“Um objetivo importante da biologia experimental é o desenvolvimento de sistemas-modelo que permitam o estudo de doenças humanas em condições `in vivo´”, disse Juan Izpisua Belmonte, do Instituto para as Ciências Biológicas Salk dos Estados Unidos, citado num comunicado do instituto sobre o estudo, publicado hoje na revista científica de biologia experimental Cell.

Os investigadores consideram que os resultados do estudo constituem “mais um passo” na compreensão do desenvolvimento humano e da progressão de doenças, contribuindo também para responder à escassez de órgãos para transplantes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que os cerca de 130 mil transplantes realizados anualmente fiquem aquém das verdadeiras necessidades, uma situação que é agravada pela escassez de órgãos disponíveis para esses procedimentos.

A capacidade de fazer crescer as células de uma determinada espécie dentro de um organismo de uma espécie diferente – resultando em tecidos denominados ‘quimeras’ – é considerada uma “ferramenta poderosa” para a pesquisa e a medicina, apesar de exigir especial consideração sobre questões éticas.

De acordo com Izpisua Belmonte, responsável por esta investigação, tendo em conta a impossibilidade de realizar determinadas investigações em humanos, “é essencial ter os melhores modelos para estudar e compreender com mais precisão a biologia e as doenças humanas”.

Este novo estudo baseia-se na investigação anterior desenvolvida pelos cientistas do instituto Salk, dando agora o “próximo passo em organismos quiméricos” – que contêm células de duas ou mais espécies – para compreender a progressão de várias doenças e contribuir para solucionar a escassez de órgãos para transplante.

“Essas abordagens através de ‘quimeras’ podem ser realmente muito úteis para o avanço da pesquisa biomédica não apenas no estágio inicial da vida, mas também no último estágio da vida”, assegurou Izpisua Belmonte.

Depois de um primeiro estudo, em 2017, ter incidido na incorporação de células humanas em tecidos de suínos, a equipa de Izpisua Belmonte iniciou uma linha de investigação em macacos, uma espécie mais próxima dos humanos.

Desta forma, foi possível recolher “informações valiosas” sobre como as células de diferentes espécies comunicam umas com as outras, adiantou o investigador.

Na prática, os cientistas marcaram células estaminais (não diferenciadas) humanas, capazes de se desenvolverem em todos os tipos de células no corpo, com uma proteína fluorescente, as quais foram inseridas em embriões de macaco.

Através de estudos de imunofluorescência, em que os anticorpos se ligam às células estaminais, os cientistas observaram que as células humanas sobreviveram e se integraram com melhor eficiência do que nas investigações anteriores realizadas em tecidos de suíno.

Os investigadores conseguiram, assim, cultivar embriões quiméricos por um período significativo de tempo, até 20 dias, constatando ainda que a percentagem de células humanas nos embriões permaneceu alta ao longo desse período.

Este resultado constitui uma “nova plataforma para estudar como surgem doenças específicas”, como, por exemplo, como um determinado cancro é gerado nas células humanas, adiantou a investigação, ao avançar que estes modelos quiméricos podem também ser usados para testar compostos de medicamentos.

“Por mais importantes que consideremos esses resultados para a saúde e para a pesquisa, a forma como conduzimos este trabalho, com a máxima atenção às considerações éticas e em estreita coordenação com as agências reguladoras, é igualmente importante”, salientou ainda Izpisua Belmonte.

“Em última análise, conduzimos esses estudos para compreender e melhorar a saúde humana”, assegurou o investigador.

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