Em frente ao Hospital Santos Silva, no Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia (distrito do Porto), a jornada não tem início nem fim, já que o túnel mineiro vai sendo escavado 24 horas por dia, sete dias por semana.

“Há várias metodologias de fazer um túnel. Esta é uma tipologia que é a metodologia austríaca, a NATM [‘New Austrian tunnelling method’]. É um método de escavação sucessiva em que, como vemos lá ao fundo, escavamos um bocadinho, temos que fazer logo suporte de betão projetado, fazer logo uma estrutura de rigidez, e assim vamos”, explicou à Lusa Pedro Quintas, diretor do projeto da Metro do Porto.

Segundo o responsável, “é todo um ciclo que deve ser feito em contínuo até por questões de segurança” e “não permite estar muito tempo parado”, sendo “recomendável fazer as tais 24 horas” de trabalho contínuo, algo executado em turnos de oito horas.

Num pequeno santuário cravado nas gigantes paredes à entrada do túnel está Santa Bárbara, padroeira dos mineiros, que, parada e alheia à noção de tempo, observa e abençoa o movimento constante de trabalhadores e maquinaria.

Em terreno lamacento, camiões betoneira, basculantes articulados e escavadoras negoceiam com diferentes graus de dificuldade a saída e entrada deste quente tubo gigante que vai abrigando os trabalhos da chuva que cai no exterior.

Este é um metro que avança para Vila d’Este a “dois metros por dia em cada uma das frentes” do túnel, segundo Pedro Quintas.

“Nós temos duas frentes ativas, portanto estamos a atacar o túnel do lado sul para norte, que é onde nós estamos, e também do lado norte para sul, indo ao encontro da estação Manuel Leão”, que será subterrânea e terá um anfiteatro à superfície, referiu.

No túnel, cuja extensão de cerca de um quilómetro servirá para unir o futuro viaduto de Santo Ovídio (com 500 metros) à estação do Hospital Santos Silva, próximo ao Monte da Virgem, trabalham entre 130 e 150 pessoas, incluindo sempre um número mínimo permanente de entre 15 e 20 trabalhadores.

Rumo aos confins, e já com Santa Bárbara à porta, as evocações aos céus ficam lá fora, bem mais à superfície, no alto com um santuário, um observatório astronómico e a maior torre de telecomunicações do país.

As ligações invisíveis ao éter de pouco valem se, afinal, a descida até às profundezas gaienses exigiu um trabalho de base bem solidificado.

“Antes da execução da construção foi feita toda uma campanha de sondagens geotécnicas para perceber que tipo de terrenos é que tínhamos aqui, ao longo do percurso do túnel. Com base nisso, ajustou-se o projeto para fazer face aos vários tipos de terreno que iríamos encontrar”, explicou Pedro Quintas.

Segundo o especialista, à medida que a escavação avança, vão-se adotando soluções diferentes, “reforçando mais quando é necessário e aliviando mais quando não é tão necessário, ou seja, se o terreno for mais competente”.

“Se o terreno for mais duro, então aí teremos que, no limite, usar explosivos, onde fazemos uma furação no maciço rochoso, introduzimos uns cartuchos de explosivos e fazemos um rebentamento controlado com detonadores sequenciais, de modo a reduzir as vibrações, e com isso permitir criar uma fissuração no maciço rochoso”, gerando pequenos blocos que depois são retirados por uma escavadora.

Naquele fundo, ao pé da RTP, ninguém sabe e quase ninguém vê o que há na pedra por desbastar, mas a realidade indica que há quem possa sentir ou ouvir o avanço dos trabalhos, como é o caso de algumas famílias (atualmente três) realojadas devido à evolução da empreitada.

“Algumas situações que foram reportadas foram identificadas, e, atendendo às características dos residentes, foram realojadas algumas famílias, mas pontualmente e ao critério”, disse à Lusa a vogal da Metro do Porto Lúcia Leão Lourenço.

A administradora revelou que “foi avaliada a incomodidade, a localização das residências, a sua proximidade sobre o túnel”, algo que “tem sido avaliado caso a caso, em comunicação com os residentes”.

A luz ao fundo deste túnel ver-se-á ainda antes da conclusão total das obras (final de 2023), já que a estrutura subterrânea deverá estar concluída este ano, após se ter iniciado em outubro de 2021.

Por agora, o túnel mineiro continua a perfurar e esperará encontrar-se do outro lado com o viaduto de Santo Ovídio, completando a conexão do novo troço da linha Amarela ao já existente (Hospital São João – Santo Ovídio).

Santa Bárbara deixará Vila Nova de Gaia e será a guardiã do subsolo na margem norte do rio Douro, no Porto, onde também já ganha forma a linha Rosa, entre São Bento e a Casa da Música.

Talvez regresse a sul para a construção da linha Rubi, entre Santo Ovídio e a Casa da Música, que unirá as duas margens com uma nova ponte e esculpirá novos caminhos subterrâneos em terras de Soares dos Reis.

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