Separada da vila portuguesa de Alcoutim pelo rio Guadiana, Sanlucar de Guadiana está localizada no interior da província andaluz de Huelva, a cerca de 50 quilómetros da foz do Guadiana, e os habitantes ouvidos pela agência Lusa sobre as eleições do próximo domingo coincidiram ao dizer que não acreditam no fim do bloqueio político em Espanha.

Nas eleições de abril passado, o presidente do Governo em funções, Pedro Sánchez, conseguiu liderar o Partido Socialista Obreiro Espanhol (PSOE) a uma vitória sem maioria absoluta, mas as negociações para compor um Governo com a coligação de esquerda Unidas Podemos falharam e, sem apoio parlamentar, o atual chefe de Governo foi levado a pedir ao Rei Felipe VI a convocação de novo escrutínio.

Previamente, os espanhóis já tinha dado uma maioria relativa a Mariano Rajoy, do Partido Popular, em 2015, mas uma investidura falhada também tinha levado a novas eleições um ano depois, que permitiram a constituição do Governo popular que acabou derrubado na moção de censura apresentada pelo PSOE.

Perante este cenário, os habitantes de Sanlucar ouvidos pela Lusa mostram um descrédito na função dos políticos e consideram que a maioria dos partidos não está a pensar no país e preocupa-se mais com os interesses próprios do que os problemas reais da população.

Margarita Martin Lorenzo é varredora na localidade espanhola e interrompeu a recolha das folhas caídas de outono, sob um sol ainda quente de novembro, para dizer que considera esta repetição eleitoral “muito má” e fruto de uma “falta de preocupação pelo país” da parte dos políticos.

“Estamos já fartos de eleições, gostava que os partidos se entendessem de uma vez por todas e o país tivesse por fim um Governo, mas não sei se isso vai acontecer depois destas novas eleições”, afirmou, mostrando não acreditar numa saída do impasse político.

A probabilidade de nem a esquerda – com PSOE, Unidas Podemos e, em última instância, partidos regionalistas – nem a direita - com PP, Ciudadanos e Vox – terem uma maioria clara para formar Governo e poder haver um quinto ato eleitoral já começa mesmo a pairar junto de alguns eleitores, como a jornalista reformada Diana Pérez de Guzmán.

“Esta situação é intolerável. Temos muitos corruptos blindados com a figura de ‘aforado’ [uma forma de imunidade parlamentar] nas instituições e muito arquiteto a trabalhar humildemente na rua. E já se fala numa nova crise económica”, afirmou, considerando que, em Portugal, a situação política foi resolvida porque há uma “esquerda coerente” e, em Espanha, questões como o desafio independentista na Catalunha ou a exumação dos restos mortais do ditador Francisco Franco só trazem mais divisão.

Os políticos espanhóis “já não se preocupam nem com os seus partidos, só pensam neles próprios e no seu ego”, considerou Diana Pérez de Guzmán, sublinhando que a “constante falta de orçamentos” impede uma boa gestão, embora “a esperança num acordo seja a última a morrer” e “haja sempre a possibilidade de atravessar o rio a nadar para Portugal”, ironizou.

A descrença numa solução também foi o sentimento expresso por Margarita Ferrer Diaz, trabalhadora de um restaurante local, que disse à Lusa ter conhecimento de muitas pessoas que “desistiram já de votar devido a tanta repetição eleitoral e falta de confiança nos políticos”.

“Eu ainda vou votar por votar, mas vejo a situação muito complicada e também já não acredito numa solução para formar um Governo”, disse.

*Por Miguel Hugo Cruz, enviado da agência Lusa

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