O cenário contemporâneo é uma réplica do que aconteceu há duas décadas. Apoiantes republicanos aos gritos, a pedir para travar a contagem dos votos. O contexto, porém, não é o mesmo. Voltemos ao passado.

Em novembro de 2000, o mundo era outro. Os Estados Unidos também. Na semana das presidenciais que opuseram o democrata Al Gore (mais tarde conhecido pelo documentário “Verdade Inconveniente”) ao republicano George W. Bush, no top musical estavam os Creed, com a sua “With Arms Wide Open" ("Com os Braços Bem Abertos"), uma pandemia era um cenário longínquo e a ideia de usar aviões como mísseis parecia só disparatada.

Quando as urnas fecham, as principais emissoras norte-americanas arrancam com as projeções. E todas concordam numa coisa: a Florida, no extremo sudeste do país, dava os seus 25 votos do Colégio Eleitoral a George W. Bush, filho do antigo presidente George Bush. Porém, tal como em 2020, em que as certezas se vão dissipando com as contagens, também ao longo da noite eleitoral de 7 de novembro de 2000 as certezas andavam tremidas.

Ainda assim, às 2:17 dessa madrugada, a Fox News entregava, decidida, a Florida ao candidato republicano. Não querendo ficar atrás, antes das 4 da madrugada já todas as televisões tinham feito o mesmo. Nesta altura, George W. Bush já tinha do seu lado o Ohio, Tennessee e o Missouri. Al Gore contava com a Pensilvânia, o Michigan e o Illinois.

Marcado o destino, Al Gore telefona ao adversário republicano e assume a derrota, colocando, deste modo, fim ao serão eleitoral. Depois, o democrata prepara-se para o discurso. Vai assumir publicamente o resultado, dar os parabéns ao adversário. É um processo importante no protocolo eleitoral. A partir do momento em que um candidato assume a derrota, o outro ganha. Bush festeja.

Passaram quarenta e cinco minutos da chamada com Bush quando Al Gore é travado. A contagem dos votos estreita as margens e tudo fica difuso. E agora? Agora, Al Gore tem de fazer algo incomum: volta a ligar a George W. Bush e retira o que disse — a corrida ainda não tinha acabado.

O republicano fica furioso. O irmão, Jeb, que na altura era o governador da Florida, tinha-lhe garantido que estava na frente, ao que Al Gore terá dito: “o teu irmão mais novo não decide as eleições”.

As televisões começam a retratar-se durante a madrugada, a recuar nas certezas que tinham dado horas antes — e os Estados Unidos acordam sem saber quem vai ser o próximo presidente.

No total, Al Gore até tinha mais votos populares que Bush. Aliás, teve mesmo mais votos do que Bill Clinton, o presidente Democrata dos anos 1990, tivera nas duas eleições. Mas, como por estes dias todos começam a ficar fartos de saber, o número de votos dos cidadãos não se traduz no número de votos do Colégio Eleitoral. Voltaria a acontecer em 2016, mas naquele ano, era a primeira vez em 112 anos que tal ocorria.

Com os dois lados a acusarem-se de irregularidades — apontando para a fraude, boletins de voto confusos, contagens mal feitas, discriminação racial e, até, manobras ilegais e intimidatórias, num esforço mútuo para “roubar” a eleição na Florida —, coube ao Supremo Tribunal, a 12 de dezembro de 2000, pôr fim às recontagens dos votos naquele estado. E mesmo a decisão do mais alto tribunal dos Estados Unidos refletiu a divisão da sociedade (quatro de um lado, cinco do outro).

Só após cinco semanas de recontagem, Al Gore assumiu finalmente a derrota. Fê-lo num discurso de menos de sete minutos para a televisão. Cerca de uma hora depois, gastando dez minutos, George W. Bush fazia o seu. 66 milhões pessoas assistiram à mensagem do derrotado, mais três milhões do que as que viram o vencedor.

“Boa noite. Acabei há momentos de falar com George W. Bush. E dei-lhe os parabéns por se tornar no 43.º presidente dos Estados Unidos” — anunciou Gore — “e prometi que não lhe ligava de volta”.

E a culpa da vitória de Bush foi… da Florida.

Quantos pontos tem um desejo?

Nas horas após o recuo na concessão da vitória, a Florida ficou logo no centro das atenções. Tanto assim foi que os pormenores deixaram de o ser, começando a gritar aos olhos de todos. Em Palm Beach, por exemplo, Pat Buchanan, candidato acusado de ser racista e anti-semita, estava a ter um bom desempenho. O estranho era que tal acontecesse numa comunidade com muitos judeus e afroamericanos.

A culpa não estava num qualquer sentimento sádico destas pessoas, mas no próprio boletim de voto. Chamam-lhe o boletim borboleta, um papel dobrado ao meio, que põe os votos em Buchanan e em Gore demasiado próximos — tão próximos que cedo chegaram queixas de quem se dizia baralhado pela folha e induzido em erro.

Como se isso não bastasse, é descoberta ainda uma outra falha técnica nos boletins e no procedimento para votar. Ciosos dos seus métodos, os norte-americanos usavam uma máquina para perfurar o papel, assim marcando o voto pretendido. O aparelho, contudo, nem sempre era capaz de cortar o papel, deixando alguns boletins sem perfuração, ou com ela feita a meio. Assim, coube aos responsáveis perceber e decidir a intencionalidade das marcas no papel, uma vez que os boletins mal perfurados não eram processados corretamente pelas máquinas de contagem.

Neste cenário, o candidato democrata pede uma recontagem dos votos. Por ordem judicial, os resultados ficam por certificar, enquanto uma recontagem automática, no dia 10, revela que a vantagem de Bush é de 327 votos. Mas, dois dias depois, Palm Beach começa a contar à mão, enquanto Al Gore insiste para que outros condados da Florida façam o mesmo.

Em jogo está a presidência, sublinhe-se. Quem ganhasse a Florida, ganhava tudo e seria o 43.º presidente dos Estados Unidos. Por isso, os republicanos iniciam uma campanha contra a recontagem. Nos tribunais, contudo, a vontade de George W. Bush é barrada.

A pressão vai crescendo. E, a 23 de novembro de 2000, perante todas as manobras intimidatórias dos apoiantes de Bush, o condado de Miami-Dade decide parar a contagem, com milhares de boletins por rever. E as vozes desse passado gritam o mesmo que as de hoje: os Republicanos não querem que se prossiga com a contagem; os Democratas querem que o processo continue (ainda que sejam distintas as razões de 2000 relativamente às de 2020, onde os votos por correspondência parecem ser o tema).

Até que o Supremo Tribunal aceita um recurso de Bush e, no dia 12 de dezembro, ordena a paragem da contabilização.

Trump procura travar o processo — e já pediu ajuda à justiça

Não foi preciso esperar muito para ver a equipa de Donald Trump começar a contestar judicialmente os resultados eleitorais. Mas o contexto de há vinte anos não é o de hoje. Não há relatos de problemas com os boletins de votos, nem provas consubstanciada de falhas na contagem. A grande novidade em 2020 é a quantidade de votos por correio, culpa da pandemia de covid-19. E a grande quantidade de votos no geral, numa altura em que Joe Biden e Donald Trump são os candidatos com mais votos na história dos Estados Unidos.

Numa mensagem partilhada na rede social Twitter, Trump apela à necessidade de intervenção do Supremo (cuja maioria é favorável aos republicanos):

"Facilmente GANHAREI a Presidência dos Estados Unidos com OS VOTOS LEGAIS DEPOSITADOS. Os OBSERVADORES não foram autorizados, de qualquer maneira ou forma a fazer o seu trabalho e, por isso, os votos aceites durante este período têm de ser considerados VOTOS ILEGAIS. O Supremo Tribunal dos EUA deve decidir!", escreveu Donald Trump, na sua conta pessoal.

Para já, os juízes na Geórgia, Michigan e Pensilvânia rejeitaram os processos judiciais apresentados pela campanha de Donald Trump, contrariando a estratégia de ataque à integridade do processo eleitoral em estados cujos resultados podem ditar a derrota do presidente nas eleições.

Segundo um advogado da campanha de Joe Biden, as ações judiciais sem resultados são mais uma estratégia política do que legal, noticia a agência AP. “Quero realçar que, como propósitos, estas ações não precisam de ter sucesso. Esse não é o objetivo… É criar uma oportunidade para enviarem informações falsas sobre o que está a acontecer no processo eleitoral”, atirou Bob Bauer, que acusa a campanha de Trump de "continuamente alegar irregularidades, falhas no sistema e fraude sem qualquer fundamento”.

O advogado falava poucas horas antes de Donald Trump publicar na rede social Twitter: “Todos os recentes Estados reivindicados por Biden serão legalmente contestados por nós por fraude eleitoral e fraude eleitoral estatal. Muitas provas - basta verificar a comunicação social. Vamos ganhar! América First! [em português, América em primeiro lugar]”.

As batalhas judiciais durante as eleições presidenciais tem sido um esforço em pequena escala para examinar de forma mais próxima os funcionários eleitorais locais enquanto estes processam os boletins de voto por utilizar.

Na Geórgia, um juiz indeferiu uma ação que manifestava preocupações com 53 boletins de voto no condado de Chatham, após as autoridades eleitorais terem testemunhado que todos esses votos tinham sido recebidos a tempo. Já no Michigan, a ação judicial que solicitava a paragem da contagem dos votos no estado foi negada. Foi considerado não existirem provas sobre as alegações de falta de delegados eleitorais no local e, além disso, os votos já teriam sido contados.

Mais tarde, no estado da Pensilvânia, um juiz federal negou à campanha de Donald Trump o processo movido para parar a contagem de votos em Filadélfia. Neste mesmo estado, porém, a campanha de Trump já tinha ganho uma ação judicial, mas esta apenas apelava para que os observadores do partido e das eleições se aproximassem dos trabalhadores eleitorais que estão a processar os votos por correio em Filadélfia.

Enquanto Joe Biden apela à calma e pede que todos os votos sejam contados, a campanha de Trump acusa os democratas de tentarem roubar a eleição, embora não haja evidências de que algo esteja a acontecer. O diretor de campanha de Donald Trump, Bill Stepien, disse em declarações aos jornalistas na manhã de quinta-feira que “todas as noites novos votos “são misteriosamente encontrados em sacos”.

Já o porta-voz da campanha de Trump, Jason Miller, acrescentou que mais ações legais são esperadas e terão como objetivo permitir aos oficiais de campanha o acesso aos locais onde os votos estão a ser contados. A campanha do republicano já anunciou que irá pedir uma recontagem dos votos em Wisconsin, relatando “irregularidades”, sem fornecer mais detalhes.

Olhando para o mapa dos resultados eleitorais, que se mantém inalterado desde quarta-feira, sabemos que o candidato do Partido Democrata, Joe Biden, é o que tem mais hipóteses de reunir os votos necessários do colégio eleitoral para ganhar as eleições. Mas a verdade é que o candidato republicano e atual presidente, Donald Trump, mantém caminhos em aberto para ganhar ele os 270 votos do colégio. 

Importa também sublinhar que, aconteça o que acontecer, Donald Trump mantém-se legitimamente em funções até janeiro de 2021, altura em que o mandato que ganhou em 2016 termina.

Porém, pelos comentários de Trump e apoiantes, caso seja derrotado nas urnas, a transição para uma eventual nova administração Democrata pode não ser totalmente pacífica. O atual presidente tem contestado o processo eleitoral (já antes da eleição o vinha a fazer), denunciando alegadas irregularidades — sem, contudo, apresentar provas que as justifiquem.

É verdade que na internet circulam vídeos que estão a ser usados para comprovar “as fraudes”, mas não só a sua veracidade não pode ser atestada (em termos de data, por exemplo), como mesmo esses não revelam práticas necessariamente fraudulentas (como a recolha de votos em caixas postais).

Longe de simples e de resolvida, esta eleição já vai na terceira noite mas pode ainda tomar vários caminhos — e arrastar-se por mais tempo, seja na contagem e recontagem, seja nos tribunais. Para já, só há uma certeza: ganhe quem ganhar, o final do processo ainda vem distante.

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