Num país marcado por elevadas taxas de desemprego e pela pobreza extrema, onde as deslocações representam sacrifícios para muitos, centenas de milhares de pessoas viajaram das cidades onde moram para votar nas regiões de origem ou onde se encontram inscritas nos recenseamentos eleitorais.

A maior parte das empresas nigerianas, incluindo o porto de Lagos, importante porta de entrada de bens de primeira necessidade num país de 190 milhões de habitantes, primeira economia do continente africano, encerraram na sexta-feira para permitir aos seus funcionários a deslocação para votar. Os aeroportos e as fronteiras terrestres foram também encerrados.

“Os custos deste adiamento são inimagináveis. A economia parou parcialmente na sexta-feira e completamente no sábado”, afirmou à publicação nigeriana “Sunday Vanguard” o diretor da Câmara de Comércio e Indústria de Lagos, Muda Yusuf, que estima perdas financeiras na ordem dos 1,5 mil milhões de dólares (1,32 mil milhões de euros).

Mas “o que custará ainda mais caro será o que isto pesará na reputação” do país, estima o economista Bismark Rewane a uma outra publicação nigeriana, o “ThisDay”, elevando o custo do adiamento das eleições para entre 9 e 10 mil milhões de dólares (7,9 a 8,8 mil milhões de euros), na ordem dos 2 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) nigeriano, a longo prazo.

A Comissão Eleitoral (INEC) anunciou o adiamento do escrutínio para o próximo dia 23 de fevereiro, poucas horas antes do início previsto para a abertura das urnas no passado sábado, que iriam receber os votos para a eleição do Presidente e vice-presidente do país, assim como para a escolha dos deputados e senadores que ocuparão os assentos nas duas câmaras do Parlamento nigeriano durante os próximos quatro anos.

As eleições para os governadores decorrerão no próximo dia 09 de março, em vez de dia 02, como previsto antes.

Mahmood Yakubu, presidente da INEC, assumiu a “total responsabilidade” pelo atraso logístico na preparação das eleições, justificado pelo “enorme” desafio que representa a organização de eleições num país com infraestruturas muito deficientes.

Yakubu lamentou ainda os atos de “sabotagem” que perturbaram a preparação do escrutínio. Três dependências da INEC foram incendiadas nas últimas semanas, nos estados nigerianos de Plateau, Anambra e Abia, e milhares de boletins de voto e de leitores eletrónicos de cartões eleitorais foram destruídos.

A INEC deslocou um milhão de agentes em todo o país e imprimiu 421 milhões de boletins de voto.

Esta não foi a primeira vez que uma eleição foi adiada na Nigéria, desde o fim das ditaduras militares em 1999. Em 2011, as eleições gerais foram adiadas por duas vezes, uma delas quando as votações tinham já começado, com o presidente da comissão eleitoral a evocar então uma situação de “urgência” relacionada com o facto de muitas estações de voto se encontrarem sem material eleitoral.

O país foi na altura palco de violências pós-eleitorais entre cristãos e muçulmanos que provocaram mais de mil mortos.

Em 2015, o governo do então Presidente Goodluck Jonathan adiou também o escrutínio por seis semanas, justificando a decisão com problemas de segurança no nordeste do país, relacionados com perturbações provocadas pelo grupo rebelde jihadista do Boko Haram.

“Em face da tendência reiterada de adiamento das eleições, consequência de décadas de corrupção e de incompetência, o SERAP [Socio-Economic Rights and Accountability Project, uma respeitada organização não-governamental nigeriana] decidiu processar o governo e a Assembleia Nacional após a realização das eleições”, afirmou a ONG através de um comunicado divulgado no domingo.

“Exigir a demissão do presidente da INEC, em vez de atacar as raízes do problema é uma desculpa demasiado fácil que desobriga [os verdadeiros responsáveis] de quaisquer responsabilidades”, denunciou a instituição liderada pelo advogado dos direitos humanos, Femi Falana.

Também em 2011, o advogado reagiu em comunicado ao anúncio do adiamento do escrutínio, considerando-o “frustrante e dececionante”. “É a prova do declínio das nossas instituições”, escreveu na altura.

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