Johnson sobreviveu no início de junho a um voto de desconfiança, uma iniciativa de rebeldes do Partido Conservador para tentar afastá-lo do poder.

Apoiado por 211 dos 359 deputados conservadores, o primeiro-ministro conseguiu permanecer no cargo, mas os 148 votos contra ele deixaram evidente o descontentamento interno.

As regras do partido estabelecem que este procedimento não pode ser repetido durante 12 meses, mas muitos conservadores querem uma mudança para voltar a tentar uma manobra semelhante contra Johnson.

Derrotas eleitorais recentes, como a de 23 de junho em duas legislativas parciais, estão a convencer um número cada vez maior de rebeldes dentro do Partido Conservador de que Johnson não pode liderar o partido nas eleições gerais previstas para 2024.

Segundo uma sondagem realizada na quarta-feira pelo gabinete Savanta ComRes, três em cada cinco eleitores conservadores consideram que Johnson não conseguirá recuperar a confiança da opinião pública e 72% acham que o primeiro-ministro deveria renunciar. Estas são as razôes:

"Partygate"

Enquanto os britânicos eram obrigados a ficar em casa, sem ver familiares nem amigos devido à covid-19, em Downing Street, onde Johnson vive e trabalha, foram organizados diversos eventos, de festas de Natal, despedidas e aniversário até celebrações no jardim para desfrutar do tempo favorável, num escândalo batizado como "partygate".

A polícia britânica investigou e impôs 126 multas, entre elas uma ao primeiro-ministro, primeiro chefe de Governo em exercício a ser sancionado por infringir a lei.

No decurso do escândalo, a funcionária Sue Gray elaborou um relatório muito crítico aos "funcionários de alto escalão" do Governo, responsáveis por reuniões com excessos de álcool, lutas, saídas pelas portas dos fundos às altas horas da madrugada e, por vezes, pela falta de respeito com os funcionários de segurança e limpeza.

Johnson disse assumir "toda a responsabilidade", mas negou-se a renunciar ao cargo e a sua legitimidade foi duramente afetada.

Conflito de interesses

As lucrativas atividades de lobby de alguns deputados conservadores provocaram indignação no decurso do mandato governativo de Johnson.

O deputado Owen Paterson foi acusado de fazer lobby junto do governo em nome de duas empresas que lhe pagaram para esse efeito. Johnson tentou mudar as regras para evitar que fosse suspenso do Parlamento e recebeu uma avalanche de críticas que o forçaram a recuar.

Isso, entre outros casos de clientelismo e benefícios seletivos, alimentou acusações de corrupção por parte da oposição.

Luxuosas obras no seu apartamento

O primeiro-ministro afirmou que pagou do seu bolso a luxuosa reforma do apartamento oficial em que mora com sua família em Downing Street.

No entanto, recebeu uma doação, que posteriormente teve de devolver, de um milionário simpatizante do Partido Conservador, que foi multado pela comissão eleitoral por não declará-la.

Gestão da pandemia

No início da pandemia, Johnson foi duramente criticado pela sua gestão equivocada, acusado de não agir rápido o suficiente e não proteger os profissionais da saúde e os residentes de lares de idosos.

Grande parte dos seus próprios deputados conservadores rebelou-se, votando contra a introdução de um passaporte sanitário para aceder grandes eventos, que acabou a ser aprovado graças aos votos da oposição trabalhista.

No entanto, Johnson conseguiu contornar as críticas sobre a sua gestão da covid-19, apoiando-se numa campanha de vacinação bem-sucedida.

Crise pelo custo de vida

A inflação descontrolada, que atingiu um recorde de 40 anos no Reino Unido, chegando aos 9% anuais em maio, afetou a popularidade do governo, acusado de não fazer o suficiente para ajudar as famílias que lutam pela sobrevivência mês a mês.

O disparo do preço dos alimentos e da energia, acentuado desde o início da invasão russa da Ucrânia, deverá piorar em outubro, quando está prevista uma subida brusca do preço máximo da energia no Reino Unido.

Nadhim Zahawi, que herdou o ministério das Finanças após a renúncia de Rishi Sunak esta terça-feira, terá a difícil tarefa de lidar com esta crise do custo de vida.

O escândalo Pincher

Johnson admitiu que cometeu um "erro" ao nomear em fevereiro Chris Pincher como vice-líder do grupo parlamentar conservador, encarregado da disciplina de voto dos seus deputados.

Pincher renunciou na semana passada após ser acusado de abusar sexualmente dois homens. Alegando inicialmente o contrário, Downing Street reconheceu esta terça-feira que o primeiro-ministro tinha sido informado de alegações anteriores contra Pincher em 2019, dizendo que se "esqueceu" delas.

Este último escândalo foi a "gota de água" para Sunak e para o ministro da Saúde Sajid Javid, que na terça retiraram o seu apoio a Johnson ao renunciarem ao governo, provocando a saída também de 27 membros menores do Executivo, sangria essa que prosseguiu nesta quarta-feira com secretários de Estado.

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