Pouco antes das 07:00 de 24 de junho de 1994, seis camiões bloquearam o acesso sul da ponte 25 de Abril num movimento de contestação popular, após dias de “buzinão” de automobilistas contra o aumento, que acumularam filas e mais filas de carros às horas de ponta, todas as manhãs.

As televisões, além da RTP, estavam já no ar, a SIC e a TVI, que fizeram horas de emissões em direto, nesse dia e nos seguintes, mostrando imagens dos engarrafamentos que atingiram quase 50 quilómetros, até Setúbal, primeiro, e depois os confrontos com a polícia.

Mostraram, desde manhã cedo, o bloqueio, a chegada, à praça da portagem, do helicóptero do então ministro da Administração Interna, Dias Loureiro, o apedrejamento pelos populares das forças policiais, as cargas da força de intervenção da GNR ou as detenções de manifestantes. Tudo em direto.

À noite, já depois de desimpedida a passagem na ponte, ao fim da tarde, e de se voltar a pagar as portagens, grupos de motoqueiros tentaram retomar o bloqueio. E foi de madrugada que se deu a carga policial em que um jovem de Almada ficou ferido e paraplégico.

O bloqueio apanhou o então primeiro-ministro, Cavaco Silva, na Grécia, numa cimeira europeia, e foi o ministro da Defesa, Fernando Nogueira, a responder à crise. Dias Loureiro, com a tutela das polícias, foi à ponte para falar com os organizadores do protesto, e tentar um acordo. Em vão.

Dias Loureiro admitiu que apesar de “algum protesto genuíno e espontâneo”, havia “uma mão política escondida” atrás da organização. E Cavaco Silva acrescentou que os responsáveis podem ser “pessoas ligadas ao Partido Comunista ou aos partidos da extrema-esquerda”.

Há 25 anos, à data do bloqueio, Portugal tinha saído de umas eleições europeias, em 12 de junho, em que o PS ganhara ao PSD por uma margem mínima (meio ponto percentual). O que levou o então deputado do PSD Pacheco Pereira a ironizar com “a vitórinha” dos socialistas.

Nessa altura, o país estava a ser governado, há nove anos, por Cavaco Silva e pelo PSD, com uma segunda maioria absoluta, conseguida nas eleições de 1991. Um resultado que apanhou de surpresa Mário Soares, o fundador e líder histórico do PS que chegou à Presidência da República em 1986, que, nessa altura, já criticara os tiques de autoritarismo da maioria laranja.

Depois de um primeiro mandato pacífico entre São Bento e o Palácio de Belém, as relações Cavaco-Soares azedaram e ganharam contornos de confrontação mais ou menos aberta, por exemplo, durante a chamada “Presidência Aberta” em 1993, em que o Presidente “destapou” casos de pobreza na região de Lisboa.

O bloqueio da ponte ditou mais algumas conversas tensas entre Cavaco Silva e Mário Soares, com o Presidente a criticar abertamente a estratégia do Governo na gestão da crise. E foi em 22 de setembro que o Chefe do Estado falou e fez a defesa do “direito à indignação” dos cidadãos, no seminário “O Estado de Direito, o Advogado e a Proteção dos Direitos do Cidadão”.

Faltavam poucos meses para o final do ano e as legislativas estavam previstas para o outono de 1995, numa altura em que o PS já mudara de líder, em 1992, e era agora chefiado por António Guterres. Álvaro Cunhal era líder do PCP e Manuel Monteiro estava à frente de um CDS que gostava de ser chamado PP, de Partido Popular.

Depois de, em maio de 1993, ter dito que não sabia se iria recandidatar-se nas eleições, em outubro o semanário Expresso noticiou o famoso “tabu” e titulou: “Cavaco pode deixar a liderança do PSD.”

Cavaco Silva deixou mesmo o PSD, o partido e Fernando Nogueira perderam as eleições e Guterres e o PS, que se autointitulavam de “nova maioria”, ganhou as legislativas, com maioria relativa.

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