A iniciativa tem o título #OutInChurch – Por uma Igreja sem medo e é acompanhada pela emissão de um documentário televisivo. É a primeira vez na história, em todo o mundo, que um grupo de crentes se assume deste modo, coletivamente, na praça pública.

“Nós, como pessoas LGBTQI+, queremos viver e trabalhar na Igreja sem ter de sentir medo”, diz o manifesto, a cujo texto o 7MARGENS teve acesso antecipado.

A lista inclui pessoas que trabalham nos campos da educação e ensino, cuidados, trabalho social, música litúrgica e animação pastoral, entre padres, assistentes pastorais, professores de educação religiosa e pessoal administrativo. E são elas próprias que se identificam como “homossexuais, bissexuais, trans, intersexuais, queer e/ou não-binários”.

A iniciativa #OutInChurch (que, do jogo de palavras em inglês, se pode traduzir como “Fora, dentro da Igreja”, no sentido de visível ou exposto) foi inspirada, dizem os seus promotores, na acção #ActOut, na qual numerosos atores e atrizes se manifestaram, no ano passado, como pertencendo à comunidade LGBTQI+.

O manifesto é divulgado dez dias antes de um plenário do Caminho Sinodal alemão. Entre 3 e 5 de Fevereiro, a assembleia discutirá, entre outros, temas da moral sexual católica, incluindo a questão homo-afetiva. E se o manifesto não fala diretamente da assembleia, não será de estranhar que ele seja referido e discutido na reunião sinodal.

Jens Ehebrecht-Zumsande, consultor do Vicariato geral da Arquidiocese de Hamburgo, justifica as razões desta iniciativa: “Demasiadas vezes, as pessoas afetadas são apenas vagamente mencionadas. Com #OutInChurch, os protagonistas estão a fazer-se ver e ouvir na própria Igreja.”

No contexto eclesiástico, consideram os 125 num comunicado enviado ao 7MARGENS, tal passo é ainda um risco considerável, porque a sua concretização pode acarretar consequências como o despedimento e a marginalização profissional. Por isso, este manifesto é “uma aventura com um risco existencial”, admitem.

“O modus operandi eclesiástico profundamente arraigado de condenar e envergonhar as pessoas que se encontram ao serviço da Igreja Católica dificulta a sua ‘saída do armário’.” Por isso, esta iniciativa de revelação quer contribuir “para a renovação da credibilidade da Igreja Católica e para o seu respeito pelos seres humanos”, acrescentam.

Na sua apresentação, dizem que alguns já viveram situações em que foram obrigados “a manter em segredo” a sua orientação sexual ou identidade de género. “E só nesta condição nos foi permitido permanecer ao serviço da Igreja. Isto criou um sistema de ocultação, dois pesos e duas medidas e hipocrisia, um sistema tóxico, nocivo e vergonhoso, que até prejudica a nossa relação com Deus e a nossa espiritualidade”, dizem.

Experiências de discriminação e exclusão

Entre os subscritores estão alguns nomes destacados do catolicismo alemão: o padre Burkhard Hose é um deles. Capelão da pastoral universitária da diocese de Wurzburgo (centro, entre Frankfurt e Nuremberga, a norte da Baviera), Hose tem vários livros publicados. Foi ele que liderou há menos de um ano, em março de 2021, a iniciativa de recolher assinaturas de agentes de pastoral que se manifestaram a favor da bênção das uniões homossexuais (contra norma da Congregação da Doutrina da Fé, do Vaticano, que acabara de as proibir).

Com Hose, também Bernd Mönkebüscher, padre da diocese de Paderborn, dinamizou essa recolha de assinaturas. O padre Bernd é igualmente autor de vários livros e no último (“Ser cristão sem vergonha”), de 2019, revelou a sua identidade homossexual.

Entre os restantes 125 nomes, há ainda o do padre jesuíta Ralf Klein, superior da comunidade de St. Blasien e colaborador na unidade de pastoral paroquial de St. Blasien, na diocese de Friburgo (a sudoeste de Estugarda) e Pierre Stutz, autor muito conhecido na Alemanha, com 14 livros de espiritualidade que já venderam mais de um milhão de exemplares. Ordenado padre em 1985, pediu a saída do ministério em 2002.

A par de pessoas conhecidas ou que estão no ativo, a lista inclui, no entanto, quem apenas diga um nome. O próprio manifesto assume essa revelação incompleta ou a medo: “Somos um grupo diversificado de pessoas corajosas que, num contexto eclesial e individualmente, já saíram do armário. Mas somos também pessoas que estão em vias de tomar essa decisão – e aquelas que por várias razões ainda não podem ou não querem fazê-lo. O que nos une é que fazemos parte da Igreja Católica há muito tempo e continuamos a viver nela.”

No manifesto, os signatários apresentam as suas pretensões, pedindo a revisão das “posições difamatórias ou obsoletas” no ensino da Igreja sobre o género e a sexualidade “com base nos conhecimentos atuais da teologia e das ciências humanas”. Os signatários dizem que isto é tanto mais importante quanto “a Igreja deve finalmente assumir a sua responsabilidade na luta pelos direitos humanos das pessoas LGBTQI+ em todo o mundo”. Na mesma linha, acrescentam: “Uma Igreja que afirma basear-se em Jesus e na sua mensagem deve combater todas as formas de discriminação e promover uma cultura de diversidade.”

O texto diz ainda que a maioria dos signatários “sofreu numerosas experiências de discriminação e exclusão – também na e pela Igreja institucional”. E dá exemplos: “O magistério proclama que a nossa condição ‘dificulta seriamente uma relação correta’ com outras pessoas, que devido à nossa ‘inclinação objetivamente desordenada’ não nos podemos realizar como seres humanos, e que uma relação do mesmo sexo ‘não pode ser reconhecida como objetivamente ordenada aos desígnios revelados de Deus’.

A alteração da legislação laboral da Igreja “de modo a que viver de acordo com a orientação sexual e identidade de género, também numa união civil ou casamento, não conduza à exclusão de empregos e cargos ou ao despedimento” é outra das exigências do documento, a par do acesso a todos os serviços e vocações na Igreja.

Não negar a bênção de Deus

O manifesto afirma também que a Igreja “não deve negar a bênção de Deus ou o acesso aos sacramentos a indivíduos ou casais LGBTQI+”. E conclui: “A Igreja tem causado muito sofrimento na sua forma de tratar as pessoas LGBTQI+.” Esperam por isso “que os bispos assumam a responsabilidade por isto em nome da Igreja, iniciem um processo de reflexão e reconciliação sobre a história da culpa institucional e trabalhem para as mudanças que exigimos.”

Apelando a todas as pessoas nessa condição, que trabalham a tempo inteiro ou numa base voluntária na Igreja Católica, que se juntem à iniciativa, a declaração pede também que todas as outras pessoas se manifestem solidários com ela. Apela a todos os bispos, líderes religiosos, paróquias, associações e congregações religiosas para que declarem publicamente o seu apoio ao Manifesto.

O documento afirma ainda que compreender as “experiências de vida das pessoas queer é uma forma de aprofundar a fé e descobrir a mão de Deus no nosso mundo”. E acrescenta: “Estamos convencidos que a diversidade torna a Igreja mais rica, mais criativa, mais gentil e mais viva. Como pessoas empenhadas na Igreja, queremos contribuir com as nossas experiências e carismas em pé de igualdade e partilhá-los com todos os cristãos e não-cristãos.”

A acompanhar a divulgação do manifesto está a emissão do documentário televisivo Wie Gott uns schuf (“Como Deus nos criou”), que está disponível na página da ARD Mediathek.

O documentário será exibido na noite desta segunda-feira também pelo primeiro canal da televisão pública alemã, destacando cinco dos protagonistas e juntando, na página digital, mais 100 entrevistas. Todos os materiais estarão disponíveis, para já, em alemão.

Os subscritores dizem ainda que decidem dar este passo por si próprios “e em solidariedade com outros que (ainda) não têm a força para o fazer”, como as pessoas que são vítimas de sexismo, antissemitismo, racismo e outras formas de discriminação.

Na página digital da iniciativa no Facebook e Instagram, o manifesto e outros documentos estão disponíveis em várias línguas. É também possível ler em português.

Na terça-feira, 25, um conjunto de grandes e pequenas associações de leigos católicos publicarão uma declaração comum em solidariedade com este manifesto, acrescenta a informação do Out In Church.

*Este texto teve o contributo de Joaquim Nunes, em Offenbach (Alemanha)

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