“Qual é o problema de as pessoas porem duas peças ou três [de publicidade nas varandas] - uma coisa que quase nem se nota no bairro - e as pessoas que têm dificuldades receberem 50 euros? Não vejo problema nenhum, antes pelo contrário, vejo que as pessoas ficaram contentes com esse valor”, afirmou a presidente da Associação do Património e População de Alfama (APPA), Maria de Lurdes Pinheiro.

Em declarações à agência Lusa, a presidente da APPA explicou que a ideia era dirigir a campanha Estende a Renda “a pessoas com mais problemas financeiros, que estivessem mais vulneráveis” e, ao mesmo tempo, que “servisse para divulgar e para denunciar o que se está a passar no bairro”, nomeadamente o problema da gentrificação.

Para aceitar a campanha, a associação de Alfama decidiu colocar algumas condições, nomeadamente “que as pessoas não ofereciam a varanda gratuitamente”, o que foi aceite.

“Avançámos com um número de 12 famílias, que tinham nas suas varandas três peças pequenas do Minipreço a divulgar a campanha deles e também o aniversário deles”, indicou Maria de Lurdes Pinheiro, acrescentando que a campanha decorreu ao longo de 10 dias e terminou na quinta-feira com a entrega de vales de supermercado no valor de 50 euros, num total de 600 euros atribuídos em cupões.

Sobre as críticas por ser uma campanha “oportunista”, a presidente da APPA defendeu que “isso é tudo muito relativo”, interrogando se não é oportunista quando outras marcas, nomeadamente de cerveja, colocam bandeiras nas varandas dos moradores pelo “preço de nada”.

“É evidente que isto não vai resolver problemas às pessoas. O ideal seria que todas as pessoas recebessem o suficiente para puderem viver com dignidade e não precisassem de fazer coisas destas, mas não é o caso, as pessoas estão com dificuldades”, declarou a responsável pela APPA, revelando que já houve pessoas que foram ao supermercado para perguntar como se inscreviam na iniciativa Estende a Renda.

Na perspetiva das associações pelo direito à habitação, inclusive Habita e Stop Despejos, é de “um oportunismo muito grande a forma como essa entidade comercial se aproveita de uma situação que é dramática, que é as pessoas não conseguirem ou terem hoje muita dificuldade em pagar a renda”.

Em representação dos mais de 30 coletivos que integram o festival HabitACÇÃO, que está a distribuir bandeiras amarelas em que se lê “Subir os salários. Baixar as rendas. Parar os despejos!”, Rita Silva afirmou que a campanha de pendurar uma bandeira amarela à janela é uma reivindicação, “não é em troca de qualquer tipo de publicidade comercial a nenhuma entidade, também não é em troca de cupões de compra de bens numa cadeia de supermercados”.

Em resposta à Lusa, a agência de publicidade NOSSA disse que a campanha Estende a Renda é um projeto experimental, que “nasceu como uma campanha solidária para ajudar a combater um grave problema que afeta as cidades” – a crise habitacional, pelo que a ideia poderá ser replicada por outras associações e outras marcas, “se for benéfica para as populações”.

“Não pretende ser a solução milagrosa que vem acabar com este flagelo. Foi uma forma que a NOSSA, a APPA e o Minipreço encontraram para tentar ajudar os moradores em risco, usando as ferramentas que temos à nossa disposição: as ideias e a publicidade”, reforçou a agência de publicidade, destacando a recetividade dos moradores, que tem sido “altamente positiva”.

De acordo com Ricardo Torres Assunção, diretor de comunicação e publicidade da DIA Portugal, que detém o Minipreço, a campanha Estende a Renda “foi uma ideia original da NOSSA” à qual o grupo de supermercados aderiu, no sentido de “alertar para uma problemática que atinge os grandes centros urbanos, com um inovador meio, de grande formato, que usa os estendais, símbolo típico dos bairros lisboetas, para comunicar”.

“Assim, ajudamos os moradores de Alfama a aumentarem a sua disponibilidade financeira com vales de compras nas nossas lojas”, apontou o responsável da DIA Portugal, fazendo um balanço “extremamente positivo” da parceria com a associação de Alfama e informando que, “numa fase inicial foram 12 famílias, mas o projeto irá crescer de acordo com as necessidades identificadas”.

Desde o lançamento da campanha, a plataforma ‘online’ da Estende a Renda tem recebido “inúmeros pedidos de outros bairros que pretendem implementar ações similares”, apurou Ricardo Torres Assunção, adiantando que a NOSSA está a estudar todos os pedidos para viabilizar os mais prementes.

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