Gabriela Silva, de Pedrógão Grande, agarrava numa enxada e ajudava a criar um pequeno jardim ao lado do tanque de Nodeirinho, que no domingo já ia ganhando forma, com alecrim, alfazema, lavanda ou sardinheiras.

Da vila, trouxe uma "carrada de arbustos e flores" para dar "um bocadinho de verde a uma paisagem que é uma tristeza".

"Vê-se tudo queimado, tudo cheio de cinzas. As plantas são para dar ânimo e esperança para que as pessoas se consigam reerguer", diz à agência Lusa Gabriela, que andou a distribuir pela população plantas que o seu pai tinha.

António Santos, de 45 anos, viajou de Lisboa com alfazema, sardinheiras e alecrim, a pedido da sua prima, Dina Duarte, que vive naquela aldeia do concelho de Pedrógão Grande, distrito de Leiria, umas das mais atingidas pelo incêndio que provocou a morte a 64 pessoas.

"Quis trazer um bocado de verde à paisagem cinzenta e preta", conta António, enquanto planta mais um alecrim junto ao tanque. "Têm bom cheiro", nota António, que brincava naquela zona quando era pequeno.

A habitante de Nodeirinho Dina Duarte diz que, mais importante do que alimentação, é a aldeia voltar a ter as suas hortas, "que ficaram todas queimadas".

"Tragam alface, alho francês, couves, sementes, plantinhas, flores, arbustos, para dar cor a isto. Está demasiado monocromático", pede, apontando para os montes onde se vê a terra negra e as árvores queimadas.

Dina, técnica do centro de emprego de Figueiró dos Vinhos, sublinha que o retorno à terra é premente, por haver muita gente que vive da agricultura de subsistência, mas também pela relação forte que as gentes das pequenas povoações afetadas têm com a terra.

"A terra é o entretém", sublinha, referindo que já lançou o repto aos seus amigos para lhe enviarem árvores ou sementes em outubro, "que é quando vem a chuva" e é quando poderão replantar os quintais.

Querem oliveiras, sobreiros, marmeleiros, cerejeiras, figueiras, macieiras, pereiras, castanheiros e nogueiras.

No entanto, para Dina Duarte, a alegria só virá na primavera, quando for possível "voltar a ver tudo novamente florido, espero".

Perto do tanque, deverá surgir também um memorial às vítimas do incêndio, que começa a ser desenhado na cabeça do artista e jardineiro João Carvalho, mais conhecido por João ‘Viola', que espera entretanto colocar o projeto em ação.

"Ver um bocadinho de verde é um sinal de que as coisas vão retomar", realça Eugénio Santos, a morar em Nodeirinho desde 2006.

Pela aldeia pacata, onde dantes passavam meia dúzia de carros por dia, há agora um movimento de pessoas - muitas delas autênticos desconhecidos para os locais - que aqui param para trazer algumas coisas, "falar e dar um abraço".

O habitante de 60 anos contabiliza pessoas de vários pontos do país, que por ali passaram a dar apoio.

"Sabe tão bem quando chega aqui alguém - uma pessoa que nem conhecemos - e que fala connosco e que nos dá um abraço. Que continuem a passar por cá para um abraço e dois dedos de conversa", comenta Eugénio, que diz que o que vai valendo a Nodeirinho é os abraços de estranhos e o verde que vai despontando pela terra queimada.

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