportunidade de ouvir aquilo que tenho a dizer ao congresso daqui a poucos minutos", limitou-se a dizer. Todavia, tal não significou que não fosse aplaudida de pé pelos congressistas quando entrou na sala e quando subiu ao púlpito.

Há quatro anos dei-me a conhecer e propus um caminho para o nosso partido. Um caminho focado na resolução concreta dos problemas das pessoas e assente na nossa matriz comum: a nossa carta de princípios alicerçada na democracia cristã", começou por dizer.

"Propus um caminho de posição firme e construtiva, com ambição e responsabilidade. A ambição de olhar para todo o país e territórios mais desfavorecidos", acrescentaria depois.

No momento da despedida, Cristas agradeceu com um "obrigada" ao partido, militantes, dirigentes, deputados, autarcas, e recordou o seu trabalho na oposição ao Governo do PS, com o apoio das esquerdas, com base numa estratégia aprovada em anteriores congressos, em Gondomar (2016) e Lamego (2018).

"Dissemos com clareza que queríamos ser parte de uma maioria alternativa de centro e de direita em Portugal e que trabalharíamos para contribuir o mais possível para a conquista dos 116 deputados necessários para a governação", afirmou.

"Cumpri o caminho traçado e a estratégia proposta. Mas cumpre-me hoje reconhecer uma evidência: falhei o resultado. Falhei por ventura análise de possibilidades que se abriam com as novas circunstâncias políticas e os resultados ficaram aquém das minhas e as vossas expectativas", disse.

Durante um discurso que durou 13 minutos, afirmou que "nenhum partido em Portugal" estava disposto a fazer uma oposição "a sério e inequivocamente contra o socialismo". Ou seja, na sua opinião, o CDS teve "uma voz aguerrida".

Assunção Cristas
Rita Sousa Vieira | MadreMedia

De seguida, enumerou o trabalho feito, mas que parece não ter sido suficiente. E reiterou que "oposição combativa, tantas vezes isolada" quando houve "má ação ou inação deste Governo". Cristas lembrou que o CDS se bateu contra a "eutanásia" ou as "barrigas de aluguer", esteve em contacto permanente com as "pessoas no terreno" e colocou em cima da mesa propostas "para promover a natalidade e ajudar as famílias", sem esquecer as empresas com o intuito de "dinamizar a economia". Nem "bastou" ter insistido no tema de Pedrógão Grande e os incêndios.

"Uns dirão que a estratégia estava errada. Outros dirão que cometemos erros táticos ou na comunicação. Ouvi atentamente muitas análises e, naturalmente, tenho a minha própria. Mas este não é o momento nem o dia apropriado para dissecar os erros desse roteiro. O tempo encarregar-se-á dessa análise detalhada", explicou.

Assunção Cristas realçou que entrou há mais de 10 anos no partido e que sai com a mesma liberdade com que entrou. E que fez tudo ao seu alcance.

"Entrei há 12 anos para o CDS, comecei como alguém que vinha de fora. Hoje saio da liderança com a mesma liberdade com que entrei para o partido. Aprendei, conheci pessoas extraordinárias, desbravei novas linguagens, aprendi com a natureza humana, com o que tem de bom e de mau, e sobre ela refleti, defendi apaixonadamente aquilo em que acredito. Dei o melhor que pude e sabia", completou.

"Saio triste pelo resultado, mas tranquila"

Assunção Cristas também lembrou outros membros do partido. As primeiras palavras foram para Nuno Magalhães, mas Assunção Cristas também reservou algumas palavras sentidas a Cecília Meireles, líder centrista no parlamento.

"Nesta altura de transição, por natureza sempre difícil e nesta nossa circunstância ainda mais exigente, é também com muito orgulho que vejo a Cecília Meireles honrar o nosso partido com um trabalho extraordinário na liderança do grupo parlamentar. Muito, muito obrigada, Cecília", alongou Cristas.

Porém, aos presentes, deixou um apelo em jeito de pedido: para que o debate neste congresso fosse "profundo, sério e a olhar para o futuro" porque "na política não há boas ideias sem boas pessoas".

"Se vos posso fazer um pedido é que o debate deste congresso seja profundo, sério, leal e a olhar para o futuro. Um debate assente nas ideias e nas pessoas, porque em política não há boas ideias sem boas pessoas para as defender e o inverso também é verdade", referiu Assunção Cristas.

Assunção Cristas
créditos: Rita Sousa Vieira | MadreMedia

"Logo a seguir às eleições alguém me perguntou se saia da liderança angustiada e desiludida com a política.  A resposta que dei então é a mesma que dou hoje: saio triste pelo resultado, mas tranquila por saber que dei tudo o que podia por aquilo que acredito", disse.

Por fim, acrescentou que continua a ter confiança em Portugal, mas que temos "todos de construir o nosso futuro coletivo". E citou o papa Francisco para tal.

"Continuo a ter confiança no nosso país e a acreditar que está nas mãos de todos construir o nosso futuro coletivo, um futuro inclusivo e sustentável. Continua a acreditar, como lembra o papa, que cada um pode contribuir com a própria pedra para a construção da casa comum", disse.

Logo após o discurso, Cristas deixou o pavilhão, minutos antes de os congressistas começarem a discutir as moções de estratégia global.

O que está este fim de semana em jogo

Cinco candidatos disputam a liderança do CDS-PP no 28.º congresso nacional em Aveiro, durante este fim de semana, para saber quem vai suceder a Assunção Cristas — que deixou o cargo na sequência dos maus resultados nas legislativas de outubro de 2019.

São eles Abel Matos Santos, da Tendência Esperança em Movimento (TEM), o deputado e porta-voz João Almeida, o antigo parlamentar Filipe Lobo d´Ávila, do grupo “Juntos pelo Futuro”, o ex-presidente da concelhia de Viana do Castelo, Carlos Meira, e o líder da Juventude Popular (JP), Francisco Rodrigues dos Santos.

O programa do Congresso, no qual são esperados cerca de 1400 delegados, arrancou com o discurso de despedida de Assunção Cristas, a ex-ministra da Agricultura que sucedeu a Paulo Portas como presidente, em 2016, e que anunciou a sua saída na noite das legislativas de outubro de 2019, quando o CDS perdeu 13 deputados, e ficou reduzido a cinco, com 4,2% dos votos.

Um dos momentos decisivos do Congresso é a votação das moções dado que é uma espécie de primeira volta para escolher o líder. E quem vencer, por norma, apresenta uma lista candidata à comissão política nacional e demais órgãos do partido.

* Com agências 

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