Confessando-se “muito triste” com a morte de José Mário Branco, o também compositor JP Simões citou uma frase que considera aplicar-se a José Mário Branco: “A pessoa às vezes apercebe-se do tamanho do outro, quando vê o tamanho do buraco que a morte dele deixa”.

Para JP Simões esta é uma perda importante para todos e para a música portuguesa, mesmo para os músicos contemporâneos que receberam influência do seu trabalho, como é o seu caso, que em 2006 fez uma versão do tema “Inquietação”.

“Aquela música sempre me remexeu um bocado as entranhas. Nesse aspeto o José Mário Branco tinha essa característica um bocadinho inigualável de trabalhar com matérias obscuras, de ir aos recônditos mais sombrios da alma para ir buscar matéria para trabalho, e isso nota-se na sua obra”.

Outro aspeto que JP Simões destacou em José Mário Branco, foi “uma voz muito particular que ilustrou um tempo que, se não fosse ele, ninguém ilustraria em música, palavras e atitudes”.

“Desde os anos 80, tinha sempre a sensação de que a voz dele, a música, transportava uma espécie de paraíso perdido e foi toda aquela fase pós-25 de Abril, que foi muito complicada no nosso país, onde houve um embate muito forte entre um idealismo de esquerda que estava a tentar fazer uma revolução que entretanto falhou, mas que continua a ser muito louvável, e creio que o José Mário Branco foi a única pessoa que cantou muito seriamente uma espécie de queda de expectativa de que as coisas mudassem mesmo”.

Independentemente disso, considera que foi sempre uma pessoa que esteve do lado de quem precisava, de quem não tinha voz, “característica importantíssima” aliada a uma qualidade musical que sempre o inspirou.

“O certo é que ele se manteve sempre como uma presença radical relativamente aos assuntos humanos e creio que a voz dele ultrapassa essas circunstâncias ou contextos políticos, sempre foi uma voz que falou do Homem numa dimensão muito maior do que o tempo em que ele viveu, falou do Homem como espécie de instrumento de busca pela dignidade e pela justiça”.

Enquanto produtor e compositor, JP Simões destaca que José Mário Branco “foi uma pessoa que extremamente aberta e de certo modo revolucionária, que foi buscar elementos que não existiam na musica portuguesa na altura, foi buscar elementos da canção francesa, foi buscar elementos africanos, foi buscar elementos a sua imaginação, formas de produzir, mudou totalmente a música. As premissas que subjazem à sua obra são as de descoberta, invenção e reinvenção”.

Numa só palavra, JP Simões descreve o autor dos álbuns “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, “Ser Solidário” e “FMI”, como “sério”: “sério” no sentido de conseguir distinguir o que é ou não importante, o que é do riso e o que necessita de serenidade, observação e racionalidade.

Nascido no Porto, em maio de 1942, José Mário Branco morreu aos 77 anos.

É considerado um dos mais importantes autores e renovadores da música portuguesa, a partir do final dos anos de 1960 e em particular dos anos que rodearam a Revolução de Abril de 1974, cujo trabalho se estende também ao cinema, ao teatro e à ação cultural.

Foi fundador do Grupo de Ação Cultural (GAC), fez parte da companhia de teatro A Comuna, fundou o Teatro do Mundo, a União Portuguesa de Artistas e Variedades e colaborou na produção musical para outros artistas, nomeadamente Camané, Amélia Muge, Samuel e Nathalie.

Em 2018, José Mário Branco cumpriu meio século de carreira, tendo editado um duplo álbum com inéditos e raridades, gravados entre 1967 e 1999. A edição sucede à reedição, no ano anterior, de sete álbuns de originais e um ao vivo, de um período que vai de 1971 e 2004.

No ano passado, aquando da homenagem que lhe foi prestada no âmbito da Feira do Livro do Porto, José Mário Branco afirmou: “O que a gente faz é uma gota no oceano do grande caminho da Humanidade".

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