"Toda a luta não pode ser reduzida à guerra. Foi um projeto político importante, que teve a sua lógica e que quase toda a gente o comprou. Nós falamos da guerra por excesso [..]. Há várias frentes de luta que ficaram esquecidas", disse à agência Lusa Maria Paula Meneses, coordenadora do projeto "BLEND - Desejo, Miscigenação e Violência: O presente o passado da Guerra Colonial Portuguesa", do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.

Segundo a investigadora do CES, as mulheres, para além de terem estado presentes nas frentes de guerra em destacamentos femininos (o PAIGC, na Guiné, e a Frelimo, em Moçambique, são os movimentos com maior presença de guerrilheiras), participaram noutros campos tão importantes como o combate armado.

"Elas têm um aspeto fundamental: asseguram a manutenção das redes sociais, da reprodução do tecido social. Em condições de extraordinária violência, elas continuam a ter o mesmo papel, dão sentido às coisas, mesmo onde elas não fazem sentido", vincou a coordenadora do projeto, que entrevistou mais de 50 pessoas da Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, para além de consultar arquivos, entre os quais os dos movimentos de libertação e da PIDE.

O projeto aborda "uma frente amplíssima de participação das mulheres, que não pode ser reduzida à luta guerrilheira, que é a liturgia dominante".

Se muitas participaram ativamente na luta, seja armada ou de consciencialização das populações, fizeram-no também com uma perspetiva de participação na transformação social do país, que nunca acabou por acontecer, nota.

"Quando entrámos na guerra, tínhamos dois inimigos: os homens e o colonialismo", refere a investigadora, recordando a frase de uma guerrilheira.

No caso de Moçambique, Maria Paula Meneses sublinha que, aquando do início dos destacamentos femininos, por o papel da luta armada estar reservado aos homens, estas integraram os campos de treino com nomes masculinos.

No entanto, apesar da participação tanto na frente de luta como na rede de apoio, o papel das mulheres foi invisibilizado pelos próprios movimentos.

"Quando a guerra acabou, eles foram ser ministros e nós voltámos a ser mulheres", refere a investigadora, citando uma das entrevistadas, para ilustrar o sentimento de desilusão com a emancipação que não encontraram com a independência.

"Nós temos dois registos na luta nacionalista: as mulheres que se querem libertar a elas e os homens que querem libertar o país, um país onde a libertação da mulher não acontece. Não acontece nem com as militares e as civis na frente de guerra, nem quando eles voltam a casa e não aceitam que elas tenham tanto peso de decisão quanto eles", frisa Maria Paula Meneses.

Para lá das frentes de guerra, as mulheres tiveram um papel fundamental noutras áreas, seja no desenvolvimento do pensamento nacionalista em Angola ou a estarem presentes nas igrejas, como acontece em Moçambique, a reivindicar um outro evangelho, "o evangelho da libertação", para além de participarem na angariação de fundos para os movimentos, na passagem de informação ou no apoio aos órfãos e viúvas.

Durante a guerra, as mulheres que não partiam para a frente de luta tinham que sustentar a família e "aguentar as perseguições e pressões da PIDE", à espera que os homens regressassem da guerra, ao mesmo tempo que tinham que recomeçar do zero várias vezes, face aos bombardeamentos que destruíam casas e machambas (fazendas).

"As mulheres são a estrutura de uma guerra que é narrada no masculino. Invisibilizou-se completamente as mulheres, quer em Portugal, quer lá", salienta Maria Paula Meneses.

Contudo, a coordenadora do projeto constata que as próprias mulheres desdramatizam o que faziam durante a luta pela libertação.

Durante as entrevistas, contaram à investigadora como fugiam dos obuses (tipo de artilharia), mesmo grávidas, como "se não fosse grande coisa", ou de como usavam colmeias de abelhas e feijão-macaco para afetar as tropas portuguesas.

Ao longo de todo o projeto, Maria Paula Meneses encontrou, acima de tudo, uma "capacidade de acomodação brutal" por parte das mulheres, apesar de terem de fugir de bombardeamentos e de terem de optar entre a frente de guerra ou os aldeamentos controlados pelas forças coloniais portuguesas, onde eram vítimas de "violações repetidas".

"E, mesmo nessas situações, não falam da violação como violência. Era quase como a ordem natural das coisas. É brutal ver alguém a dizer isto, a naturalizar a violação. Para elas, violência era quando homens eram violados por homens", salienta, referindo que, em duas entrevistas, lhe foram relatadas essas situações.

Para a investigadora, o projeto, que agora termina, torna-se ainda mais urgente visto que a maioria já está com idade avançada.

"Ou fazemos isto agora ou elas ficam invisíveis para sempre. E quando se agarra em qualquer coisa, há sempre mulheres metidas, mas normalmente não lhes prestamos atenção", disse.

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