Há um desamor pela política e pelos políticos que explica que, pela primeira vez em cinquenta anos, nenhum dos grandes partidos franceses - a esquerda socialista e a direita republicana - passe à segunda volta das eleições presidenciais. Sem surpresa, diga-se, já que se algum alívio existiu na noite de ontem foi que desta vez as sondagens até bateram certo.

E foi assim que com 91% dos votos contados pelo Ministério do Interior Francês, o “emergente” Macron estava na linha da frente com 23,51% dos votos, tendo bem colado a si Marine Le Pen com 22,06%. Fillon, o candidato republicano  não ia além dos 19,73%, nesta contagem, e Mélenchon, da França Insubmissa que chegou a criar frisson nas ambições da "esquerda da esquerda", ficou pelos 19,48%. Completamente arredado da discussão por um terceiro lugar, que nada vale nas eleições presidenciais mas que pode valer alguma coisa nas legislativas de junho, ficou o socialista Benoît Hamon com 6,20%.

Estes são os números, agora vamos à história. E muitas foram ensaiadas, tantas quantas as conjeturas pré-eleitorais. Se Mélenchon tivesse tido melhor sorte, estaríamos a falar dos extremismos à esquerda e à direita, assumindo que Le Pen manteria a sua posição. O que seria quase tão forçado como comparar Mélenchon e Bernie Sanders - além do oceano que os separa, há toda uma história política com muito pouco em comum.

Mas Mélenchon rugiu mas não mordeu. O que tornou real a equação mais plausível: Emmanuel Macron, o emergente, defrontará na segunda volta Marine Le Pen, a libertadora do povo. Emmanuel toca piano e fala francês, não apenas o francês como língua, mas o francês do orgulho na França e nas suas capacidades. Que não é um orgulho patriótico nacionalista ao estilo de Le Pen, que apesar de ter libertado algumas amarras do pai, mantém uma aura feudal ou não tivesse crescido num castelo.

Aliás, essa é uma boa medida dos dois candidatos que agora disputarão entre si a presidência do país que está no coração da Europa. Separados na idade por menos de dez anos, simbolizam diferentes Franças, uma mais feudal, territorial, rural, do povo e outra mais urbana, cosmopolita, bem-pensante e dos talentos das novas gerações. O que deixámos de ter - ou temos bem menos - é a França de Mitterand e até a França de Chirac, ambas empurradas para a gaveta dos políticos do costume e que os franceses amam non plus.

A política como a conhecíamos é coisa do século passado

O que seduz os franceses - como os americanos antes deles e os ingleses antes dos americanos - é uma nova narrativa do fabuloso destino da França. E nessa nova história, que estes dois candidatos interpretam à sua maneira, não ser político profissional é uma enorme vantagem. Também por isso, sobretudo por isso?, Macron leva avanço a Le Pen a quem corre em cada veia a política desde pequenina.

Macron, o filósofo, o banqueiro, o jovem líder com menos de 40 anos, nunca foi eleito pelo povo. Ao contrário de Marine. Mas, a julgar pela meteórica ascensão e pelos resultados obtidos na primeira vez que o seu nome foi inscrito num boletim de voto é essa a beatitude dos novos tempos. E, por esta hora, um dos seus mais profundos desejos deverá ser precisamente que se mantenha imaculada - algo que o apoio declarado do presidente Hollande, de quem foi conselheiro poderá contaminar. Saber-se-á nas próximas horas.

“Vi do interior o vazio do nosso sistema político (…), avaliei o que custa recusar as regras obsoletas de um sistema de clãs que se tornou o principal obstáculo à transformação do nosso país”, disse Emmanuel Macron. É por isso que se propõe liderar uma “revolução democrática profunda” que deixe para trás as “receitas do século passado”.

Já Marine quer um partido que sendo nacionalista não é racista, que sendo contra a imigração não é xenófobo, tão pouco é de extrema-direita. Nada mais que um partido patriótico e ela nada mais que a sua líder que atua “em nome do povo”. Reconhece os erros do pai - não terá sido em vão que foi ela a expulsar Jean-Marie do partido que fundou - mas garante que os seus métodos são coisa do passado. “Há trinta anos”, disse ao ‘The Independent’ em 2010, “Jean-Marie Le Pen talvez tenha usado alguns comentários provocadores para se fazer ouvir quando as classes políticas e os media não davam espaço às nossas ideias (…) Hoje já não há necessidade desses métodos porque, em tantas áreas, os factos provaram que a Frente Nacional estava certa. Na imigração descontrolada. Na UE. Na globalização. No ultra-capitalismo.”

Um pequeno detalhe que talvez não seja irrelevante: ambos os candidatos ditos de "fora" do sistema político como ele existe, vivem de forma financeiramente desafogada, o que lhes confere legitimidade para, aos olhos do povo que não ama os políticos non plus, poderem dizer que não precisam da política para nada.

Nos escombros desta primeira volta fica, em primeiro lugar, o candidato socialista, Benoît Hamon que não foi além da fasquia dos 6%. Uma pesada derrota para o homem que queria “fazer bater o coração de França” e que não perdeu tempo em pedir aos seus eleitores que apoiem Emmanuel Macron na segunda volta. Mesmo garantindo que “a esquerda não está morta” e que "o combate continua" - palavras que não soam certamente a música nesta França que não ama os políticos de carreira e que tem vários anos de contas a ajustar com os socialistas. Bem longe está do batismo de uma nova esquerda que tantos saudaram em 2012 quando o socialista François Hollande ascendeu ao poder após três mandatos de direita. Mesmo sendo um dos deputados que contestavam a política do Governo, Benoît Hamon não se livrou do pesado fardo socialista e falhou na terceira via que há mais de uma década consagrou Tony Blair no Reino Unido.

Porque é que devemos ter medo disto?

Conhecidos os resultados da primeira volta, os institutos de sondagens apressaram-se nas projeções para a segunda volta que terá lugar a 7 de maio. E o que dizem os oráculos da estatística? Que Emmanuel Macron, o centrista e europeísta que descansa mais de metade da Europa, irá ganhar por larga vantagem a Marine Le Pen com um resultado superior a 60%, enquanto a candidata da extrema-direita se situa na casa dos 30%.

O instituto Ipsos — Sopra Steria atribui ao candidato do movimento “Em marcha!” 62% dos votos, contra 38% para a líder do partido Frente Nacional. Já o instituto Harris Interactive aponta uma diferença ainda maior: 64% dos votos para Macron e 36% para Le Pen.

O que é que pode correr mal nisto? Muita coisa. Em primeiro lugar, as próprias sondagens - que, apesar de uma noite mais afortunada para quem prevê, não são como nunca foram ciência exata. Mas politicamente há mais coisas que podem correr mal. A começar pelo alinhamento de toda a classe política francesa e europeia com Macron contra Le Pen, permitindo à líder da Frente Nacional reforçar o discurso do ’nós contra eles’ que tão bom resultado já deu noutras paragens.

Fillon já deu um passo em frente: “Não estou feliz, mas a abstenção não está nos meus genes, especialmente quando um partido extremista se aproxima do poder. O extremismo só pode trazer desgraça e divisão à França. Não há outra escolha senão a de votar contra a extrema-direita, portanto eu votarei em Emmanuel Macron”, declarou. Benoit Hamon, como se viu, também. Melenchon aguarda e, por ora, Hollande ainda só mandou os parabéns ao seu ex-conselheiro.

Hoje tudo recomeça e nas próximas duas semanas saberemos qual é o fabuloso destino da nova França que não ama os políticos de sempre.

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