Chegar ao Santuário, mesmo que de automóvel, é uma passagem pelos estados mentais — por ventura espirituais — das dezenas de milhares de pessoas que se reúnem para fazer de testemunhas de um fenómeno. Acredite-se ou não nos acontecimentos de 1917; acredite-se ou não numa entidade superior a tudo isto; sequer numa outra entidade que não a da cruz que encima todo o recinto. Sejam quais forem as crenças, os credos, as orações e as penitências. Seja isto ou aquilo. Seja a racionalidade ou a inocência. O capitalismo e o turismo religioso. Sejam as promessas à virgem eventual; as superações pessoais ou os desafios do corpo.

Seja o que for. Seja como for. Fátima é, indubitavelmente, um lugar sem paralelo no país. Ali, naquela que serve de igreja matriz do território nacional, há uma luz diferente. Uma expectativa distinta. Os rostos brilham, dos óleos que untam as caras cansadas, tremendo ao vento os fogachos das velas. Os suores e as bolhas nos pés, dores que resumem as maleitas e agruras do ano — e ali, naquela noite, aos 9 graus que o vento fustiga, envoltos só naquilo em que creem, milhares de corpos, por ventura também as respetivas almas, olham uma figura.

Não cabe aqui explicar as ladainhas ou os cânticos; tampouco questionar os que vendem à beira do templo, possa isto ser ou não metáfora bíblica. Não sairá daqui a conclusão de que Fátima e o que lhe está associado ocorreu como dizem ter ocorrido, faz agora 101 anos. De igual modo se não dirá o contrário.

Podíamos falar com cada um dos 37 mil peregrinos que foram a pé para estar em Fátima no dia 13. Cada um fez o caminho com as próprias convicções. As próprias razões. Chegados à massa disforme que se acumula como manto sobre o betão da basílica a céu aberto, abraçados pelo sol, pelos bancos presos a cadeado, pelo cheiro da cera que derrete em vorazes piras, derretendo as promessas de figuras de cera, velas apenas, mais grossas ou estreitas, consoante a penitência selecionada.

Uns sobem, outros descem. O terreno, que se abre em anfiteatro, recebe todos. Uns esperam. Rezam, cantam lá as suas avenças às respetivas santidades venerandas. São só eles e os deuses que os hão de ouvir.

créditos: PEDRO SOARES BOTELHO / MADREMEDIA

Ao lado, as lembranças. Ícones da presença, materiais da vontade. “Estive em Fátima e rezei por ti”, lê-se. Também se anunciam as tais velas, entre porta-chaves. Não cabe a nós avaliar o câmbio entre orações e peças de plástico ou cera.

Já a noite. Em Lisboa, Portugal procura defender o título de campeão das canções. Em Fátima, milhares de pessoas, empunhando mais de outros tantos milhares de velas (repetindo por cada promessa ou pessoa representada), entoam as orações marianas.

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“Apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de Sol”. Três pastores, há 101 anos, dizem ter visto uma mulher sobre o lugar onde hoje se ergue uma capela, já feita e desfeita durante o século que entretanto passou.

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Agora, ei-los aos milhares. Testemunhas de uma crença. Percorrendo quilómetros. Vindos de todas as partes do país, também do mundo. Vindos da Austrália e de Celeirós. Da Coreia do Sul e de São João das Lampas. Da Índia e de Figueira de Castelo Rodrigo. Da Malásia, Filipinas e da Polónia. De Resende, Montalegre e Moure. Do México e do Brasil; de Barcelos e das Caxinas.

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Venham de onde vierem. Cada um traz o respetivo motivo; a respetiva motivação. E, aqui chegados, expressam-no de todas as maneiras.

créditos: PEDRO SOARES BOTELHO / MADREMEDIA

Finda a primeira celebração, o andor sai do pedestal na chamada “Capelinha das Aparições”. Em cortejo, segue por entre a multidão, ladeado de bandeiras, homens da igreja e militares. Vai a caminho do grande altar, onde será celebrada a missa da Vigília.

créditos: PEDRO SOARES BOTELHO / MADREMEDIA
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No final da celebração, presidida pelo cardeal John Tong, bispo emérito de Hong Kong, regressa a imagem ao lugar das aparições, em novo cortejo. Dividem-se depois os que abandonam o recinto e os que hão de ficar toda a noite em oração ali mesmo.

créditos: PEDRO SOARES BOTELHO / MADREMEDIA

Entre mantas, casacos ou somente abraços. Resguardam-se os corpos do frio. Aquecem-se as mãos com as velas. Há quem pense, quem converse. Quem procure vida num telemóvel. Quem encoste a cabeça a um ombro e durma ou feche somente os olhos. As velas ainda ardem. Não são para apagar.

Dali a horas, no domingo, 13 de maio, 300 mil pessoas encheriam o santuário. A pé vieram 37 mil.

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