Para o líder dos Okean Elzy (ou apenas O.E), que em 2015 bateu o recorde de público num concerto na Ucrânia, arrastando 75 mil pessoas ao Estádio Olímpico de Kiev para assinalar os 20 anos desta banda de fusão folk e rock, o que se está a passar desde 24 de fevereiro, dia da invasão russa, “é muito simples”: a Rússia entrou em guerra com a Ucrânia e a razão é a própria existência da Ucrânia enquanto Estado. “A Rússia não quer que esse Estado exista”, afirma Vakarchuk à Lusa, junto à sede do governo da região de Lviv-Oblast, agora protegida com sacos de areia, no mesmo dia em que se alistou para integrar as Forças de Defesa Territoriais.

Além da resposta à ordem de mobilização do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, bastaram poucos dias para o cantor verificar que os russos “cometem crimes contra a Humanidade, matando mulheres e crianças, destroem cidades no leste, e a qualquer momento podem estar aqui em Lviv [oeste do país e sem registo de ataques], portanto é preciso pará-los”.

Satisfeito com “o apoio espiritualmente mais do que suficiente” de todo o mundo, à exceção de alguns Estados, e também com as “sanções fortes” à Rússia, o músico considera que é necessário mais apoio no plano político militar, e da NATO em concreto.

“Precisamos de mais aviões. Os membros de leste da NATO, os Estados-membros da UE podem fornecer isso. Até Portugal pode contribuir politicamente para criar oportunidades para o fazer”, declara, apontando, porém, que a “mais importante e significativa” medida seria fechar o espaço aéreo em toda a Ucrânia.

“Se o fizermos, ganhamos esta guerra muito rapidamente, se não o fizermos, sabe-se o que lá o que pode acontecer. Hoje é a Ucrânia, amanhã será outro país europeu”, alerta, numa visão da História a recuar a 1939, ano em que eclodiu a II Guerra Mundial.

Na altura, assinala, muitos disseram que “Hitler estava a fazer coisas erradas, a cometer crimes contra a humanidade”, mas, por outro lado, pensaram: “Ok, se o tentarmos travar, vamos ter problemas, vamos ver o que acontece”.

E isso é precisamente o que afirma estar em causa agora, quando líderes mundiais abrandam a hostilidade em relação a Moscovo com receio do alastramento do conflito aos países da NATO: “Se tivesse sido travado em 1938, não acredito que [a partir do ano seguinte] dezenas de milhões tivessem morrido. Então é melhor atuar agora”.

Nascido há 46 anos em Mukachevo, na Ucrânia ocidental, filho de um professor de Física na Universidade de Lviv e ex-ministro da Educação e Ciência, Svyatoslav Vakarchuk, ele próprio doutorado em Física, é uma figura que transcende o sucesso dos O.E. e as suas digressões por estádios nos EUA, Canadá e na agora inimigo Rússia (onde se recusa a atuar desde a anexação da Crimeia, em 2014), e que tem usado a sua popularidade em momentos decisivos na Ucrânia, como a Revolução Laranja, entre 2004 e 2005, ou os protestos Euromaidan, entre 2013 e 2014.

Prosseguiu o seu ativismo pela aproximação à Europa, denúncia do autoritarismo da Rússia e da corrupção no seu país e também protagonizou momentos singulares, como a conquista do prémio mais alto do concurso “Quem quer ser milionário”, o equivalente a 30 mil euros que doou a orfanatos.

A fama e o carisma colocaram-no na rota da política, ao lado de outra estrela, o então comediante Volodymyr Zelensky, sendo dado como presidenciável. Mas nas eleições de 2019 acabou por não ir a votos nem apoiar nenhum candidato. Em vez disso, fundou o partido liberal Holos (Voz), sendo depois eleito para o parlamento – só que não se demorou por lá. “Criei um partido dirigido para jovens e gente liberal, conseguimos eleger representantes, eles estão no parlamento e eu saí para voltar a fazer o meu trabalho”, afirma à Lusa.

Agora que a Ucrânia está em guerra, uma celebridade vê outra como o homem certo no momento certo: “Todos o apoiamos. Primeiro que tudo, ele não é um Presidente, é um comandante em chefe”.

E se as ordens do comandante são para todos os homens dos 18 aos 60 anos se juntem ao Exército na defesa da pátria, ele não quis ser uma exceção.

“Sou um cidadão que luta contra o inimigo e, se o meu superpoder pode ser inspirador, é o que eu faço”.

Mesmo sem saber, esteve presente a inspirar os manifestantes que se juntaram no dia 28 de fevereiro em Lisboa, junto à Embaixada da Ucrânia, quando o músico português Salvador Sobral cantou “Abraçar”, dos Okean Elzy.

Svyatoslav Vakarchuk atuou em Portugal pela última vez em 2017 e, na altura, deixou uma curta mensagem no Twitter – “Obrigado Lisboa” – que cresceu em tamanho e intensidade quando soube da vaga de solidariedade gerada desde o começo da guerra: “Muito obrigado pelo vosso apoio”.

* Por Henrique Botequilha (texto), agência Lusa em Lviv, Ucrânia

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