Em frente à Casa das Irmãs Dominicanas, na rua Francisco Marto, em Fátima, um pequeno grupo de peregrinos olhava para todos os lados, em busca de algo que aparentemente não encontravam, no final da manhã de 12 de maio. Nas mãos de um deles, uma pequena ave.

Ao SAPO24 explicaram que a avistaram da varanda do hotel em frente e, tendo-se apercebido de que era uma ave e não voava, desceram para a tentar apanhar.

Mário de Sousa segurava o animal juvenil e é a filha quem explica o que aconteceu: "Tenho aversão a aves e chamei o meu pai", afirma, com trejeitos sob a máscara que os olhos confirmam.

Mas é o salvador da ave que conta a história que os levou a estar naquele local numa data que se apresentou duplamente marcante.

"Chegámos ontem [dia 11] do Porto. O que nos faz vir é a fé, mas eu nunca cá passei um 12 e 13 de maio e para mim tem um significado especial", começa por dizer.

"Faz hoje [12 de maio] 50 anos que eu estava no norte de Moçambique, onde há agora conflitos naquela zona de Palma, Cabo Delgado. Apanhei o maior susto da minha vida com uma emboscada no dia 12 de maio de 1971. Quando senti balas a passarem-me pela cabeça, a assobiar, atirei-me para debaixo da viatura e só disse ‘ai, minha Nossa Senhora’. Felizmente não me aconteceu nada", recorda.

"Depois, no dia seguinte, o nosso pequeno-almoço foram umas morteiradas, tivemos seis ou sete feridos e um companheiro meu morreu. Isso marcou-me e cinquenta anos depois estou aqui para agradecer a intercessão de Nossa Senhora, a quem eu recorri naquele momento de aflição", confidencia.

Aos dias de hoje, como é que quem lá esteve olha para Moçambique, onde grupos armados aterrorizam Cabo Delgado desde 2017, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo 'jihadista' Estado Islâmico, numa onda de violência que já provocou mais de 2.500 mortes? Com dor, responde Mário.

"Dói-me imenso, porque eu conheci aquela zona. E até havia, apesar de tudo, um bom relacionamento. Era uma zona calmíssima e estávamos lá num ato de soberania que diziam necessário. Não estávamos lá a fazer a guerra, era assim. Não sei se era correto ou se não era, mas era assim", frisa.

"A verdade é que estávamos lá e tínhamos um bom relacionamento com a população e o cuidado de a proteger. O que vejo agora classifico de banditismo. É assassinar gratuitamente crianças, idosos. Aquilo é matar a eito sem fundamento".

Mas regressemos a Fátima, onde pelo meio da conversa sobre guerras chega um carro da GNR, chamado ao local para recolher a ave que continuou aninhada nas mãos do seu salvador, de unhas cravadas sem magoar, pedido proteção.

Apesar de viver no norte do país, a família de Mário desloca-se várias vezes à Cova da Iria. "Somos devotos de Nossa Senhora é isso que nos traz aqui. Antes da pandemia vínhamos cá todos os meses reunir, porque faço parte do Secretariado Nacional do movimento dos Cursos de Cristandade. Com a pandemia não temos vindo tanto, mas Fátima é de facto marcante para mim", refere Mário.

Neste 12 de maio, Mário diz que tudo "estava destinado". E, no fim, tudo se resume numa frase: "Venho agradecer e ainda salvo uma vida". E o pequeno animal seguiu resguardado numa caixa de cartão no carro da GNR.

[Artigo atualizado às 11:45]

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