Em quanto tempo se origina uma polémica? Serão precisas horas, dias, semanas, meses, anos? Talvez não: só sete segundos podem bastar.

Um pequeno vídeo, que circula nas redes sociais, mostra António Costa numa conversa privada com jornalistas, depois de uma entrevista ao Expresso, a chamar "cobardes" aos médicos envolvidos no caso do surto de covid-19 em Reguengos de Monsaraz, onde já morreram 18 pessoas.

A gravação, embora de fraca qualidade, deixa perceber as seguintes palavras: "É que o presidente da ARS mandou para lá os médicos fazerem o que lhes competia. E os gajos, cobardes, não fizeram".

O semanário já explicou o que aconteceu, garantindo que "depois da divulgação nas redes sociais de imagens e som de uma conversa reservada de jornalistas do Expresso com o primeiro-ministro", o título do grupo Impresa "desencadeou de imediato os procedimentos internos necessários para avaliar o sucedido", refere a direção, num comunicado publicado no site.

"Após a entrevista, foram recolhidas imagens para construção do vídeo de promoção da conversa mantida com António Costa", adianta o Expresso, explicando que "os microfones usados na entrevista foram desligados, mas por lapso o microfone interno da câmara não — pelo que ficou em fundo o som da conversa 'off the record', reservada, que o primeiro-ministro teve com os jornalistas presentes na entrevista".

No final da tarde de sexta-feira, o Expresso enviou para duas televisões os sons da entrevista, "incluindo algumas dessas imagens", conhecidas como planos de corte, que incluíam "a imagem e áudio de sete segundos que resultaram na polémica conhecida", prossegue a direção. "Esse envio é um erro da responsabilidade do Expresso, que assumimos por inteiro", é referido. O jornal adiantou que, assim que se apercebeu que esse vídeo tinha sido enviado, pediu às televisões que não o usassem e que o apagassem do arquivo — o que foi cumprido.

No entanto, no sábado à noite, o Expresso recebeu via WhatsApp "um vídeo com os mesmos sete segundos, mas que não é o original". Ou seja, "em concreto, houve edição de som, aumentando-o de forma a que fosse perfeitamente audível, e foi gravado de um monitor, o que facilmente pode ser comprovado na sua visualização, por comparação com a qualidade de imagem do vídeo original". Em suma, "alguém gravou o vídeo com um telemóvel ou outro dispositivo, fazendo-o correr primeiro via Whatsapp, depois junto de outras redes sociais", aponta o Expresso.

Paralelamente, o semanário "denunciou junto do Facebook, Twitter e Youtube o referido vídeo por violar os direitos de propriedade que nos pertencem".

Só sete segundos e a história que daí começa a surgir, remoendo o passado recente, já vai longa. Mas não fica por aqui, que as conversas são como as cerejas: vem uma, outra e outra.

1. O Expresso começou por dizer que o vídeo foi divulgado "sem autorização e conhecimento deste jornal" e que "repudia absolutamente esta divulgação". Apesar de o segundo comunicado já levantar algumas pontas, não se sabe ainda tudo. E o semanário garante continuar "o apuramento de responsabilidades internas", tendo "já tomado medidas que evitem que o erro se volte a repetir".

2. A reação às palavras de António Costa também não podia ficar de fora: "As declarações do senhor primeiro-ministro foram infelizes (…) estas declarações de alguma forma ofenderam os médicos", referiu. E, em comunicado, a Ordem dos Médicos aponta que as afirmações de António Costa, "independentemente de serem proferidas de forma pública ou em privado, traduzem um estado de espírito ofensivo para os médicos e um sentimento negativo por uma classe profissional".

3. O Sindicato Independente dos Médicos também reagiu ao sucedido. "Lamentamos, reprovamos e repudiamos em absoluto as palavras" do primeiro-ministro, declararam. "Os médicos merecem e exigem respeito, muito mais partindo do Chefe de Governo", acrescentam.

4. Vários partidos reagiram às declarações: o CDS-PP e o Chega criticaram as afirmações do primeiro-ministro e pediram uma retratação de António Costa e uma repreensão por parte do Presidente da República e também a Iniciativa Liberal.

5. Desencadeada a polémica, a Ordem dos Médicos solicitou, com caráter de urgência, uma audiência ao primeiro-ministro. Afinal, defende, estão em causa "declarações ofensivas para todos os médicos e para os doentes, sobretudo os mais vulneráveis, são um mau serviço dos governantes ao país, e em nada contribuem para a necessária união num momento de pandemia".

6. António Costa já aceitou o pedido: o primeiro-ministro vai reunir-se com a Ordem dos Médicos esta terça-feira de manhã. Até ao momento não há indicação das horas exatas nem garantias de declarações no final.

7. Miguel Guimarães referiu que a reunião é "absolutamente essencial", para que o "mal-estar possa ser sanado e resolvido rapidamente". "Precisamos de fechar este dossiê [surto no lar em Reguengos de Monsaraz] e precisamos de nos concentrar naquilo que é importante", frisou o bastonário.

Ao invés dos sete segundos, estes são sete pontos que ajudam a perceber a história. Mas ainda há perguntas por responder sobre a origem do vídeo e o que realmente aconteceu em Reguengos de Monsaraz.

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