Chamam-lhe Bones [Ossos], como a protagonista da série americana que retrata a vida de uma antropóloga forense do FBI que investiga crimes de homicídio. Eugénia Cunha, bióloga e antropóloga forense, é diretora do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (Delegação do Sul) e também tem a sua dose de mistérios, uns resolvidos, outros por resolver.

A professora catedrática da Universidade de Coimbra revela ao SAPO24 o que nos contam os mortos - de hoje, como de há milhares de anos -, que informação fica gravada nos ossos e como a ciência pode ajudar a polícia a desvendar crimes. E não só.

Em 2006, a investigadora tinha tudo preparado para estudar os restos mortais de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, mas Isabel Pires de Lima, então ministra da Cultura, acabou por proibir a abertura da sepultura a poucas horas da intervenção, apesar da autorização do Instituto Português do Património Arquitetónico. Mais recentemente, no entanto, Eugénia Cunha integrou a equipa de estudo de D. Dinis - e não descobriu quaisquer traumatismos antigos, nem sequer vestígios da mítica luta com o urso.

Nesta entrevista, são ainda temas de conversa as quintas de cadáveres, o esqueleto humano e aquilo que é único em cada indivíduo (muito mais do que as impressões digitais), bem como do contributo da Inteligência Artificial para a evolução do conhecimento nesta área.

Antes de mais, o que a levou a interessar-se por estas questões dos ossos?

Já é uma paixão antiga. Foi o curso de Biologia que despertou o meu interesse pelo estudo dos ossos, mais concretamente no departamento que é hoje Ciências da Vida, onde me formei, e que na altura era o departamento de Biologia e Antropologia. Tinha muitas coleções osteológicas identificadas, muitos esqueletos, um autêntico laboratório de pesquisa, e aquilo despertou a minha curiosidade. Isto, apesar de sempre ter tido esta curiosidade pelo corpo humano, porque o meu avô era radiologista.

Depois, conseguir descodificar o que está nos ossos é um desafio. A priori parecem mudos, parece que não dizem nada, mas, afinal, não é assim. E isso é muito interessante.

E o que nos podem dizer os ossos?

Podem dar-nos informação como a idade, a estatura, o sexo ou a causa da morte de um indivíduo, por exemplo.

O porquê das coisas
Entrevista com Eugénia Cunha. Bióloga, Antropóloga Forense e diretora do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (Delegação do Sul). Paulo Rascão/Madremedia créditos: Paulo Rascão/Madremedia

Talvez possa começar esta conversa por explicar o que é a antropologia forense e qual a sua importância.

A antropologia forense faz, sobretudo, a identificação de corpos em vários estados de decomposição, pode ser um cadáver fresco ou um cadáver em avançado estado de decomposição. Pode ser um corpo do qual não se sabe a identidade e, então, o que se pretende é devolver a identidade a esse corpo - esta é uma das grandes funções da antropologia forense. Além disso, faz análise de lesões traumáticas, para fazer, por exemplo,  a documentação de violações de direitos humanos ou para assistir o médico na causa, circunstância e mecanismo da morte. E analisa o tempo decorrido desde a morte, trabalha em crimes e em desastres de massa.

Em situações excepcionais, também trabalha em indivíduos vivos, que não têm identificação ou documentos válidos.

Começou por ser uma disciplina dentro da Antropologia Biológica, mas hoje é completamente autónoma, com o seu corpo científico muito sólido.

"Não devemos extrapolar, não podemos ir além daquilo que o esqueleto nos diz"

Há cerca de 30 anos foi descoberta a múmia humana mais antiga da Europa, Ötzi, também conhecida como o Homem do Gelo. Até onde é que a história reconstituída é verdadeira ou fabulação?

Essa múmia foi descoberta em 1991, e à medida que as tecnologias e os métodos melhoraram a informação foi-se alterando. Primeiro a causa da morte era uma, depois já não era. Obviamente, ter a ponta de uma seta no corpo não quer dizer que tenha morrido disso, mas ter uma fratura contundente no crânio revela mais.

Depois, na altura fizeram a reconstituição de Ötzi, com cabelo, barba e pele clara. Mas o estudo genético, descodificado por volta de 2014 ou 2015, revela que ele é careca e tem pele escura.

Por isso é preciso ter atenção. Há um grande potencial no estudo dos corpos mumificados ou em adiantado estado de decomposição, mas há limites. E não devemos extrapolar, não podemos ir além daquilo que o esqueleto, neste caso, nos diz. Por esse motivo devemos separar a descrição da nossa interpretação, de modo a permitir a outro perito, através da descrição, formar a sua opinião.

Portugal é rico nesta matéria?

Sim, há imensas necrópoles, campos de batalha, conventos. Valas comuns não, graças a Deus, nem da altura da peste, como acontece em França. O passado tem, de facto, conjuntos e amostras populacionais muito interessantes.

Integrou o primeiro estudo forense de um rei português, D. Dinis, "O Lavrador". Porquê e o que descobriu?

Porque estava a haver uma obra de restauro no Mosteiro de Odivelas e o túmulo tinha de ser restaurado. Como já tinha sido aberto em 1938 (e antes disso), e o corpo de D. Dinis andou dentro da igreja de um lado para o outro ao longo dos anos, resolveu-se dignificar e verificar o que estava lá dentro. A parte dos joelhos para baixo estava remexida e fora do sítio, mas o resto estava em posição anatómica.

Os resultados parciais do estudo foram divulgados num encontro recente em Odivelas. Confirmou-se a idade e datação e teremos acesso à sua reconstrução facial. Acedeu-se à dieta, fizeram-se análises toxicológicas e genéticas. Fez-se uma TAC. Analisou-se o tártaro: D. Dinis tinha uma boa dentição. E não tinha traumatismos antigos.

Há quase 20 anos podia ter estudado o corpo de D. Afonso Henriques, mas em cima da hora a autorização foi retirada pela ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima. Ainda gostaria de o fazer? O que se perdeu?

Perdeu-se uma oportunidade rara de aplicar a ciência para saber mais sobre o nosso primeiro rei. Gostaria. Mas não tomarei a iniciativa para tal.

"Na Guiné exumámos cerca de 50 corpos, alguns foram devolvidos, outros ficaram enterrados num local digno, em Bissau"

Esteve envolvida em outros projetos, como analisar os combatentes da Batalha de Aljubarrota, guerreiros medievais castigados com a amputação de mãos e pés ou procurar identificar antigos militares na Guiné.

Para o ano, vou fazer 40 anos de serviço, são muitas histórias. Comecei por trabalhar em populações do passado (pontualmente ainda trabalho) e, nesse âmbito, estudei alguns casos muito interessantes, como esse dos combatentes da Batalha de Aljubarrota.

Mas há muitos anos que me dedico sobretudo à antropologia forense, a casos do presente, o que tem a ver também com o meu pragmatismo: dar uma solução a casos, devolver os corpos às famílias, trabalhar no âmbito das violações dos direitos humanos, que é uma coisa que gosto.

Estou como diretora do Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses, delegação do sul, mas não deixo de fazer perícias. Já hoje [a entrevista começou pouco depois das 9:00] fiz uma.

"A antropologia forense faz, sobretudo, a identificação de corpos em vários estados de decomposição"

Quais os maiores desafios na antropologia forense?

Os maiores desafios foram em contextos internacionais, em que trabalhei para a Justice Rapid Response, em valas comuns em África. O objetivo era a procura e depois a exumação dos corpos dos militares portugueses que morreram na Guerra do Ultramar na Guiné. Estive cinco vezes na Guiné, foi um desafio bastante enriquecedor. Duro, mas enriquecedor, aprendi muito.

Fui a convite da Liga dos Combatentes, que depois terá continuado sem nós em Moçambique e penso que em Angola. Na Guiné exumámos cerca de 50 corpos, alguns foram devolvidos, outros, aqueles que não conseguimos identificar, ficaram enterrados num local digno, em Bissau.

"Não me sinto capaz de trabalhar num contexto de guerra. Na Ucrânia, por exemplo"

Quando pensamos em valas comuns, pensamos no passado, mas temos valas comuns bem recentes para analisar. A Ucrânia é um exemplo.

Exatamente. Infelizmente, isso vai ser um trabalho para a antropologia forense durante muito tempo. Já haverá equipas a começar, mas, pelo menos para já, não estou disponível para isso, porque ainda há a guerra. A prioridade são os vivos, depois virão os mortos. Temos de priorizar as coisas e ver qual o impacto das ações humanitárias que desenvolvemos.

Falou na Justice Rapid Response. Pode explicar o que é e o que faz?

No fundo é uma organização que fornece especialistas e mobiliza rapidamente equipas para ajudar nas investigações de crimes de guerra, genocídio, crimes contra a humanidade e graves violações dos direitos humanos a nível internacional. Na República Centro-Africana, em Mianmar, no Sudão, na Síria ou no Iémen, por exemplo.

Esses países querem que se faça justiça e recorrem a esta entidade, que tem um grupo de peritos, que eu integro, e que podem ser chamados para fazer intervenção em determinados contextos. São missões de uma semana ou duas semanas. A última em que participei foi na Gâmbia, com um perito da África do Sul que não conhecia, mas trabalhámos bastante bem.

Juntam peritos internacionais de várias especialidades para um contexto específico, previamente indicado, em diferentes locais, para onde vamos com seguranças. O tempo depende do contexto e do número de vítimas. O máximo que estive foi dez dias. É uma profissão itinerante e de risco.

Qual o seu maior medo?

Neste momento não me sinto capaz de trabalhar num contexto de guerra. Na Ucrânia, por exemplo. Penso que seria muito egoísta para com a minha família se o fizesse.

"No Brasil, os mortos são tantos que nem sequer existe uma lista de desaparecidos. Ou a família quer mesmo encontrar os seus entes queridos, ou é muito difícil"

Esteve nos Estados Unidos, na Europa, em África e no Brasil. Consegue dizer qual o trabalho que a marcou mais?

Diria que alguns casos no Brasil, pela violência, tiveram muito impacto em mim. É um país muito violento - faço mais casos lá numa semana do que aqui num ano. Uma violência gratuita, por nada, sem razão alguma e sem qualquer respeito pela vida humana. Matar por matar, é horrível. E no Brasil os mortos são tantos que nem sequer existe uma lista de desaparecidos. Ou a família quer mesmo encontrar os seus entes queridos, ou é muito difícil.

Em Portugal, qual o procedimento habitual para quem quer encontrar alguém que lhe é querido?

Deve procurar nas listas de desaparecidos da Polícia Judiciária, mas para constarem na lista de desaparecidos alguém tem de ter reportado o desaparecimento. Se desapareceu na zona de Lisboa também podem vir aqui falar connosco e vemos o que pode ser feito, dependendo dos dados que nos forem fornecidos sobre a pessoa desaparecida.

"Esse é o problema dos sem-abrigo: raramente alguém dá pela sua falta e reporta o desaparecimento e não há ADN para comparar"

O ADN não é a única prova de identidade. Que outras existem?

Não, não é. E esse é o problema dos sem-abrigo: por um lado raramente alguém dá pela sua falta e reporta o desaparecimento, por outro não há dados para comparar. Ou a polícia tem mesmo muito interesse, trabalha connosco e vamos até ao fim, ou é muito difícil descobrir a identidade.

Se não houver um ADN para comparar, pode haver a prova de uma cirurgia, um relatório clínico, um exame imagiológico - imagine alguém que pôs uma prótese, que tem uma ficha dentária. Sem alguma coisa, não se consegue.

Temos boas bases de dados e é possível recorrer a elas?

Não existem bases de dados genéticas. Em Portugal só existe base de dados de ADN das pessoas que têm cadastro. E tem sido alimentada, tem crescido substancialmente. Ou seja, atualmente é uma boa base de dados, está aqui no Instituto de Medicina Legal.

Nos Estados Unidos existe uma entidade privada que tem uma base de dados, a NamUs, onde se cruzam corpos não identificados com corpos não reclamados, e isso também ajuda a descobrir a identidade de um corpo. Aqui tem de ser via Polícia Judiciária e via Instituto Nacional de Medicina Legal. Os corpos não reclamados estão connosco, também alimentamos a base de dados dos desaparecidos.

Um cadáver fresco pode ser identificado pelas impressões digitais - até um cadáver em adiantado estado de decomposição pode permitir a identificação pelas impressões digitais. Depois, vai depender de ser um morto com suspeita de identidade ou sem suspeita de identidade. Amanhã, vou fazer um caso em que há suspeita de identidade, ou seja, pensa-se tratar-se de um senhor que veio do Ultramar e que vivia completamente isolado, quase ninguém o via. Não tem nenhum familiar direto, mas, como foi encontrado em casa, pensa-se que será determinada pessoa.

"O caso que fiz com mais tempo foi o de uma pessoa que estava morta em casa há nove anos, ninguém deu pela falta dela"

Falou em avançado estado de decomposição. Quando é que um corpo começa a decompor-se?

A decomposição é multifactorial. Começa pela autólise, um processo enzimático, destruição da célula por enzimas da própria célula, e a velocidade da decomposição depende da temperatura, da humidade, de o corpo estar ao ar livre ou enterrado, de a pessoa ser magra ou obesa, de uma série de factores.

Em Lisboa, o caso que fiz com mais tempo foi o de uma pessoa que estava morta em casa há nove anos, ninguém deu pela falta dela. Houve outro caso em que o senhor estaria morto há cerca de 15 anos, mas aí tinha uma filha com problemas mentais a viver com ele.

O que acontece no caso de os corpos não serem reclamados?

Quando os corpos não são reclamados ao fim de 30 dias podemos, eventualmente e se se justificar, começar o processo do funeral social. Não temos obrigação de manter aqui [no INMLCF] os corpos, nem teríamos espaço.

Têm lugar para quantos corpos?

Sessenta.

Estamos a falar de mortos. Existe o direito à identidade?

Existe o direito à identidade, que se mantém depois da morte. Depois, depende das circunstâncias. Um crime contra a humanidade, por exemplo, não prescreve. Se for um processo criminal dito normal prescreve ao fim de 15 anos, em Portugal. Mas o direito à identidade é universal.

Imagino que se deva tratar os mortos, ou os restos mortais, como se de pessoas vivas se tratasse. É assim?

Tem de se dignificar e respeitar da mesma maneira. Não é como trabalhar com um objeto, uma pedra ou um pedaço de madeira. Foi uma pessoa com vida. No caso do Instituto de Medicina Legal há um procedimento médico-legal, há uma cadeia de custódia e há o segredo profissional, que têm de ser cumpridos.

A questão da ética é importante?

É muitíssimo importante. Neste momento estou a dirigir a Comissão de Ética do instituto - há já demasiado tempo, até. Tem muito a ver com a maneira como se trabalha e como se respeita o próximo. O morto continua a ser uma pessoa, é preciso respeitá-lo, não vale tudo.

O que não vale?

Por exemplo, não dar amostras para análise, invasivas e destrutivas, a torto e a direito. Se tem apenas fragmentos e dá tudo, o que acontece, fica sem nada? Eticamente não está certo, tem de preservar o que existe, manter o corpo em condições dignas até ser devolvido. Numa análise genética, por exemplo, o osso é reduzido a pó. Não dá para voltar atrás. Para saber se tem ADN preservado não vai destruir o corpo todo até conseguir.

"As quintas de cadáveres chegaram à Europa há dois ou três anos. Em Portugal são proibidas, mas há na Bélgica e nos Países Baixos"
O porquê das coisas.
Entrevista com Eugénia Cunha. Bióloga, Antropóloga Forense e diretora do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (Delegação do Sul). Paulo Rascão/Madremedia créditos: Paulo Rascão/Madremedia

Voltando um pouco atrás, outro dia ouvi falar em quintas de cadáveres, achei extraordinário. O que são?

As quintas de cadáveres surgiram nos Estados Unidos, no Tennessee, em Knoxville, na década de 80 do século XX, pela mão de William Bass, um professor que foi mestre de uma geração de antropólogos forenses. Foi ele que começou, sobretudo para melhor compreender a decomposição cadavérica e saber o tempo decorrido desde a morte, que é uma das questões a que temos de responder: há quanto tempo morreu.

Daí os cadáveres doados à ciência. Alguns destes cadáveres foram enterrados, outros ficaram ao ar livre, outros em condições diversas, todas completamente controladas. E começaram a fazer-se estudos, que se revelaram muito úteis.

O conceito quinta de cadáveres expandiu-se depois para outros sítios nos Estados Unidos e também para o Canadá. À Europa chegou há dois ou três anos e só são permitidos cadáveres enterrados, e apenas na Bélgica e Países Baixos. Em Portugal não temos essas quintas nem temos autorização para isso, como não tem maior parte dos países.

Temos coleções de esqueletos identificados. Coimbra, por exemplo, é muito rica nisso. Pertenço à Universidade de Coimbra, é o meu lugar de origem, sou catedrática lá. Cá as comissões de ética não dão permissão para as quintas de cadáveres. Enfim, se for um corpo doado à ciência, não estou a ver o problema, desde que seja num local isolado. Mas por enquanto não é permitido.

"Nos Estados Unidos, existe uma entidade privada que tem uma base de dados, a NamUs, onde se cruzam corpos não identificados com corpos não reclamados"

Em Portugal há muita gente a doar o corpo à ciência, tem números?

Há algumas pessoas a doar o corpo à ciência e essa doação é feita através das faculdades de Medicina. O número é relativamente baixo, mas há. Como a doação de órgãos. Mas há dadores.

Vou falar de casos duros - e menciono os nomes porque penso que os devemos lembrar: Joana, Maddie, Valentina, Jéssica. Qual o papel da antropologia forense nestes casos?

Tive a ver com todos eles. A antropologia forense só entra em ação quando o corpo é encontrado. No caso da Maddie, por exemplo, às vezes era chamada para ir a terrenos porque encontravam vestígios, sempre de animais, e era preciso confirmar do que se tratava. A polícia britânica chegou a falar comigo.

Aparecem vários ossos de animais que, em contexto forense, é preciso discriminar, dizer se é ou não humano. Por exemplo, as falanges dos javalis são muito parecidas com as nossas.

No caso da Joana nunca foi encontrado o corpo e há a suspeita não confirmada de que pode ter sido dado a comer a porcos.

Isso poderia ter sido confirmado de alguma forma?

Poder-se-ia ter feito uma autópsia aos porcos, mas a investigação não foi por aí. Não sei os motivos.

Mas lembro-me de um caso em que um homem que vivia sozinho foi encontrado morto em casa, com o cão, também morto e mumificado. Terá morrido depois do homem e terá comido parte do dono, ainda encontrámos no estômago do cão alguns ossos do indivíduo. Isto para dizer que é possível e poderia ter sido uma via de pesquisa [no caso da Joana], tentar encontrar proteína humana nas fezes dos porcos, por exemplo. Havia linhas de pesquisa que podiam ter sido seguidas.

Existe alguma recomendação para que sejam esgotadas todas as hipóteses?

Não. Devemos esgotar todas as hipóteses, mas temos de trabalhar em colaboração com as entidades policiais, portanto, há tarefas que não somos nós a decidir, podemos recomendar e sugerir aquilo que pode ser feito. O segredo, também, está no trabalho em equipa, na troca de ideias, que ajuda a pensar em alternativas.

Por falar em alternativas, a Inteligência Artificial, imagino, é uma enorme ajuda para a antropologia forense. Que benefícios trouxe?

A Inteligência artificial é cada vez mais uma ferramenta útil também para a área forense. E é transversal a quase todos os campos científicos. Por exemplo, quando se está a comparar o ante mortem ou os dados do desaparecido com os dados que inferimos do cadáver, na decisão de quão parecido é ou não é. E também em métodos que desenvolvemos e em que os algoritmos têm sido muito úteis, como na estimativa da idade à morte.

Um grande salto seria a aplicação em termos de rotina da Inteligência Artificial, que vai acontecer mais rápido do que julgamos, já está a acontecer em alguns sítios, e da imagiologia forense. Que nunca vão substituir as mãos e o cérebro.

Os simuladores também são importantes. Um osso vivo não tem o mesmo comportamento que um osso morto.

Os ossos vivos são ossos que têm de ser alimentados, que dobram, que doem, que sangram, um tecido corporal como qualquer outro. Só entendendo como funciona o osso vivo podemos interpretar o osso morto, a biomecânica é completamente diferente, a resistência, a elasticidade. Agora, tudo isso pode ser recriado.

Isso é útil, por exemplo, no caso dos corpos queimados.

Os corpos queimados também são connosco, fiz alguns dos incêndios de Pedrógão de Outubro. Foi muito duro e um desafio enorme. Sabemos cada vez mais o que acontece ao osso quando arde, fazemos muitos estudos de investigação na Universidade de Coimbra, no laboratório de antropologia forense. A engenharia biomédica e a engenharia de materiais também são uma enorme ajuda.

Havia uma série de televisão, Ossos. Costumava ver?

Sim. E ainda me chamam Bones [alcunha da protagonista]. Quando o meu filho casou, esse era o nome da minha mesa. Mas eu já existia antes da Bones [ri]. De resto, os meus filhos adoram as séries, mas nem querem ouvir falar do que faço: "Não contes nada, não queremos saber". Mas vêem e discutem as séries.

Eu comento muitas vezes a série em âmbito de aulas, que continuo a dar, ou de palestras, e até mostro excertos para comparar a realidade versus ficção. Antes disso havia, e ainda há, CSI [Crime Sob Investigação], e há até teses de doutoramento sobre o tema. É óptimo para desenvolver sentido crítico, ver o que está bem e o que está mal, não acreditar em tudo.

Que mitos pode desfazer, nessa comparação do que é falso e do que é facto?

Por exemplo, não se vai ao local com aquela rapidez e sem ser equipado e não é verdade que se olhe para o corpo e se faça logo um diagnóstico. Para fazer o diagnóstico é preciso fazer exames, ver, mexer. E isso demora, não se faz com aquela celeridade. Os super-laboratórios também não existem em todo o lado e, por muito bons que sejam, se não houver dados sobre o suspeito, nunca vamos chegar à sua identificação.

Mas essas séries também têm o mérito de divulgar as ciências forenses. Mas às vezes também ensinam os criminosos a não deixarem vestígios.

Esternocleidomastóideo. Quem viu "A Canção de Lisboa" não se esquece deste músculo. Quantos ossos tem o corpo humano adulto?

207.

Algum tem mais importância que outro na identificação de um cadáver?

Depende da informação. Se houver uma deformação ou uma patologia do fémur, por exemplo, vai ser esse o mais importante. Para determinar a idade de um adulto, completamente diferente da de uma criança, os ossos da bacia são particularmente informativos. A clavícula também, é o último osso do corpo a acabar a ossificação [formação completa do osso], mais ou menos 30 anos (e algumas costelas). Para afinidade populacional, também num adulto, é a face.

Passamos a vida a encontrar - ou a tentar encontrar - diferenças. A fisionomia pode ser diversa, mas por dentro existem essas diferenças entre a população?

Não há características exclusivas de nenhuma população, mas há nuances. A morfologia facial pode ser um exemplo. Nem sempre é fácil, por uma lado porque a face tem de estar bem preservada, por outro porque a globalização está a alterar muito a frequência dessas características.

São os filhos do Erasmus...

Exatamente. É uma coisa subtil, não é macro evolutiva, vai demorar a ver. Mas sim, vai-se notando cada vez mais. No Brasil há até uma denominação que não temos, o 'pardo'. Pardo quer dizer misto, tem uma mistura que pode ser de asiático com europeu, de europeu com africano, de africano com asiático. E o Brasil é como se fosse um continente com vários países, Portalegre é completamente diferente de Salvador.

O que é que nunca muda no corpo humano ao longo do tempo?

Tudo envelhece. Olhe, os ossos dos ouvidos nunca mudam. Os três ossinhos à direita e à esquerda - a bigorna, o estribo e o martelo - são praticamente do mesmo tamanho desde a nascença.

A forma da orelha, a não ser que tenha um acidente ou cirurgia, naturalmente, também se mantém imutável e permite identificar a pessoa. É exclusiva. Temos outras coisas exclusivas em nós, como os seios frontais, localizados acima dos olhos, perto da testa, que são únicos e exclusivos num dado indivíduo. Ou seja, se tiver feito alguma radiografia em vida porque teve sinusite, por exemplo, é possível compará-la com o crânio e dizer se é a mesma pessoa. Ou a estrutura trabecular, a maneira como as trabéculas ósseas estão dispostas também é única.

"Temos muitos ossos nas extremidades, 27 ossos em cada mão, 26 em cada pé"

Ao longo destes anos o que continua a ser desafiante para si e quais as maiores frustrações?

Em termos de ossos? As mãos, sobretudo, continuam a ser um grande desafio. Temos muitos ossos nas extremidades, 27 ossos em cada mão, 26 em cada pé. É muita coisa.

Mas se pergunta o que continua a ser desafiante em termos de trabalho, é conseguir devolver a identidade a um corpo e contribuir para o conhecimento do que aconteceu quando as mortes são violentas, através das lesões traumáticas ósseas.

Tudo o que meta crianças, como já falámos, são realidades duras. Tive vários casos duríssimos, alguns recentes, que, por motivos de sigilo profissional, não posso revelar.

É frustrante quando não há nada, ou seja, quando existe a suspeita de que a morte foi violenta, por asfixia, por exemplo, mas não encontramos os ossos do pescoço ou os ossos do pescoço estão lá e estão intactos. A ausência de evidência não é a evidência da ausência.

Não poder provar algo de que estamos absolutamente convencidos é mau, mas temos de conhecer os limites do esqueleto e não podemos extrapolar ou fabular e inventar. É factual, é assim. Está lá o osso hióide - que não é a única prova - e não tem fractura. Ponto.

Daquilo que é possível avaliar, a violência está a aumentar, há tendências?

Se estiver a falar de homicídios, continua a ser uma taxa baixa, mas acontecem, sobretudo por armas brancas. Não diria que há um aumento de violência significativo.

Qual o número de corpos não identificados e não reclamados, sabe?

Existem percentagens, não as sei de cor. Sei que os números estão estáveis nos últimos cinco anos, não está nem a aumentar nem a diminuir.

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