Os bombeiros estavam onde era esperado que estivessem: na primeira linha do combate às chamas. Mas, desta vez, o fogo não se concentrou numa única zona, espalhando-se por dezenas de frentes, avivado por um vento que soprava em rajadas, mudando constantemente de direção.

Os bombeiros das duas corporações foram socorrendo os locais de maior risco, mas ficou claro que uma centena de voluntários não foram suficientes para proteger das chamas uma área a rondar os 300 quilómetros quadrados, com uma forte mancha florestal, vastos terrenos agrícolas e diversas zonas industriais. "Andámos a correr atrás do fogo", disse à agência Lusa o comandante dos Bombeiros de Mira, Nuno Pimenta.

"Estivemos toda a noite entregues à nossa sorte", resume Silvério Regalado, presidente da Câmara de Vagos, que passou a noite no terreno a acompanhar as operações de combate aos fogos. O autarca revela que ao longo da noite falou diversas vezes com o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, pedindo-lhe reforços, que nunca chegaram.

Uma história semelhante é contada pelo presidente da Câmara de Mira, Raul Almeida. "Falei diversas vezes com o secretário de Estado, alertando para as dificuldades que estávamos a enfrentar e pedindo meios, mas esses meios não apareceram", relata o autarca, a meio da manhã, na frente de fogo que devastou grande parte da zona industrial de Mira.

O combate ao pior incêndio de que há memória na região foi assim conduzido em grande parte pelas populações, que se organizaram para combater as chamas. Tome-se como exemplo a freguesia do Seixo de Mira, que chegou a estar isolada durante a madrugada, devido ao avanço das chamas.

Fuligem, cheiro a fumo e muito calor marcaram a tarde de domingo no Seixo. As chamas andavam uns quilómetros para norte, na zona do Palheirão, evoluindo na direção da Praia de Mira. Ao princípio da noite, as chamas romperam com força a uns 500 metros da aldeia, na estrada florestal que liga à Praia do Poço da Cruz, e o reflexo vermelho do incêndio tingiu a aldeia.

Os primeiros telefonemas para os Voluntário de Mira chegaram para perceber que não haveria socorro, uma vez que os bombeiros estavam na outra ponta do concelho, tentando conter o avanço das chamas a sul da Praia de Mira.

Para combater as chamas avançou uma dúzia de pessoas, entre os quais o presidente da Junta de Freguesia, apoiados por um trator com um depósito de 400 litros de água. Com ramos, pás e enxadas, os habitantes do Seixo tentaram conter o avanço das chamas junto à vala dos Fojos. O vento forte deu nessa altura uma ajuda, com rajadas fortes para sul, que levaram as chamas para uma zona de floresta ainda a recuperar dos incêndios de 2007.

De repente, surgiram três focos diferentes de chamas, na outra ponta da povoação, a uns dois quilómetros de distância. O trator da Junta seguiu para conter os novos focos, as pessoas organizaram-se, molharam casas e jardins com mangueiras, cavaram trincheiras para travar as chamas em terreno raso.

De repente, a aldeia ficou sem luz, sem comunicações (nenhuma operadora móvel conseguiu dar resposta), sem internet ou televisão. Coordenar o ataque às chamas passou a ser feita à maneira antiga, aos berros, levando a pé ou de bicicleta instruções de um lado para o outro.

Nas ruas, as pessoas clamavam pelo auxílio dos bombeiros, que nessa altura estavam no centro da vila de Mira, contendo as chamas que consumiram duas casas a cem metros dos Paços do Concelho. Os quintais da vila ardiam, os terrenos baldios eram pasto das chamas, mas milagrosamente as chamas pouparam as casas na EN109, metidas entre duas frentes.

Os acessos à autoestrada A25 estavam já a arder e as chamas prosseguiam paralelamente à EN109, varrendo quintais e terrenos agrícolas numa frente que ia do início do concelho até à rotunda da estrada para Cantanhede, nessa altura já cortada pelas autoridades devido à falta de condições de segurança.

Por volta da meia-noite, o Seixo já estava isolado. As chamas chegaram a estar a 500 metros do centro da aldeia, mergulhada em fumo e fuligem. Junto ao cemitério, a estrada estava cortada pelas chamas, que pararam a dezenas de metros do posto de gasolina da aldeia. A poucas centenas de metros, ardiam terrenos nas saídas da zona industrial. As chamas atravessaram a EN109 e consumiram as empresas instaladas na parte mais antiga da zona industrial. Não se conseguia ver um palmo por causa do fumo, na estrada caíam os postes de madeira dos telefones, perto do Restaurante Real uma senhora que fugia das chamas foi atropelada.

Por toda a aldeia, as pessoas trabalhavam para proteger casas e terrenos, usando tratores, cisternas de saneamento, pás, enxadas, mangueiras. O regresso inesperado da eletricidade permitiu usar a água dos poços com motores de rega. Quintais ardiam, mas nenhuma casa foi tocada pelas chamas. Por volta das cinco da manhã, o Centro de Dia voltou a estar ameaçado, mas o vento soprou mais uma vez as chamas para longe.

Menos sorte tiveram as empresas da zona industrial. A meio da tarde de hoje ainda ardiam algumas situadas na saída para o Corticeiro. A câmara fala em cinco empresas, as pessoas que continuam por lá dizem que arderam sete. Ainda ninguém consegue quantificar os prejuízos, mas há dezenas de postos de trabalho em risco.

As primeiras horas do dia deixaram à vista um cenário desolador. As chamas acompanharam o traçado da A17 até Aveiro, consumindo floresta, armazéns agrícolas e algumas empresas. A maior empregadora do concelho de Vagos, a Ria Blades, teve avultados prejuízos, mas não interrompeu totalmente a laboração.

As chamas deixaram um rasto de destruição na mancha florestal que liga Vagos à praia da Vagueira. No Areão, devastaram terrenos da antiga colónia agrícola e ameaçaram casas entre a Ria de Aveiro e o mar. Mais a sul permanecem cortadas as estradas que saem da Praia de Mira para o Palheirão, onde o incêndio consumiu hectares de Mata Nacional. Entre Mira e a Praia há dezenas de terrenos queimados, casas chamuscadas. Na EN109 há casas queimadas, viaturas calcinadas, empresas destruídas.

As Câmaras fazem as contas aos prejuízos. Não há registo de vítimas mortais.

Por: Rui Baptista, da agência Lusa

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