Questionado hoje pela agência Lusa sobre a contestação à decisão, por si anunciada na terça-feira, Amílcar Falcão considerou que este “é um assunto que já está ultrapassado”.

A visão da Universidade de Coimbra em relação a essa matéria “tem a ver com as alterações climáticas, não tem a ver com nenhuma questão financeira, nem nenhum grupo económico, nem com partidos políticos”, assegurou.

“Isso é especulação que não vou alimentar”, sublinhou o reitor, que falava à margem da sessão de assinatura de um protocolo da UC com a Altice, para a criação de um laboratório na área das telecomunicações e sistemas de informação, em Coimbra.

“O que estamos a fazer é olhar para o futuro, cuidar do futuro dos jovens, é um problema de geração. Quem quiser entender que as universidades e a nossa, no caso concreto, têm responsabilidade social, entende. Quem não quiser entender, pois com certeza, é livre de ter opinião diferente”, acrescentou.

Não esteve nem está no “horizonte da Universidade intrometer-se em assuntos que não lhe dizem respeito”.

Porém, referiu, a saúde, a educação e o futuro dos jovens são assuntos que dizem respeito à academia, já que atender às componentes “científica, educacional e de formação dos futuros profissionais e quadros” do país é “obrigação” da instituição.

Segundo o reitor, “a maioria da juventude está a favor” da medida agora adotada pela UC, pois “sabe, percebe, pressente” os perigos para o seu futuro: “Se não cuidarmos do planeta – e é isso que está em causa, não é mais nada — todo o resto são aproveitamentos colaterais”.

O fim da carne de bovino nas 14 cantinas da UC é “apenas uma parte da questão”, advertiu Amílcar Falcão, recordando que quando anunciou esta medida também deu conta de outras decisões no mesmo sentido, como a “tentativa de eliminação do plástico, a todos os níveis, nos laboratórios, nas cantinas, nas residências, em toda a atividade da universidade” e a redução do tráfego na universidade.

A contestação é uma “reação natural” a este tipo de medidas, reconheceu o reitor, recordando casos como as relacionadas com os sacos de plástico nos supermercados ou a venda de produtos com sal ou açúcar em excesso em produtos vendidos através de máquinas instaladas em hospitais, que também foram contestadas e acabaram por ser compreendidas e bem aceites.

“Importante é também perceber que a academia e os estudantes estão satisfeitos com a posição da universidade, que pretende dentro de 10 anos ser neutra do ponto de vista carbónico”, afirmou, sublinhando que este é um dos “objetivos para o desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas”.

A Universidade de Coimbra “não está a inventar nada, apenas a alinhar pelas políticas definidas a níveis muito superiores”.

Se o ambiente não for preservado, insistiu, entrar-se-á num “processo que é irreversível”, concluiu.

Desde que em 17 de setembro o reitor anunciou a eliminação da carne de vaca das ementas das cantinas da UC, a medida foi contestada pelas confederações dos Agricultores de Portugal (CAP), Nacional da Agricultura (CNA) e Nacional das Cooperativas Agrícolas e do Crédito Agrícola de Portugal (Confagri), e pelas associações Portuguesa dos Industriais de Curtumes (APIC), dos Produtores de Leite de Portugal (APROLEP), Empresarial da Região de Coimbra (NERC), dos Jovens Agricultores de Portugal (APAJ), Nacional de Criadores de Suínos da Raça Bísara (ANCSUB) e de Criadores de Ovinos Mirandeses (ACOM) .

Também as federações das Associações de Agricultores do Baixo Alentejo (FAABA) e Agrícola dos Açores e a Cooperativa Agrícola de Arcos de Valdevez e Ponte da Barca, entre outras organizações, se manifestaram contra a medida.

O líder distrital de Coimbra do CDS, Rui Nuno Castro, reagiu hoje “com desalentada surpresa” à decisão da UC, tal como a deputada Patrícia Fonseca, recandidata ao lugar pelo CDS por Santarém.

O cabeça de lista do PSD por Beja, Henrique Silvestre, considerou que a UC “perdeu uma oportunidade de incentivar” os empresários agrícolas portugueses a aderirem a práticas ambientalmente sustentáveis.

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