Seguindo o espírito do fundador, S. Francisco de Assis, estes franciscanos cuidam, desde há década e meia, do Jardim Bíblico, que integra o que se pode apelidar de “tripé de evangelização” que instalaram em Fátima e que dá corpo ao Centro Bíblico dos Capuchinhos.

Tudo começou quando, há quase duas décadas, o então bispo de Coimbra, João Alves, enviou a Fátima um grupo de padres para verem quais as condições que a casa dos capuchinhos tinha para receber um retiro de verão.

“Eles vieram e viram que tínhamos boas instalações na casa, mas faltava um espaço verde que defendesse do sol dessa altura. Depois, o ministro geral (da Ordem) de Roma, em visita, viu que a casa estava um pouco exposta ao público e adiantou-nos dinheiro para adquirirmos o terreno onde se criasse um bosque, que é tradicional nos nossos conventos mais clássicos, onde tivéssemos um lugar de refúgio, de mais contemplação da natureza, de encontro pessoal com Deus”, recordou Frei Morgado à agência Lusa.

Estes incentivos juntaram-se ao reconhecimento de que, existindo já o Centro Bíblico, com a Difusora Bíblica – que se dedica à tradução e edição da Bíblia em múltiplos formatos e à publicação da Revista Bíblica – faria sentido um espaço que, além de relaxante e indicado para a reflexão interior, pudesse ser didático ao recorrer à natureza para ir ao encontro do texto bíblico.

E assim, com o apoio de um arquiteto paisagista cedido pelo Santuário de Fátima – Velho da Palma – e com as ideias de Frei Lopes Morgado, foi nascendo o Jardim Bíblico.

“Este era um espaço para mostrarmos às pessoas, até dentro da linguagem franciscana, as criaturas como revelação de Deus, como as letras que Deus foi deixando, as pegadas que Deus deixou na natureza”, explicou Frei Morgado, enquanto passeava de Bíblia na mão entre as árvores plantadas no complexo dos Capuchinhos.

Ciprestes, choupos, olaias, cedros, videiras, alfarrobeiras, pinheiros e, claro, oliveiras, além da mostardeira, são algumas das espécies presentes no espaço, cada uma com uma frase bíblica a pedir reflexão.

“Há pessoas que vêm aqui, com a Bíblia na mão” e são vistas “a passear, a sentar-se nos vários bancos e cantos de pedra” do espaço – onde pedras têm gravados os nomes das 12 tribos de Israel e dos 12 apóstolos -, disse o padre franciscano, acrescentando: “o conselho que damos é lerem o que na Bíblia se diz acerca de cada árvore, fazerem ligações à vida”.

“Por exemplo, estamos aqui neste espaço, o cenáculo [pequeno anfiteatro circular, com capacidade para cerca de 100 pessoas sentadas, em pleno jardim], que é o lugar da instituição da eucaristia, logo está ligado ao pão e ao vinho. Infelizmente, as videiras que aqui plantámos secaram, mas [neste local] pegávamos no capítulo 15 de S. João e líamos o texto ‘Eu sou a videira e o meu Pai é o agricultor’”, partindo depois para a reflexão sobre aquele trecho bíblico.

“É nesta meditação que as pessoas se envolvem aqui dentro”, sublinhou.

Com as preocupações com a “Casa Comum”, manifestadas pelo papa Francisco na encíclica “Laudato Si”, maior sentido ficou a fazer o Jardim Bíblico.

“Essa dimensão [de preocupação ambiental] tem sido bastante valorizada e procurada”, assegurou, frisando que, ali, “a palavra de Deus é para ser lida, mas meditada devagar e pouco de cada vez”.

“Ao olharmos para uma árvore, estamos a olhar para um livro, podemos dizer. A nossa vida decorre ao ritmo a que decorre a vida da natureza e, olhar para a Criação, para a Natureza, é a melhor maneira de nos olharmos a nós próprios”, disse Frei Morgado, para depois explicar que o Jardim, onde se “olha” para a Criação, é a primeira peça do tripé, que continua a construir-se na Difusora Bíblica, com a “Palavra Revelada”, através das múltiplas publicações e termina na coleção de presépios Evangelho da Vida, que remete para a “Encarnação”.

Esta coleção visitável de presépios de todo o mundo, inaugurada no dia 04 de janeiro, conta já com perto de 1.500 exemplares, que mostram como o nascimento de Cristo é visto por múltiplas sociedades e patenteiam a inculturação desse acontecimento.

Esta forma de evangelizar faz parte dos planos dos Franciscanos Capuchinhos de “encontrarem novos caminhos” para a sua missão. Entre estes, estão as comunidades itinerantes que, constituídas por três membros da Ordem, passam uma ou duas semanas em paróquias sem padre, “cuidando da paróquia, desenvolvendo a catequese visitando os doentes”.

“Estamos a tentar outras experiências”, reconheceu Frei Morgado, olhando de novo para o Jardim Bíblico, que em janeiro não mostra a exuberância que costuma ostentar na primavera.

O valor da ecologia “encontra aqui muito eco neste espaço e é uma linha franciscana. Hoje, a beleza está na ordem do dia para descobrir Deus”, disse, adiantando que o espaço é procurado já por muitos grupos organizados, que ali fazem dias de oração e meditação, ou vigílias sob o mote da Criação.

Por: João Luís Gomes da agência Lusa

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