A agência France Press refere que, apesar do clima tenso, três opositores sudaneses que tinham sido presos na sequência da onda de repressão militar, foram libertados hoje, segundo noticiou a televisão estatal.

Uma semana depois da sangrenta repressão do protesto realizado defronte do quartel-general do exército, algumas lojas reabriram em Cartum, embora a maior parte da capital permaneça deserta. Cortes de energia e da internet também dificultaram as comunicações.

Alguns autocarros estão já a circular na cidade, onde mais carros e transeuntes também eram visíveis em comparação com o que sucedeu domingo.

"Se eu trabalho, isso não significa que eu não apoie a revolução", explicou Abdulmajid Mohamed, um motorista de autocarro, justificando que tem de "trabalhar para sustentar minha família, pois caso contrário "não teria dinheiro."

O Conselho Militar de Transição, que governa o Sudão desde a destituição do presidente Omar al-Bashir em 11 de abril, anunciou no domingo à noite o envio de reforços militares para a capital para promover "um retorno à vida normal".

As forças de segurança têm-se empenhado nos últimos dias para desmantelar as barricadas montadas pelos manifestantes, que continuam a exigir a transferência de poder para os civis.

Entretanto, a televisão estatal sudanesa noticiou que Yasser Amran, um líder rebelde preso na última quarta-feira, foi libertado, assim como duas outras figuras do movimento, Mubarak Ardul e Ismail Jalab.

Ardul e Jalab foram presos no dia seguinte à reunião com o primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed, que chegou a Cartum como mediador na sexta-feira.

O anúncio de libertação ocorre no segundo dia do movimento de desobediência civil lançado pelo protesto contra o recrudescimento da repressão, que em apenas uma semana já matou 118 pessoas e causou mais de 500 feridos, a maioria durante a intervenção para dispersar a manifestação efetuada em 3 de junho, segundo a estimativa de uma junta de médicos que acompanhou o incidente.

O governo, por seu lado, estimou que 61 pessoas morreram, 49 delas vítimas de tiros disparados em Cartum.

No domingo, primeiro dia do movimento de desobediência, a junta médica informou que quatro pessoas morreram, duas em Cartum e outras duas em Omdurman, cidade próxima da capital.

Os militares têm responsabilizado os manifestantes pela deterioração da situação de segurança em Cartum e no país.

"A Aliança pela Liberdade e Mudança (ALC) é totalmente responsável pelos incidentes recentes e infelizes (...) incluindo a obstrução de estradas", disse o general Jamal Din Omar, membro do Conselho Militar, num discurso televisionado na noite de domingo.

"O Conselho Militar decidiu reforçar a presença das forças armadas (RSF) e de outras forças regulares para um retorno à vida normal", acrescentou.

A RSF é acusada pelo manifestantes de estar na origem da intervenção violenta ocorrida durante o protesto diante da sede do exército.

As forças de segurança vão garantir "segurança para civis isolados, reabrir estradas e facilitar a mobilidade de pessoas, transporte público e privado, e proteger mercados estratégicos e instalações estatais", assegurou o general Jamal el-Din Omar.

No domingo, a tropa de choque interveio no bairro de Bahri, no norte da capital, disparando ar e gás lacrimogénio para dispersar manifestantes que, pela manhã, construíram barricadas com pneus, tijolos ou troncos de árvores.

O protesto, lançado em dezembro num contexto de uma grave crise económica, visa continuar até que o poder civil seja estabelecido.

No final de maio, uma greve geral de dois dias paralisou parcialmente o país.

As conversas entre os militares e os líderes do protesto foram suspensas em 20 de maio, com cada uma das partes a querer liderar a transição pós-Bashir.

"As partes (em conflito) precisam chegar a um entendimento, porque se a situação persistir, temo que perderemos o nosso país", comentou Issa Omar, uma funcionária de Cartum.