No centenário de Marcello Caetano, Maria José Lupi, mulher de Miguel Caetano, teve a ideia de fazer um pequeno livro com a recolha das memórias dos netos. Já todos eram nascidos e, claro, uns mais velhos do que outros, pelo que as recordações são necessariamente distintas. A sobrinha Maria (a neta mais nova), chegou a estar com o avô no Brasil cerca de um ano e lembra-se de brincar com ele ao Capuchinho Vermelho: ela era o lobo mau e o Capuchinho Vermelho era Marcello.

Miguel Caetano, que tem hoje 21 netos, recorda-se de ver o pai de gatas pela casa com Gigi, a neta mais velha de Marcello Caetano, às cavalitas e de pensar: "isto é o meu pai?!" Era. "Tinha uma relação com os netos que não teve com os filhos. Mas também teve uma relação diferente com a Ana Maria [a única rapariga dos quatro irmãos], era muito mais permissivo", conta.

Aqui ficam os testemunhos, na primeira pessoa, de três dos oito filhos de Miguel Caetano, netos de Marcello Caetano. São relatos de uma época e de uma figura que marcou o século XX português. Aqui, vista pela lente dos netos do avô Marcello.

Jorge Caetano.

Nasceu em 1959 e é engenheiro de sistemas informáticos.

O 25 de Abril 25 de Abril de 1974. Eu tinha feito 15 anos dois dias antes, a 23, e o Avô convidou-me para jantar no dia do meu aniversário, no entanto teria surgido alguma situação inesperada e o jantar foi alterado para dia 25, ainda sujeito a confirmação. Havia uma preocupação especial do Avô por esse encontro, pois queria oferecer-me um relógio de pulso elétrico! Nessa altura os relógios elétricos eram uma novidade, e o Avô, sempre atento à minha vocação pela eletrónica, tinha-me oferecido no ano anterior uma dessas novidades. Infelizmente o dito relógio teve uma avaria e, por ser uma tecnologia tão moderna, os relojoeiros não foram capazes de o reparar. O Avô quando soube que o relógio estava avariado e sem reparação, tratou de comprar um novo para me oferecer nos meus 15 anos.

No dia 25 não houve jantar, nunca mais vi o Avô... nem o relógio.

A visita de Estado O Avô sempre evitou misturar os netos nas suas actividades políticas. Mas aconteceu que, quando eu teria uns 12 ou 13 anos, convidou-me, juntamente com o meu primo Filipe, para o acompanhar numa visita a uma feira de agricultura, algures no Ribatejo. A viagem fez-se no Mercedes de 6 portas do Estado, que na altura estava ao serviço da Presidência do Conselho de Ministros, o que só por si era uma excitação para um miúdo. A visita à exposição fez-se incorporada numa comitiva de muitos cavalheiros vestidos de fato e gravata que falavam alegremente de porcos e vacas, e que rodeavam completamente o Avô. Claro que eu e o Filipe tínhamos outros interesses, especialmente o das complicadas máquinas agrícolas, que nos fascinavam. Assim fomos ficando para trás misturados com muitas outras crianças que acompanhavam o desfile das individualidades.

Um polícia, excessivamente zeloso, entendeu que as crianças não deveriam acompanhar os ilustres visitantes e resolveu impedir a nossa passagem. Desta maneira fomos afastados da comitiva. Quando o Avô deu por falta dos netos foi um reboliço entre os agentes da DGS até nos encontrarem.

Suponho que esta viagem não correu muito bem, pelo menos nunca mais fui convidado para outra "Visita de Estado".

As sessões fotográficas A exceção ao nosso afastamento da vida pública do Avô foram as duas sessões de fotografias para as revistas da época. Estas sessões decorreram no Linhó, para onde fomos vestidos com "roupa de domingo", conjuntamente com os primos e primas. Era um dia em que o Avô, excecionalmente, se dedicava a todos os netos simultaneamente e decorria com grande entusiasmo e divertimento, pois era uma ocasião em que os 14 netos se juntavam num espaço grande. Felizmente os fotógrafos não incomodavam excessivamente e deixavam bastante tempo livre para as nossas brincadeiras. Foram dois dias bem passados, em que para nós o facto insólito era que os meus pais e o meu tio Zé Maria não participavam neste "importante" ato público, por razões que para nós eram transcendentes.

O dia em que mudei de nome Quando vim para Lisboa, em 1967, tinha eu 8 anos, fui estudar para o Colégio S. João de Brito, colégio onde os alunos se conheciam pelo apelido e rapidamente passei a ser tratado pelo Lupi. Na altura o meu tio José Samuel era um cavaleiro tauromáquico de sucesso e o seu nome era muito conhecido, razão pela qual os alunos, professores e padres optaram por me chamar Lupi.

O Avô foi nomeado Presidente do Conselho de Ministros em 26 de setembro de 1968. Nesse dia deixei de ser o Lupi e passei a ser o Caetano.

Os jantares de terça-feira O "Roulement". Quando fomos viver para Lisboa, os meus pais passaram a jantar todas as terças-feiras em casa do Avô Marcello na Rua Duarte Lobo, ritual que apenas terminou com o 25 de Abril. Foi instituído um esquema de "roulement" em que os netos mais velhos iam também a esse jantar, dois de cada vez. O jantar era relativamente formal, com comida elaborada e sobremesas deliciosas. A tia Ana Maria era quem normalmente orientava a cozinha e tinha um especial cuidado na seleção das comidas, que eram sempre do nosso agrado. A cozinheira era a Chica, que tinha imenso jeito para preparar essas refeições, e conhecia muito bem os nossos gostos pois já tinha trabalhado em nossa casa.

A avó Teresa encontrava-se já doente e raramente saía da cama, pelo que participou em poucos destes jantares. Durante o jantar o tema de conversa do Avô era invariavelmente (e para nosso terror) o aproveitamento escolar. O Avô estava muito dentro da matéria escolar e fazia a sua própria avaliação com meia dúzia de questões bem colocadas, sempre com o seu ar sério por detrás dos óculos grossos, mas um sorriso malandreco ao canto da boca.

Após o jantar a minha mãe ficava na sala de conversa com a avó e a tia Ana Maria ou posteriormente com as minhas tias-avós Emília e Olga. O pai ia com o Avô para uma sala mais pequena, separada por uma porta de fole, onde ficavam na conversa.

As conversas do pai e do Avô  Como a porta era de fole ouviam-se muito bem as conversas, principalmente o tom em que decorriam. O tom das conversas era por diversas vezes de discussão, principalmente nos últimos tempos de governo, em que claramente havia divergências entre o meu pai e o meu Avô. Numa das vezes o causador da discussão fui eu, aí por 1973, pois normalmente levava para casa os panfletos políticos que eram distribuídos no liceu, alguns dos quais eu ajudava o meu amigo Paulo a distribuir. O Paulo que para além de ser do MRPP era fotógrafo e hipnotizador. O pai lia atentamente esses panfletos e discutia-os comigo.

Quando o Ribeiro dos Santos foi morto, o pai levou para o jantar o panfleto com a história do assassinato! Esse panfleto deu forte discussão após o jantar, pois estou convencido que o Avô duvidou da veracidade e do impacto da história.

Foi a morte do Ribeiro dos Santos que teve maior impacto na consciencialização dos estudantes dos liceus relativamente à existência de uma perseguição policial. A partir desse episódio, a habitual contestação estudantil transformou-se numa luta entre estudantes e polícias. Nessa altura de pré revolução, a minha consciência sobre as lutas estudantis mudou substancialmente pois correspondeu a uma altura em que passou a haver presença policial nos liceus e em que os nossos colegas e amigos começaram a ser detidos.

A chegada à Lua Um desses jantares de terça-feira coincidiu com a chegada do homem à Lua. Após o jantar, e como muitas vezes acontecia, eu e o meu irmão, suponho que o João, fomos para uma salinha pequena onde as empregadas tinham uma televisão. Nessa noite o serão foi passado em frente da televisão a ver os passeios na Lua do Neil Armstrong. Eu tinha (e tenho) o fascínio pelo espaço, e o meu sonho era ser astronauta, pelo que essa noite foi inesquecível. Aliás nesse Carnaval mascarei-me de astronauta, e cheguei a ganhar um prémio num concurso de máscaras... um gravador de cassetes.

A salinha da televisão servia muitas vezes de refúgio para quando as conversas de adultos eram mais aborrecidas. As empregadas do meu Avô, a Chica e a Leonor eram boas companhias. A D. Maria Luísa já era menos simpática, mas raramente ficava na salinha connosco.

As casas do avô A Rua Duarte Lobo. O Avô morava na Rua Duarte Lobo no bairro de Alvalade em Lisboa. Era uma vivenda relativamente grande e preparada para a doença da avó Teresa. No piso de cima ficavam os quartos, de um lado o quarto da avó Teresa, onde eu a vi a maior parte das vezes, pois raramente saía da cama. Do outro lado ficava o quarto do Avô, o escritório e o quarto da tia Ana Maria.

No piso intermédio ficavam as salas, e a cozinha. O piso de baixo fazia parte do nosso imaginário. Tinha uma sala grande preparada para receber os netos, com vários brinquedos e um quadro de ardósia que fazia as nossas delícias. Depois tinha todo um espaço que nos estava vedado, e onde nós imaginávamos que aconteciam as coisas mais fantásticas. Afinal "só" tinha a biblioteca do Avô e o atelier da tia Ana Maria.

O jardim tinha uma relva com baloiços e um galinheiro, onde nunca vi galinhas, mas servia sempre para prisão de irmãos e primos, nas diversas brincadeiras de polícias e ladrões ou cowboys. Depois de 1968 o jardim foi ocupado por polícias - verdadeiros - e as brincadeiras passaram a ser menos espontâneas.

O Linhó  A casa de férias do Avô ficava no Linhó próximo de Sintra. Passámos algumas férias de verão nessa casa, normalmente sem o Avô ou a avó. Por vezes íamos visitá-los quando eles estavam de férias no Linhó, mas eram sempre visitas realizadas com algum cuidado, pois a avó estava doente e suportava com alguma dificuldade a confusão que os netos faziam. Os lanches eram óptimos, bebia-­se um chá gelado com limão e açúcar (Ice Tea) ou um café gelado também com limão e açúcar (Mazagran) em copos grossos, cheios de piquinhos, com umas palhinhas que tinham colheres coloridas na ponta.

Nas férias no Linhó, o Avô passava bastante tempo no escritório, mas também dedicava atenção ao jardim, à horta, ao pomar e à mata, discutindo com o Sr. Ernesto, o jardineiro, todos os detalhes agrícolas. Tinha muito orgulho nesse quadrado de terra, por onde passeava longamente com os seus amigos, especialmente o Dr. Correia de Campos, seu vizinho da quinta da Penha Longa.

A casa do Linhó tinha uma excelente biblioteca infanto-juvenil, onde ganhei o hábito de leitura, com os Sandokans e outros Emílios Salgaris, os super-homem e outros super-heróis, os muitos Júlio Verne...

João Caetano.

Nasceu em 1960 e é médico homeopata. 

As Minhas Memórias do Avô Marcello Marcello José das Neves Alves Caetano (1906-1980), professor, historiador, político, estadista, mas para mim simplesmente o Avô Marcello.

A memória é, às vezes, muito traiçoeira porque absorve factos, frases e coisas ditas por outros, mas que parecem ter acontecido connosco. Vou, por isso, tentar ir ao fundo dos meus arquivos de memória para escrever algumas lembranças que tenho do Avô Marcello.

É curioso que quando tento lembrar-me do Avô Marcello até 1970, o que me vem à memória são as idas à casa da Duarte Lobo para ver a avó Teresa, doente mas sempre presente. Lembro-me das tardes passadas na garagem, divisão contígua à biblioteca do Avô, onde fazíamos massa, com farinha e água, para certamente fazermos bolos ou algo parecido e brincávamos no jardim empedrado e com alguns canteiros com flores e árvores que subíamos sem grandes dificuldades, principalmente aquela junto ao portão lá de cima. Depois de 1968, a decoração do jardim passou a ter alguns polícias armados, mas sempre muito gentis para connosco.

Do Avô lembro-me das refeições, às quartas-feiras, na sala de jantar em que à cabeceira da mesa nos fazia perguntas sobre a nossa vida, sempre muito preocupado com os nossos estudos. A chegada lá a casa passava sempre pela sala de estar onde esperávamos sentados, muito bem comportados, muitas vezes em silêncio para não incomodar a avó Teresa. Mas a relação do Avô Marcello com os netos era sempre muito atenciosa e preocupada. Apesar de sério e exigente tinha sempre um sorriso, que ainda hoje recordo com enorme saudade e que quebrava qualquer gelo ou receios que pudessem haver.

A mãe perguntava-me noutro dia se me lembrava do Avô Marcello me ter visitado quando parti a perna. Não, não me lembro, mas também não sei porquê. Lembro-me sim de que quando a avó Teresa faleceu eu ainda estar com a perna partida e de ter ido lá a casa nesse mesmo dia ou o dia seguinte à sua morte. Lembro-me vagamente, talvez invenção minha, do avô Marcello brincar comigo dizendo que se calhar era melhor substituir a minha perna pela perna do elefante que havia no hall de entrada e que servia para guardar os guarda-chuvas. Lembro-me das visitas ao Linhó onde preparávamos de uma forma muito especial os concursos "netospicos" (hípicos de netos), em que, fingindo que montávamos a cavalo, saltávamos obstáculos feitos por nós e colocados cuidadosamente, de modo a fazermos um circuito como aqueles que se viam no hipódromo do Campo Grande. Depois da prova, os melhores tempos cronometrados ganhavam uma medalha feita de "caricas" espalmadas e entregues, imagine-se, por sua Excelência o Presidente do Conselho de Ministros. Mentira, entregues pelo nosso Avô Marcello, o que era absolutamente fantástico. Que orgulho sentia nesses momentos.

Depois da revolução de 1974, o exílio. Do Brasil escrevia cartas e postais, que ainda conservo, umas respondendo às cartas que lhe escrevia, cujo conteúdo não me recordo de todo, outras escritas com as saudades que tinha de todos nós. Era bem visível a diferença entre elas. As primeiras eram respostas ao que eu escrevia, sempre com incentivos ao estudo com vista ao sucesso futuro e sempre com a preocupação de que como homem tivesse a consciência do nome que usava. Aliás referia especialmente o facto de ser o único neto com o nome Marcello o que me trazia responsabilidades acrescidas. Julgo, em consciência e com a consciência de ser um ser imperfeito, que dignifiquei e continuarei a dignificar o significado do nome que tenho, de me chamar João Marcello Caetano. Nas outras, as saudades não eram só de nós, ou melhor, eram de nós mas descritas sempre com um sentimento da injustiça e ingratidão pelo que lhe tinham feito. Tinham destruído tudo o que lhe era mais sagrado, nomeadamente a família, o país que amava profundamente, os seus amigos.

Lembro-me de ter tentado, com o primo Filipe, organizar uma viagem ao Brasil que passava por embarcar num petroleiro ou num navio de carga, trabalhando para pagar a viagem. A coisa esteve mesmo para acontecer, mas julgo que só não fui porque as datas de partida e chegada dos navios não coincidiam com as das férias. Também era complicado convencer algum "Almirante" de que dois miúdos poderiam atravessar o Atlântico trabalhando como dois homens do mar. Enfim, ficou a intenção.

Consegui, no entanto, falar com o meu Avô Marcello junto à sua sepultura no Rio de Janeiro em 1999 durante uma viagem de negócios que efetuei. Foi uma das melhores sensações de paz, conforto e tranquilidade que tive em toda a minha vida.

O negócio, esse correu mal.

Ficam as recordações que a memória se encarrega de nos lembrar sempre que é preciso.

Manuel Cateano.

Nasceu em 1965 e é designer publicitário. 

Avó Marcello Não custa a imaginar: o Avô Marcello teve uma vida bem preenchida. Como tal, acumulou, ao longo dela, inúmeras memórias que teve o bom senso de transcrever. Tornam-se assim quase insignificantes as memórias que tenho dele, pois elas são poucas - pelo menos as memórias vividas; sentidas. Poderei separá-las em dois:

 -Antes do 25 de Abril

Foi quando estive mais perto do Avô, não tendo ele ainda partido. Lembranças um pouco vagas... tinha eu nove anos no final desse período. Um almoço de família por aqui - miúdos um pouco afastados dos graúdos - uma celebração da Páscoa por acolá (lembro-me então mais pormenorizadamente da procura dos ovos no seu jardim). Tenho bem presente a existência da "sala de brincar", junto ao jardim, onde se reuniam os netos nas ocasiões oportunas. O Avô Marcello era então uma figura atenciosa e respeitada mas, naturalmente, pouco presente em relação aos netos. Afinal já éramos quinze.

- Depois do 25 de Abril

Foi quando estive mais perto do Avô, apesar da distância. Não mais tive a oportunidade de o rever, mas trocámos alguma correspondência. Imagino que até tenha sido a forma mais genuína e dedicada do Avô se dar comigo - e com os seus netos - não fosse ele um homem de letras. A carta é única e exclusiva. Partilham-se nas entrelinhas momentos mais íntimos através da tinta permanente. As minhas cartas eram supérfluas, ainda que atenciosas (afinal tinha pouco mais de nove anos), as dele preocupavam-se com a minha evolução (os irmãos, a escola, as paixões...). Partilhava comigo, nessa altura, alguns prazeres nascentes relacionados com coleccionismo (selos, pedras semi-preciosas).

Lembro-me de invejar a ida do Filipe (cinco anos mais velho) ao Rio de Janeiro, onde pôde revê-lo enquanto ainda era tempo. Porque depois chegou esse dia de verão que o levou de vez.

Ficaram as suas memórias. E as minhas.

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