Numa sessão marcada por vários desentendimentos entre a oposição e a base de apoio ao Governo, o texto-base da proposta foi aprovado por 40 votos contra 21, e a votação dos chamados “destaques”, ou seja, sugestões de alteração ao texto, deverá ocorrer hoje. Finalizada essa etapa, a proposta seguirá para o plenário da Câmara dos Deputados.

O projeto de lei em causa diminui os direitos dos povos indígenas sobre as terras demarcadas. Se aprovado, o Governo poderá, por exemplo, construir estradas e centrais hidroelétricas nesses territórios, sem necessidade de consultar os povos nativos daquela região.

Ao longo da sessão, a presidente da CCJ, Bia Kicis, rejeitou inúmeros requerimentos, pedidos de audiência pública e os apelos pelo diálogo com o movimento indígena, que pede, há semanas, para ser ouvido sobre a proposta.

“O Projeto de Lei é uma bandeira de Jair Bolsonaro [Presidente do Brasil] e da bancada que diz representar o agronegócio. Se aprovado, na prática vai inviabilizar as demarcações, permitir a anulação de Terras Indígenas e escancará-las a empreendimentos predatórios, como garimpo, estradas e grandes hidroelétricas. A proposta é inconstitucional”, indicou o Instituto Sociedade, População e Natureza, em comunicado.

O polémico projeto levou a protestos pacíficos de indígenas em frente à Câmara dos Deputados, em Brasília. Contudo, na terça-feira, as manifestações subiram de tom e resultaram em vários feridos, após confrontos com a polícia.

“O que nós queremos é que a lei seja cumprida, que a Constituição Federal seja respeitada. Esse Projeto de Lei pode anular as demarcações de terras indígenas no país, é uma agressão aos povos originários”, lamentou Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), citado em comunicado.

“A nossa Constituição não pode ser mudada por qualquer interesse egoísta, individual, de quem tem olhar de cobiça para as Terras Indígenas. Esse olhar que a gente vê em todos os discursos que querem emplacar [aprovar] o Projeto de Lei. Pura cobiça nos recursos naturais das terras indígenas, que são garantidas pela Constituição Federal”, criticou Joenia Wapichana, única parlamentar de origem indígena no Congresso.

De acordo com a parlamentar, o procedimento legislativo na CCJ falhou por não identificar a inconstitucionalidade da matéria.

Vários parlamentares da oposição lembraram que o Supremo Tribunal Federal (STF) deverá pronunciar-se sobre vários dos pontos previstos no diploma, a exemplo do “marco temporal”.

Trata-se de uma tese ruralista que defende que as comunidades indígenas só teriam direito às terras que estivessem na sua posse em 05 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.

O projeto determina ainda que o processo de demarcação de terras indígenas tenha obrigatoriamente a participação dos Estados e municípios em que se localize a área analisada e de todas as comunidades diretamente envolvidas.

O texto também proíbe a ampliação de terras já demarcadas e considera nulas as demarcações que não atendam às regras estabelecidas no diploma. Já os processos que estiverem em andamento, deverão seguir as novas regras.

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