Na corporação de Castanheira de Pera, à qual pertencia, Marcelo Rebelo de Sousa evocou o bombeiro que hoje morreu, não resistindo aos ferimentos resultantes do incêndio. O presidente disse querer recordar "quem faz parte da vossa memória e da vossa vida e que é evocado como um de entre vós, um camarada de entre vós", mas também alargar essa homenagem "a todos os que aqui estão e os que não estão e continuam a combater fogos, e a todo o povo que resistiu, que soube resistir, que está a saber resistir".

Foram estas as primeiras palavras do presidente da República perante um conjunto de pessoas comovidas e tendo ao seu lado a ministra da Administração Interna, também ela visivelmente emocionada."Castanheira de Pera tem de renascer das cinzas, a palavra não é minha , foi do vosso presidente, vai renascer das cinzas. E vai renascer naquilo que é necessário para criar riqueza, vai renascer naquilo que é necessário para as famílias ultrapassarem o choque da perda de entes queridos, vai renascer olhando para o futuro, olhando para os mais jovens que aqui estão também a ajudar que são o futuro desta terra", disse Marcelo Rebelo de Sousa.

"Posso garantir-vos que aquilo que depender do Presidente da República e a senhora ministra também garante que aquilo que depender do governo será feito porque é merecido, porque é justo. Vai acontecer. Contem connosco assim como nós contamos convosco nestes dias pavorosos que não sairão da nossa memória".

Pela estrada fora no rasto dos incêndios

O cheiro a fumo dos incêndios de Pedrógão Grande nunca abandonou a caravana presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa pelas estradas pintadas de negro, de Ansião a Góis, para ver o efeito devastador dos incêndios.

Marcelo nunca se aproximou muito das frentes ativas, mas viu, de longe, o trabalho de quatros aviões e dois helicópteros atacar as chamas em Cernache do Bonjardim, quando subiu à Serra de São Macário, ela própria queimada quase de alto a baixo.

A nuvem de fumo era de cor creme e os aviões faziam passagens de um lado para o outro e é, por essa altura, cerca das 17:30, que Marcelo e a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, souberam da morte de um bombeiro, a 64.ª vítima mortal dos incêndios que começaram em Pedrógão Grande, Leiria, no sábado à tarde.

O semblante de ambos era carregado, prestaram homenagem ao bombeiro de 30 anos que morreu nos hospitais de Coimbra e Marcelo terminou a tarde a visitar, pessoalmente, a corporação de Castanheira de Pera, a que pertencia.

Marcelo e Constança estavam ainda a meio da visita - mais de cinco horas de correria pelas estradas de Ansião a Figueiró dos Vinhos (uma paragem não prevista no "programa"), Cernache e Góis.

No quartel dos bombeiros de Penela, um concelho também afetado pelos fogos, Rebelo de Sousa testemunhou a solidariedade dos portugueses aos bombeiros - eram centenas as caixas de fruta, bolachas, leite que os bombeiros arrumaram numa das salas.

O calor era muito, cerca de 38º Celsius, e depois de mais uma viagem, a caravana do presidente chegou a Figueiró dos Vinhos, uma paragem não prevista.

Aí, longe dos olhares do presidente, uma mulher, comerciante, protestava, dizendo que os visitantes deveriam ter vindo na véspera para ver "o que era aflição".

Em Figueiró, Rebelo de Sousa visitou os bombeiros um centro de acolhimento de vítimas, da Cruz Vermelha, com poucos utilizadores na altura, mas onde falou com dois jovens brasileiros que foram salvos pelas chamas quando andavam por um trilho, junto ao Zêzere.

"Foram bem tratados?", perguntou Marcelo. Que sim, responderam Yuri Sant'Anna, de 25 anos, do Estado do Espírito Santo, e Suellen Costa, 26 anos, de Maceió, com um sorriso. São estudantes em Coimbra, perderam o que tinham nas suas mochilas, e é para Coimbra que vão regressar com a ajuda dos "amigos" de Figueiró.

Mais uma vintena de quilómetros e Marcelo, com a ministra, já estão em Cernache, depois de atravessar estradas de serra, queimadas, em tom negro e em alguns casos, com árvores ainda a fumegar. Do alto da serra de São Macário, puderam ver as áreas ardidas e onde toda a comitiva suportou uma temperatura de 38º Célsius.

O procedimento era sempre o mesmo: o Presidente chegava ao posto de comando, reunia com a ministra, bombeiros e autarcas locais e depois falava aos jornalistas.

Mais uma estrada, mais uma vintena de quilómetros e eis Rebelo de Sousa em Góis. Era suposto acabar ali o périplo do Presidente para ver, com os seus olhos, os efeitos das chamas que, desde sábado, já atingiram pelo menos quatro concelhos (Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, Cernache do Bonjardim e Pampilhosa da Serra), mas Marcelo ainda foi a Castanheira de Pera.

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