O presidente Barack Obama virou uma página na história de décadas de tensão entre Washington e Havana em torno da migração, ao eliminar o dispositivo que permitia aos cubanos que chegassem ilegalmente aos Estados Unidos obter residência, conhecido como política de "Pés Secos, Pés Molhados". Mais de dois milhões de cidadãos de Cuba - que atualmente conta com 11,2 milhões de habitantes - migraram no último meio século. Quase 80% deles fizeram-no com destino aos Estados Unidos, e sobretudo à Flórida, localizada 150 km ao norte da Ilha.

Ontem uma centena de cubanos reuniram-se na cidade mexicana de Tapachula, onde expressaram sua consternação pelo fim da política de "Pés Secos, Pés Molhados", que lhes permitia conseguir residência americana mesmo que entrassem no país sem documentos."Soubemos disto pelas notícias na televisão (...) nós vínhamos bem, chegávamos onde queríamos chegar, mas agora não sei o que vai acontecer", disse à AFP visivelmente preocupado Carlos Darío Bravo, de 27 anos.

"Estamos preocupados e a tentar ver que solução pode ser dada a isto porque não é fácil", comentou Leonardo Fabio, outro cubano de 28 anos que entrou pela fronteira da Guatemala com o México, que compartilha, por sua vez, uma fronteira com os Estados Unidos de 3.200 km. O advogado dos migrantes, Luis Villagrán, advogado do Centro de Dignificação Humana de Chiapas, que defende o direito dos ilegais, espera que o governo mexicano conceda aos mil cubanos que estão em Tapachula um documento que lhes o livre trânsito pelo país para que cheguem à fronteira com os Estados Unidos.

Villagrán disse à AFP que acredita que o fim da política migratória de "Pés Secos, Pés Molhados" não entrará em vigor até que o Congresso americano torne esta decisão oficial, embora Obama tenha afirmado numa nota diplomática divulgada pela Casa Branca que a decisão tem efeito imediato. O advogado acrescentou ainda que um funcionário do Instituto Nacional de Migração (INM) do México lhe garantiu na quinta-feira que este documento migratório será concedido na próxima semana.

Uma fonte do INM disse à AFP que os cubanos terão que se cingir à lei migratória mexicana que se aplica a todos os cidadãos de qualquer país. Em janeiro e fevereiro do ano passado, o México permitiu o livre trânsito de milhares de cubanos que estiveram bloqueados durante meses na Costa Rica e no Panamá, depois de a Nicarágua ter bloqueado a sua passagem em 2015.

O governo do México transferiu da fronteira sul à norte um total de 6.300 cubanos, entre eles menores e mulheres grávidas, de acordo com um balanço divulgado pelo INM em março do ano passado.A lei "Pés Secos, Pés Molhados" estabelecia que os migrantes cubanos interceptados no mar fossem devolvidos ao seu país, mas os que chegavam à terra firme, ainda que sem nenhum tipo de visto, podiam permanecer e beneficiar de mecanismos para obter a residência permanente.Esta legislação era resultado de uma modificação de 1995 da Lei de Ajuste Cubano, adotada pelos Estados Unidos em 1966, em plena Guerra Fria.

60 anos de migrações, algumas com a ajuda de Fidel

Nos três primeiros anos depois da Revolução cubana de 1959, quase 300.000 cubanos abandonam a ilha, na maioria dos casos pessoas vinculadas à extinta ditadura de Fulgêncio Batista. Nessa época, Havana estabeleceu o seu sistema de vistos de saída indispensáveis para os candidatos que quisessem viajar, e confiscou os bens dos migrantes.

Nos anos seguintes, as nacionalizações e expropriações empurraram milhares de cubanos para o exílio.Os Estados Unidos, que desejavam acolher os candidatos à imigração, adotam em 1966 a Lei de Ajuste Cubano, que oferece facilidades de instalação aos imigrantes da ilha.  Segundo Havana, esta lei incitava à imigração selvagem e perigosa através do estreito da Flórida, assim como ao tráfico de pessoas.

A emigração política da década de 1960 é seguida por uma emigração mais económica, de cubanos que fugiam de um sistema que os confinava, em muitos casos, à sobrevivência.

Em 1980 explode uma primeira crise, quando 10.000 pessoas encontram refúgio nos jardins da Embaixada do Peru na sua travessia pelo exílio. Fidel Castro abre o porto de Mariel, 50 km a oeste de Havana, aos barcos procedentes da Flórida.Um total de 125.000 pessoas conseguem chegar, assim, aos Estados Unidos. Fidel Castro aproveita a ocasião para esvaziar prisões e hospitais psiquiátricos. Desde então, Cuba nega-se a acolher os milhares de nacionais com antecedentes criminais que os Estados Unidos querem extraditar.

Em 1994 ocorre outro êxodo, quando os "balseiros" se lançam ao mar a bordo de qualquer embarcação precária que conseguem encontrar ou fabricar. Um total de 37.000 consegue chegar aos Estados Unidos, mas as condições difíceis de viagem também deixam milhares de mortos e desaparecidos.

Em 1995 é instaurada a política de "Pés Secos, Pés Molhados", que permite que os migrantes cubanos que chegam a terra firme americana, ainda que sem nenhum tipo de visto, permaneçam e beneficiem de mecanismos agilizados para obter residência permanente; os que são interceptados no mar são devolvidos ao seu país.

Esta política foi agora suspensa.

Em 2013, uma reforma migratória cubana suaviza as condições de viagem e permite que muitos cubanos transitem legalmente por terceiros países, a partir dos quais podem chegar à fronteira americana. Ao mesmo tempo, as autoridades de Washington admitem todos os anos mais de 20.000 cubanos.Com a retoma das relações bilaterais iniciada no fim de 2014, assiste-se a um aumento das saídas, motivadas pelo temor - justificado diante da decisão de quinta-feira - de que fossem suprimidos privilégios concedidos exclusivamente aos migrantes cubanos nos Estados Unidos.

Há quem espere que Trump revogue a decisão

O governo de Raúl Castro apoiou a decisão dos Estados Unidos de suprimir os privilégios aos emigrantes clandestinos da ilha. É "um importante passo de avanço nas relações bilaterais", disse um comunicado oficial cubano divulgado pelos meios de comunicação locais, embora tenha apontado os obstáculos que sobrevivem com a Lei de Ajuste de 1966, que concede residência e facilidades trabalhistas aos cubanos que chegam legal ou ilegalmente aos Estados Unidos.

Quando a televisão cubana transmitiu o anúncio na quinta-feira, muitos cubanos acabavam o dia de trabalho e voltavam para casa, mas a notícia espalhou-se como um rastilho de pólvora. Muitas críticas e receios mas também quem apoiasse a decisão. O taxista Juan González, de 46 anos, elogiou a medida."Isto é a melhor coisa que Obama pensou, ter tirado a política de Pés Secos, Pés Molhados, finalmente (...) é feita uma trégua entre nosso país e os Estados Unidos, para ver se as coisas melhoram", explicou.

Desde que o degelo bilateral começou, em dezembro de 2014 - Cuba e Estados Unidos retomaram as relações diplomáticas em 2015 -, pequenas, mas contínuas ondas de cubanos partiram rumo aos Estados Unidos pelo mar e através de terceiros países. Segundo um relatório do Pew Hispanic Center, de julho de 2016, nos 10 primeiros meses do ano fiscal 2016, 46.635 cubanos ingressaram nos Estados Unidos, superando o total de 43.159 de todo o ano fiscal 2015. Este número supera os 36.700 que emigraram em precárias embarcações, as balsas, em 1994 na chamada "crise dos balseiros", o segundo grande êxodo cubano em direção aos Estados Unidos, após o de Mariel, em 1980, que envolveu 125.000 pessoas.

Nilka Ocampo, de 26 anos, também ficou a par da notícia. "Já sei de tudo. De certa forma é bom, porque não há mais o risco de tantos cubanos morrerem afogados, possivelmente são mais os que morrem que os que chegam", disse.Mas também "é mau (...) porque o cubano emigra à procura de um futuro melhor (...), por necessidade", disse.

Alguns cubanos mostravam-se esperançosos de que a medida anunciada na quinta-feira possa ser revogada pelo presidente eleito americano, Donald Trump, depois de assumir o poder, em 20 de janeiro."Vamos ver o que Trump faz", disse José Perdomo, um aposentado de 72 anos.

As autoridades cubanas foram cautelosas."Em relação a como isso pode ser interpretado, continuado, aceite ou assimilado pelo governo que vai assumir em breve (...) acredito que é preciso perguntar-lhes", disse numa conferência de imprensa Josefina Vidal, diretora dos Estados Unidos da embaixada cubana.

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