Limpar Santana é um projeto de crowdfunding que visa angariar fundos para criar um sistema de saneamento básico sustentável que garantirá a limpeza das linhas de água do Quilombo de Santana, no Brasil. Nuno Flores, explica-nos o projeto, a par e passo, mas avisa desde logo que não é só de esgotos que falamos, mas antes da história de um povo que luta pelo direito à terra, e cujas lutas são indissociáveis da História do Brasil — uma história de escravatura, opressão, luta, resistência e afirmação.

E neste caminho “o saneamento é a prioridade”, diz Nuno. “Muitas fossas estavam partidas e contaminavam as linhas de água [de Santana]. O que eles [quilombolas] reclamam é o direito à terra, o direito de produzir em condições que permitam que os seus produtos sejam inseridos numa rede comercial, e vão precisar depois de uma cozinha comunitária em que a água que utilizam não esteja poluída e de um centro cultural que permitirá potenciar a cultura Afro Brasileira”, conta.

Nuno foca-se no aspeto mais prático, o de criar condições para que esta comunidade seja capaz de garantir o seu sustento e de criar oportunidades — o que terá um impacto direto na sua qualidade de vida e será reflexo de reconhecimento e afirmação da cultura quilombola. Para isso precisam de 7.500 euros. A campanha de crowdfunding está a correr na plataforma PPL, e já foi angariado mais de 60% do valor. Qualquer pessoa pode ajudar até 16 de abril, às 18h00. No entanto, se forem atingidos 70% até esse dia, é já certo que a campanha se prolongará até 30 de abril. Está ainda marcado um evento de apoio — realizado pelo grupo "Samba que te Canto" e com convidados do "Projecto Viva o Samba" — que se realizará no próximo dia 19 de abril, pelas 19h00, no Teatro A Barraca.

E o que pretendem fazer com este dinheiro? Nuno detalha: “tudo começou com um problema de má qualidade de água detetada numa casa, a do senhor João. E construímos a fossa dele, uma bacia de evapotranspiradora”, em que o processo de tratamento dos resíduos faz-se com recurso a terra, cascalho, brita, areia, oxigénio e folhas de bananeira. Além deste sistema, a dupla quer ainda aplicar o dinheiro em sistemas de caixas de água biodigestoras, que transformam os resíduos em água utilizável para a agricultura. Se no primeiro caso estamos a falar de cerca de 375 euros por fossa, no segundo o custo sobe para 500 euros, “porque as bacias são mais caras”, diz Nuno. Cada fossa poderá servir 5 a 6 pessoas. Foram identificados 15 locais onde é mais urgente agir para limpar Santana, e o grosso do trabalho é realizado pelos moradores e pela dupla, já que, contas feitas, o valor angariado esgota-se em material.

Nuno, bracarense, foi estudar para o Rio de Janeiro em 2002, tendo integrado um projeto de levantamento nas favelas brasileiras. Mais tarde, já em Cabo Verde a dar aulas, viu no seu trajeto e experiência a oportunidade de desenvolver um projecto académico com os alunos do M_EIA - Instituto Universitário de Arte, Tecnologia e Cultura que visa reflectir sobre as periferias urbanas da cidade do Mindelo, onde começavam a crescer aglomerados informais. Por ali ficou durante quatro anos e hoje, em Lisboa, já está pronto para regressar ao Brasil e arregaçar as mangas neste novo projeto.

créditos: MadreMedia

O arquiteto reconhece que não tem sido fácil sensibilizar os portugueses para a missão “Limpar Santana", e acredita que isso prende-se com facto de a cultura (e luta) quilombola ser para os compatriotas uma realidade distante.

Quilombo significa povoação ou fortaleza, e foram comunidades criadas por escravos que fugiam dos seus senhores. Aqui, as tradições africanas foram alimentadas e transmitidas de geração em geração. O quilombo mais conhecido na História do Brasil é o de Palmares, cujo herói, Zumbi, é um símbolo de resistência. Durante 42 dias, Zumbi combateu as autoridades coloniais em 1694. Foi derrotado e morreu, mas tornou-se uma lenda. Uma vez abolida a escravatura, a luta era outra, a de garantir o direito à terra ocupada pela comunidade.

“As comunidades quilombolas são grupos étnicos – predominantemente constituídos pela população negra rural ou urbana –, que se autodefinem a partir das relações com a terra, o parentesco, o território, a ancestralidade, as tradições e práticas culturais próprias”, resume o site da Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), organismo responsável pela regularização dos quilombos.

Hoje, os quilombos mantém muitas das suas tradições, da comida, à religião, passando pelas manifestações culturais; e a luta do seu povo é pelo reconhecimento do seu modo de vida em pleno Séc. XXI.  São, regra geral, símbolos nas lutas por inclusão social dos negros no Brasil.

“Eles [quilombos] são um reduto cultural que preserva uma parte importante da cultura brasileira, e acho que o que desejam acima de tudo é o seu reconhecimento e o direito à terra e ao seu modo de vida”, reitera Nuno.

Estima-se que existam mais de 3000 mil quilombos no Brasil. Até janeiro de 2016, estavam em curso 1.532 processos de regularização e já tinham sido emitidos 210 títulos coletivos de propriedade, em benefício de 151 territórios, 241 comunidades e 16.009 famílias quilombolas.

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