Entre 2010 e 2011, António Ferreira, 72 anos, começou a sentir-se mal, com alguma falta de ar, mais cansado, sintomas que caracterizam esta doença respiratória crónica, que tem em Portugal uma prevalência de 14% nas pessoas com mais de 40 anos.

“Comecei há 10 anos a ter sintomas da doença, tinha dificuldades em subir escadas, fui piorando, até à primeira vez que tive de ser internado”, contou à agência Lusa o doente, que desde 2013 necessita de receber oxigénio para diminuir a dificuldade respiratória e melhorar o seu dia-a-dia.

Chegou a fumar dois maços de tabaco por dia, um dos principais fatores de risco para a DPOC. Sobre se considera que fumar contribuiu para o problema, respondeu prontamente: “Não quero dizer que foi exclusivamente por causa disso, mas não ajudou”.

A morar num segundo andar num prédio sem elevador, subir as escadas tornou-se um desafio cada vez mais difícil, a obrigar a paragens em cada patamar para recuperar do esforço.

Os sintomas foram-se agravando. De 2011 para 2012, passou a ter “mais limitações no que fazia” e começou a ir de seis em seis meses a consultas ao Hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), onde esteve “sete ou oito vezes” internado.

Em julho do ano passado, o pneumologista propôs-lhe participar num projeto de telemonotorização que visa evitar idas desnecessárias ao hospital e internamentos.

“Aceitei logo (…) não era para ficar melhor, mas tirava-me o ‘drama’ de ter que ir ao hospital duas a três vezes por ano para consultas regulares, onde faziam praticamente a mesma coisa que faço em casa, tendo a certeza de que isto é acompanhado e que sabem se estou a ficar melhor ou pior”, salientou.

Assim, a medição do oxigénio no sangue, da temperatura, da pressão arterial e das pulsações por minuto tornou-se uma rotina na vida de António Ferreira, que diariamente regista os dados num ‘tablet’, visualizado em tempo real por enfermeiros que acompanham remotamente o seu estado de saúde.

No dia da reportagem da Lusa, o doente não inseriu os dados da temperatura e recebeu de imediato o telefonema de uma enfermeira a perguntar se estava tudo bem.

Contou que o “grande drama” no início era o duche, mas já o adaptou, assim como aumentou o tubo por onde passa o oxigénio para poder ter mais mobilidade em casa. Reuniu tudo o que precisa diariamente como água, azeite ou café, para não ter de fazer tanto esforço, e passou a fazer as compras ‘online’.

“Hoje já faço as coisas de maneira a cansar-me o menos possível”, disse, referindo que aprendeu a viver com a doença e com o facto de estar 24 horas por dia ligado a um equipamento.

Segundo o pneumologista Rui Costa, este projeto surgiu da necessidade de diminuir a afluência ao hospital de doentes com DPOC, uma doença que representa “um grande peso para as instituições” porque são doentes, a maioria com gravidade, que “necessitam amiúde” dos serviços hospitalares.

Foram selecionados oito doentes com base nos critérios de três idas às urgências no último ano ou dois internamentos, tendo-lhes sido dada formação e um ‘tablet’ em que registam os dados que permitem a deteção atempada dos sintomas de agudização da doença e a intervenção imediata.

“Já temos autorização para aumentar com mais quatro doentes e, se calhar, progressivamente ainda mais, porque pensamos que assim conseguimos não só prevenir as exacerbações e as vindas ao hospital como acompanhá-los” permanentemente, adiantou Rui Costa.

Por outro lado, salientou, “os doentes sentem-se muito mais responsabilizados, cumprem muito melhor a terapêutica e isto é meio caminho andado para conseguir controlar a doença”.

Dois dos oito doentes foram internados neste período, um deles acabou por morrer. “Os outros temos conseguido controlá-los e têm estado relativamente bem, inclusive, têm despertado muito poucos alarmes”, observou o médico.

O diretor do Serviço de Pneumologia, Fernando Rodrigues, defendeu, por seu turno, que este projeto que já vigora noutros hospitais, “deveria ser prioritário em todos os serviços de pneumologia”.

Devido à poluição ambiental e ao tabaco, tem vindo “a crescer progressivamente” o número destes casos, com as consequências inerentes em gastos em saúde e para os doentes que “veem os seus anos de vida a diminuírem significativamente se a doença não for bem controlada”, sublinhou Fernando Rodrigues.

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