O presidente Jair Bolsonaro, com 67 anos, discursou na mesma esquina em que foi esfaqueado na campanha de 2018, em Juiz de Fora, Minas Gerais: "A cidade onde renasci", disse na abertura de um discurso carregado de declarações patrióticas e alusões a Deus e à Bíblia.

Com um casaco preto fechado até o pescoço, Bolsonaro reforçou a sua promessa de lutar contra a inflação de dois dígitos, o aborto, as drogas e defender a propriedade privada, alertando para uma ameaça "comunista" caso perca as eleições.

"Mito, mito, mito!", cantaram centenas de apoiadores. A sua esposa, Michelle Bolsonaro, expressou ainda mais entusiasmo. A fervorosa evangélica, que Bolsonaro disse ser a pessoa mais importante naquele local, apresentou-se ativamente na pré-campanha.

Vestida com uma camisa amarela, Michelle convidou o público a rezar o Pai Nosso e comoveu a multidão, constatou a AFP.

Nestas eleições está em jogo "o nosso futuro, o futuro das nossas crianças, o futuro das coisas que a gente defende como certo, que é a família, a pátria, a maioria ou a totalidade das pessoas que estão aqui é temente a Deus, são religiosos", afirmou Márcio Bargiona, um polícia reformado, de 55 anos.

Lula volta às origens

O ex-presidente, que lidera as sondagens, visitou a fábrica de carros em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, onde se tornou líder sindical nos anos 1970 e que é o seu berço político.

"Foi aqui que tudo aconteceu na minha vida: foi aqui que aprendi a ser gente, foi aqui que adquiri consciência política e foi por causa de vocês que eu fui um bom presidente da Republica", discursou o líder do PT, com uma camisa branca, cercado por centenas de metalúrgicos.

Apesar dos seus 76 anos, Lula afirmou estar com "a energia de 30" e disse que voltará ao poder para "recuperar o país". Ao mesmo tempo, criticou Bolsonaro, que chamou de "genocida" e "negacionista" pela gestão da pandemia, que no Brasil já deixou mais de 680 mil mortos.

"Se tem alguém que é possuído pelo demónio, é Bolsonaro", acusou o ex-presidente, levando os apoiantes ao delírio.

"Lula é a esperança da volta de condições melhores para os brasileiros. Eu me identifico com ele como metalúrgico, ele representa o poder dos trabalhadores", disse à AFP o soldador Maurício Souza, de 48 anos, que recebeu o seu candidato a tocar trompete.

Disputa de legados

Lula, que recuperou os seus direitos políticos em 2021, após a anulação das suas condenações na Lava Jato, continua a liderar as sondagens, embora Bolsonaro pareça diminuir a distância.

Na segunda-feira, o instituto Ipec indicou que Lula tem 44% das intenções de voto na primeira volta, em 2 de outubro, contra 32% para Bolsonaro.

"Temos em 2022 a eleição presidencial mais polarizada desde a redemocratização. Isso porque é a primeira vez que teremos uma disputa de legados, entre um presidente e um ex-presidente", explicou à AFP Adriano Laureno, analista político da consultora Prospectiva, classificando esta eleição como a mais "polarizada" desde a redemocratização, em 1985.

Bolsonaro definiu a campanha como uma batalha entre "o bem e o mal", afirmando que a volta de Lula ao poder poderia significar a instalação do "comunismo" no Brasil.

Já Lula promete restaurar as conquistas sociais das classes mais vulneráveis que caracterizaram o seu governo.

A principal preocupação dos brasileiros, segundo as sondagens, é a situação económica, marcada nos últimos anos por altos níveis de desemprego e uma inflação crescente que enfraqueceu a popularidade de Bolsonaro.

Embora a tendência seja o presidente fortalecer a sua popularidade com os recentes cortes nos preços do combustível, o aumento dos apoios sociais e uma maior presença da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, na campanha, a grande incógnita dos analistas é se há tempo para uma reviravolta eleitoral.

Mais de 156 milhões de brasileiros estão registrados para votar no dia 2 de outubro, a primeira volta de uma eleição em que também serão disputados cargos de deputados, senadores e governadores.

Voto eletrónico, um "orgulho nacional"

A pré-campanha foi marcada pelo constante questionamento de Bolsonaro - sem provas - sobre a confiabilidade do sistema de votação eletrónica, levantando receios de que o presidente possa não reconhecer uma eventual derrota.

Bolsonaro e Lula encontraram-se à noite em Brasília, na posse do ministro Alexandre de Moraes como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sentados quase cara a cara, Bolsonaro no pódio e Lula na primeira fila da plateia, os dois candidatos não trocaram uma palavra, pelo menos na frente das câmaras.

"Somos uma das maiores democracias do mundo (...) mas somos a única que conta e divulga os resultados no mesmo dia, com agilidade, segurança, competência e transparência. Isso é motivo de orgulho nacional", disse Moraes, alvo frequente das críticas de Bolsonaro.

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