Afinal, o que querem o jovens para o PSD? As ideias são claras, mas as opiniões divergem quanto à escolha de Montenegro como candidato a primeiro-ministro. O líder dos sociais-democratas vai ter de fazer mais no 41.º Congresso, hoje em Almada, do que discutir estatutos, se quer convencer os mais novos de que está empenhado na vitória.

E a crítica começa exatamente por aí. "O PSD recusa-se a perceber que é preciso dar mais poder aos militantes e decide discutir estatutos a três meses das eleições, dando um sinal errado e mostrando incapacidade para se renovar. O governo caiu e o mundo muda e continuamos na mesma senda", diz José Miguel Ferreira, vice-presidente da JSD entre 2014 e 2018.

A alteração de estatutos - "que dá à direção nacional o poder de escolher dois terços dos candidatos do partido a deputados e arruina os direitos e poderes dos militantes do PSD", segundo José Miguel Ferreira -, não terá, no entanto, efeito nas legislativas de 2024, por uma questão de prazos legais.

Se Margarida Balseiro Lopes, vice-presidente da Comissão Política Nacional do Partido Social Democrata, está com Montenegro e José Miguel Ferreira se rende a Montenegro, João Maria Jonet, que defendeu a candidatura de Jorge Moreira da Silva, preferia que o PSD apresentasse outro candidato a eleições. "Nada me move contra Luís Montenegro, não quero minar esta liderança, apenas avalio o PSD e, sendo o meu partido, gostava que apresentasse a Portugal os melhores".

Luís Montenegro venceu as diretas, disputadas contra Jorge Moreira da Silva, com 72,5% dos votos, em Maio de 2022. Apesar disso, muitos acalentaram a esperança do regresso de Pedro Passos Coelho, e houve quem até ao último minuto tentasse convencê-lo a regressar, apresentando uma equipa chave-na-mão. Não aconteceu.

No discurso de abertura do Congresso, esta manhã, Montenegro reconheceu a sua fragilidade, ao admitir que os "portugueses não absorveram na totalidade a nossa [PSD] força", mas garantiu que "este PSD, mais do que de esquerda ou de direita, é para os portugueses".

Habitação, corrupção e reforma do Estado

Luís Montenegro elegeu a demografia como principal desafio que o país terá de enfrentar: "Temos em Portugal um problema acima de todas as coisas - da produtividade, da competitividade, da burocracia, da justiça ou dos impostos -, que é o problema demográfico. Sabemos que seremos menos 20% a 25% no espaço de 50 a 70 anos", disse ao SAPO24  num entrevista pouco antes de ser eleito líder do PSD.

E defendeu a necessidade de políticas públicas para "remover obstáculos" à natalidade, como a taxa máxima de IRS de 15% para jovens até aos 35 anos, para lhes retirar "carga fiscal exagerada" e dar mais meios para poderem acudir às suas necessidades, como o arrendamento ou a compra de casa.

Para Margarida Balseiro Lopes, a habitação é prioritária para os jovens. A ex-deputada recorda "a elevada média de idades a que os jovens portugueses saem de casa dos pais", mas também "as dificuldade de quem vai para a faculdade conseguir uma residência universitária", quer pelos "preços elevados", quer pela "falta de oferta".

Em Portugal os jovens saem de casa dos pais, em média, aos 29,7 anos, acima da média da União Europeia (26,4 anos), segundo dados do Eurostat, o organismo de estatística da UE, para o ano de 2022.

A vice de Montenegro lembra que "as ambições dos jovens são diferentes consoante a idade, se têm 16, 20 ou 30 anos", mas garante que há hoje um fator transversal todas estas faixas etárias, "a falta de esperança, não verem com entusiasmo o futuro. Estamos a falar de uma geração sem expectativas".

Nisto todos concordam. "Queremos viver num país onde possamos aspirar a ter melhores condições de vida. O que temos hoje é extremamente desigual. Perturba-me perceber que temos um Estado que está a funcionar como bloqueio da sociedade, não pelas funções que desempenha, mas por ser ineficiente, prestar maus serviços, ter funcionários a mais e despesa a mais, que podia estar a ser aplicada noutro lado", diz José Miguel Ferreira.

Para o antigo presidente vice-presidente da JSD as três prioridades dos jovens são "tolerância zero à corrupção e promiscuidade", uma "reforma que permita reduzir dimensão Estado e aumentar a sua eficiência", e "o combate à desigualdade territorial e social". Estes deviam, na sua opinião, ser desígnios nacionais.

E recorda que "quem nos trouxe até aqui foi o PS", que "está há 30 anos preocupado em aumentar o Estado, com a desculpa de manter serviços públicos, e passou a confundir-se com Estado". Agora, "é preciso tentar um caminho diferente". Os números confirmam: em 2015, quando o PSD saiu do poder havia 659.144 funcionário públicos, hoje há 738.168, mais 79.024 funcionário em oito anos de Partido Socialista.

Coligação aumenta hipóteses do PSD

Margarida Balseiro Lopes considera ser cedo para falar em coligações à direita, José Miguel Ferreira já a tinha defendido no tempo de Rui Rio e João Maria Jonet acredita que essa pode ser a única hipótese de o PSD vencer eleições. A coligação PàF - Portugal à Frente (PSD-CDS), teve 38,57% dos votos nas legislativas de 2015, menos do que o PS conseguiu em 2022 (41,37%), mas mais do que conseguiu em 2019 (36,34%).

Para quase todos seria positivo haver uma plataforma de entendimento entre PSD, Iniciativa Liberal e CDS - que, apesar de ter ficado fora da Assembleia da República nas últimas eleições, teve mais votos do que o Livre ou o PAN.  Além de aumentar as hipóteses de vencer as eleições de 10 de Março, também seria uma forma de enfraquecer o Chega.

Mas a verdade é que os jovens são os que mais se abstêm nas eleições. José Miguel Ferreira reconhece o desinteresse dos mais novos, que "não são incentivados a participar, o sistema não promove a cidadania" e "os jovens ficam com a sensação que o seu voto não conta". Mas sublinha que nenhum dos outros partidos tem possibilidade de governar país.

João Maria Jonet afirma que "na maioria das democracias ocidentais os partidos estão cada vez mais desertos e a participação política é cada vez mais escassa e acaba por representar apenas aqueles que têm cargos, que já lá estão e que formaram uma espécie de oligarquia interna", o que faz com que a sociedade civil se sinta cada vez menos representada.

Para João Maria Jonet, "as juventudes partidárias não se reformaram e continuam a ser centros de treino de autómatos, formatadoras e castradoras da diversidade de opinião, quando deviam ser um local de irreverência e o sítio para questionar o poder, fazer real oposição ao PSD". Admite que "ainda se vão vivendo momentos de rebeldia interna, mas há um alinhamento praticamente total entre as práticas do partido e as práticas da juventude".

José Miguel Ferreira concorda: "Uma coisa é falar em união partidária, outra é ter quase subentendida uma ameaça. Isso é união ou falta de liberdade?", pergunta.   

A preocupação com a abstenção aumenta com a realização de duas eleições tão próximas uma da outra, as legislativas e as europeias (que deverão ter lugar entre Maio e Junho de 2024).

"Se Portugal fosse um país europeu normal, com estruturas democráticas estáveis, nunca teríamos ido para eleições a tão pouco tempo de ter sido eleito um governo com maioria absoluta. E se era para fazer eleições, então juntava-se tudo, não era por esperar mais dois meses que haveria problema. O problema é o presidente da República estar tão dependente da sua força mediática e pensar no seu bem-estar e não no do país", diz José Miguel Ferreira. E avisa: "Isto abre um precedente".

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