Gosta de política desde sempre e viveu muito intensamente o 25 de Abril, apesar dos seus seis anos. Antes já se interessava por estes assuntos e sabia de cor quem eram Américo Tomás ou Marcelo Caetano. O pai, “uma pessoa muito terna e afectiva, maternal, até”, morreu há cinco anos, pouco depois das eleições europeias. Era viciado em enciclopédias e pegou-lhe a curiosidade pela informação e o bicho da política. Paulo Rangel ia a manifestações, sabia os elencos ministeriais de cor e aos 12 anos conhecia a política internacional francesa, espanhola ou alemã como os amigos conheciam jogadores de futebol. Pensava seguir História, mas a mãe, que acaba de perder, convenceu-o a ir para Direito, menos limitado em termos de saídas profissionais. “A família do meu pai é bastante mais progressista, a da minha mãe mais conservadora, com percursos diferentes, embora politicamente consistentes”.

Ao contrário do que muitos possam pensar, diz que nunca foi conservador, mas antes liberal, “um católico progressista”, bastante aberto na área dos costumes e da moral.

Na Europa ainda a 28 foi responsável pela derrota de Emmanuel Macron na questão das listas transnacionais, defendida pelo presidente francês e pelos socialistas portugueses - mas não pelo primeiro-ministro António Costa. Agora defende a criação de um “clube Atlântico”, formado pelos países que, como Portugal, são marítimos e sofrem uma perda geopolítica importante com a saída do Reino Unido.

Nesta entrevista em Estrasburgo, o deputado Paulo Rangel falou de si, do PSD e da sua ideia de União Europeia. Começámos por aquela que é uma das discussões do momento no Parlamento Europeu.

A saída do Reino Unido vai limitar ainda mais o orçamento da União Europeia. Há deputados contra e a favor da criação de um imposto europeu para aumentar as receitas. Isso é possível?

Não compreendo como se fala em impostos europeus, porque de acordo com os tratados não é possível haver impostos europeus. Um imposto europeu seria criado pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho Europeu, aprovado e diretamente aplicado aos cidadãos, sem passar pelos governos nacionais e pelos parlamentos nacionais, e que reverteria para a União Europeia. Ora, isto não existe e nem pode existir. Aliás, quando aprova o orçamento, o PE aprova só despesas, não pode aprovar receitas. Portanto, seria uma coisa sem sentido.

Pode, então, explicar a ideia dos impostos?

Aquilo de que temos falado, e o PSD está de acordo com a medida, é na necessidade de a União Europeia aumentar as receitas próprias, porque a União Europeia recebe apenas transferências dos Estados-membros que são contribuintes líquidos, e que não querem aumentar essas transferências. Como o dinheiro não chega para tudo, não é possível fazer algumas reformas. Antigamente não havia tanta pressão sobre os contribuintes líquidos, porque os direitos aduaneiros eram muito altos e as tarifas eram receitas da União. Hoje há muita pressão, portanto temos de encontrar receitas próprias.

Como? Qual a proposta em cima da mesa?

O que deve ser feito, nomeadamente em três áreas - plataformas digitais (Amazon, Google, Apple e por aí fora), transações financeiras e algumas questões climáticas - é criar uma contribuição, que seria uma contribuição nacional. Isto é: os Estados europeus aprovariam, por unanimidade, criar essa contribuição - o que significa que passaria pelos governos e parlamentos nacionais - e uma parte da receita arrecadada com essa contribuição seria diretamente afectada à União Europeia. É o que acontece hoje com o IVA; uma parte da receita do IVA vai diretamente para os cofres europeus, está consignada à UE. E ninguém diz que o IVA é um imposto europeu. Isto seriam receitas próprias.

Porquê nessas três áreas em particular?

Porque as plataformas digitais ou as transações financeiras, como algumas questões ligadas ao ambiente, no fundo, só têm a repercussão que têm porque existe um mercado interno, senão elas seriam muito menores. Há quase um valor acrescentado europeu resultante do facto de estas empresas ou bancos atuarem no espaço europeu. Se isso lhes dá uma mais-valia enorme - em alguns casos essas empresas têm lucros superiores ao PIB português - faz sentido que uma parte das receitas venha a ser afetada à União Europeia. Mas isso será sempre feito com respeito pelos parlamentos nacionais.

E o valor que essas empresas vão pagar não vai acabar por ser repercutido no consumidor?

Há quem faça essa crítica. Mas mesmo que isso aconteça, a repercussão, especialmente olhando para Portugal, que é um país pequeno, será marginal. O orçamento da UE é o equivalente a 1% do rendimento disponível europeu, e veja o que fazemos com esse montante em termos de fundos, de ajudas, etc. Se contássemos com 2% do PIB, poderíamos fazer o dobro. Os Estados Unidos usam 7%.

Faríamos o dobro da asneira ou a coisa bem feita?

Isso também depende muito da forma como cada país utiliza os fundos. Não considero que Portugal tenha feito só asneiras, em muitos casos fez as coisas bem feitas. Se me pergunta, por exemplo, se fizemos bem em fazer autoestradas, digo que sim. Se eu morar numa casa que não tem nenhuma casa de banho e fizer duas casas de banho para uma família de quatro ou cinco pessoas, faz sentido. Agora, se fizer dez casas de banho para quatro ou cinco pessoas, isso não faz sentido algum. Por isso defendo o investimento em autoestradas feito por Cavaco Silva, mas não defendo o de Sócrates. No tempo de Cavaco éramos um país sem autoestradas, precisávamos de ligações. No tempo de Sócrates devíamos ter apostado na ferrovia. Os fundos deviam ter sido utilizados noutro tipo de construção civil, embora fossem até beneficiar a mesma indústria. Infelizmente vemos que este PS, nomeadamente o governo e o cabeça-de-lista às europeias, que era ministro e que no caso da ferrovia foi um desastre completo, está a cometer o mesmo erro do passado: está a desativar a ferrovia em vez de investir nela.

A discussão portuguesa sobre a Europa vai sempre parar aos fundos comunitários. Isso não é redutor?

Há muitos assuntos que não os fundos que têm imensa importância para Portugal. Por exemplo, o Brexit é um assunto muito importante e este governo falhou aí claramente, não tem um plano de contingência. Se falar com a comunidade portuguesa no Reino Unido vê que há uma enorme instabilidade, nunca houve tanta incerteza. E com os constantes adiamentos a incerteza aumenta enormemente. Mas o governo português não tem nenhum apoio para dar aos cidadãos ou às empresas exportadoras, que estão absolutamente abandonados à sua sorte.

O governo não foi capaz de trazer para Portugal nenhuma das empresas que está a sair do Reino Unido

Não houve um plano de contingência aprovado pela Assembleia da República?

O documento aprovado pela Assembleia da República não é um plano de contingência, é um documento estrutural, que reconhece direitos. Diz que se não houver acordo, reconhecemos os direitos: as cartas de condução, as licenciaturas, o acesso ao serviço de saúde, o acesso à Segurança Social… Isto não é contingência, é até permanência, vai vigorar 20 anos. Um plano de contingência é outra coisa: que medidas vou pôr no terreno a curto prazo para reduzir o nível de ansiedade, de incerteza das pessoas. Serve para acomodar uma mudança repentina e abrupta. E, por exemplo, as permanências consulares no Reino Unido passaram de 31 para 35, mas hoje demoram mais a responder do que há um ano. Isto é o governo a falhar. O governo não foi capaz de trazer para Portugal nenhuma das empresas que está a sair do Reino Unido.

E as empresas queriam vir?

É preciso trabalhar, não basta criar um programa no papel chamado “Portugal in”. O que eu digo é: não há um plano de contingência, não existe. Existe uma boa declaração de direitos recíprocos que, em caso de no deal, funcionará. Mas não estou apenas falar do curto prazo, da incerteza ou da insegurança instaladas nas pessoas e nas empresas. Estou a falar da perda geopolítica que é para Portugal. Repare, o governo não fez um único estudo sobre o impacto do Brexit para Portugal, nem do ponto de vista económico, nem da liberdade de circulação das pessoas, nem da geopolítica.

A oposição fez?

A oposição não fez, mas não é a oposição que tem de fazer esse estudo, era só o que faltava. Mas já dei há muito tempo uma solução e o governo não a seguiu. Com quem é que o governo andou a reunir em termos de Europa? Com o “clube Med” (Grécia, Chipre, Malta, Itália, França e Espanha), e até assinou uma declaração ofensiva para o Reino Unido - assinada por Costa - há poucos meses, só para satisfazer Macron e Sanchez. Portugal não é um país mediterrânico, Portugal é um país atlântico. Quem são os países com uma perda geopolítica igual a Portugal? São a Suécia, a Dinamarca, os Países Baixos - Holanda, a Irlanda, a Bélgica, a faixa atlântica, os países que estão voltados para fora, que são países marítimos, países que não têm os seus interesses centrais no continente.

A sua sugestão é Portugal fazer um “clube Atlântico”?

Fazer um “clube Atlântico”, uma cimeira com estes países. Que já devia estar a acontecer há dois anos. Às tantas a estratégia que foi seguida não foi a mais inteligente, mas se o Reino Unido sair quem vai defender a visão atlântica, a visão, se quiser, extrovertida da União? Já não vamos ter o grande parceiro inglês para o fazer e é por isso que precisamos de forjar estas alianças. Este governo falha constantemente em termos de política europeia. Ligou-se ao “clube Med” mesmo quanto ao fundos, quanto o governo anterior tinha uma reunião sistemática com os países da coesão. O “clube da Coesão” não está a funcionar.

E quais são as repercussões disso?

Aparece uma proposta da Comissão, que Pedro Marques e Costa aceitam, em que Portugal perde 7% dos fundos - e estes números não são disputáveis, ao contrário do que diz o PS. Há um relatório do Tribunal de Contas Europeu sobre a política de coesão, com a proposta da Comissão e a data de 27 de Março de 2019, e está escrito: Portugal vai perder 7% na política de coesão e 1600 milhões de euros. Isto não é uma coisa das fake news, de Paulo Rangel ou do PSD, é o Tribunal de Contas a dizer. Devíamos estar a reunir com os países que estão a perder fundos. A Espanha que é mais rica, a Itália, que é mais rica, e a Finlândia, que é mais rica, sobem 6%, 5% e 6%, respectivamente. Nós perdemos 7% porquê? Não é o Brexit que está a originar estas perdas.

Neste caso, o que seria melhor para Portugal?

Quando se olha para a política europeia, temos de ter geometria variável. Tem de ter o “clube Med”, sim senhor, porque na zona euro os países do sul têm interesses comuns, mas com a saída da Grã-Bretanha preciso de ter o “clube Atlântico”, que tem interesses comuns, não pode deixar que o eixo franco-alemão desloque a Europa para o centro e para leste. Portugal é um país com presença muito grande no Atlântico sul, África e América, no Índico também e até no Extremo Oriente. Não pode desprezar isso. Nós tivemos o “clube dos Países Médios”, com entre oito e 11 milhões, e concertámo-nos para evitar políticas que iriam prejudicar muito os países de média dimensão. São quatro grupos em que poderíamos estar a trabalhar a diplomacia europeia: o “clube Med” para a Zona Euro, o “clube Atlântico” para as questões do Brexit, o “clube da Coesão” para os fundos e o “clube dos Países Médios” para as questões institucionais dos países de média dimensão. Isto é que é fazer política europeia.

Qual o nível de autonomia de Portugal para negociar um acordo, ou vários, com o Reino Unido?

Neste momento tudo o que é comércio internacional é competência exclusiva da União Europeia. Aliás, este é o problema do Reino Unido quanto à união aduaneira: saber se a razão pela qual muitos não querem a união aduaneira é porque teriam de ficar vinculados aos acordos de comércio da UE. Não temos hipótese de fazer qualquer acordo bilateral deste tipo. Aquilo que fizemos, e por isso digo que não é plano de contingência, foi dizer que no caso de não haver acordo estamos dispostos a oferecer aos cidadãos do Reino Unido um conjunto de direitos e de prerrogativas que eles oferecem aos nossos, independentemente do que possa acontecer com outros países da UE. Ou seja, podemos até dar-lhes um estatuto preferencial, nomeadamente acesso aos serviços públicos essenciais. Mas mesmo que haja um não acordo quanto ao divórcio, a relação futura em termos comerciais terá de ser negociada sempre a 27.

Liderou recentemente um grupo contra as listas transnacionais, uma ideia defendida por Macron…

Essa foi talvez a minha maior vitória. Curiosamente, não vem nos rankings e foi dos relatórios que mais trabalho me deu, apesar de não ter lá nenhuma assinatura. Se perguntar a qualquer pessoa aqui no Parlamento Europeu, todos sabem que quem liderou essa discussão foi o MEP [Member of the European Parliament] Rangel. E Macron apontou-me o dedo aqui num debate: “Você é o responsável por não termos listas transnacionais”. Sabe porquê? Por causa do “clube dos Países Médios”: Bulgária, Áustria, Suécia, República Checa, Grécia, Bélgica… Quando toda a gente dizia que íamos perder a votação, ganhámos com mais de 150 votos contra. Contra Silva Pereira e o PS, que queria as listas transnacionais e que foi profundamente derrotado nesse relatório. Pelos vistos quem não queria era o primeiro-ministro António Costa, que agradeceu o trabalho que nós fizemos, enquanto os deputados do PS votaram a favor das listas.

A UE é uma instituição centralista, não é federal, e com as listas transnacionais dava um sinal no sentido errado de centralização e não de integração

Por que motivo é contra as listas transnacionais?

Têm vários pontos negativos. O primeiro e mais prático é que iriam sempre dar maior representação aos grandes Estados, em detrimento dos Estados médios e pequenos. Sem tirar deputados a Portugal, as listas iriam reduzir o peso dos deputados portugueses e de outros países no parlamento porque, obviamente, o que iria acontecer é que os primeiros lugares seriam ocupados pelos países mais populosos. Se há uma lista à escala europeia, claro que não vai ter candidatos de Malta, que tem 400 mil habitantes, e sim da Alemanha, que tem 84 milhões, ou da França, que tem 65 milhões. Iríamos reforçar o peso dos países maiores e diminuir o peso dos países menores. Mas não é apenas isso; nem nas federações - e a Europa não é uma federação - existem listas federais. Nos Estados Unidos ou na Suíça, que são federações muito avançadas, não há um círculo dos EUA ou da Confederação Helvética, há círculos Estado a Estado. Portanto, isto é ser mais papista que o papa. A UE é uma instituição centralista, não é federal, e com as listas transnacionais dava um sinal no sentido errado de centralização e não de integração.

E a Europa devia ou não caminhar no sentido do federalismo?

A palavra federalismo está muito traficada. Ela não significa um modelo único, há muitos federalismos: o federalismo belga não tem nada a ver com o federalismo alemão e o federalismo alemão é totalmente diferente do federalismo americano. Até algumas experiências de organizações internacionais são experiências parafederais. Eu diria que no caso da Europa há matérias em que temos de nos integrar mais, temos de caminhar num sentido mais federal. Por exemplo, a Zona Euro está incompleta: não tem união bancária, não tem capacidade orçamental, não tem um fundo monetário europeu… Falta aqui qualquer coisa, e parte dos desequilíbrios que sentimos no contexto da Zona Euro, e que prejudicam em particular as economias do sul e têm beneficiado as economias do norte, resultam disso.

Mas…

Mas aquilo de que precisamos, sobretudo, é de uma clarificação de competências. E as soluções federais dão isso. Há soluções federais altamente descentralizadas, caso da Bélgica, em que a federação quase não tem competências, são os estados federados que as têm, e há outras, caso da Alemanha, que são um pouco mais centralistas. A vantagem é sempre a clareza de competências: sei o que pertence ao nível central e sei o que pertence ao nível de cada Estado.

E isso, no caso da União Europeia, é dúbio?

Temos muitas zonas cinzentas e as zonas cinzentas prestam-se a que haja mais intervenção do centro do que seria aceitável. Usar a palavra federalismo, hoje, até é prejudicial do ponto de vista eleitoral, porque ela tem má fama. Mas uma solução federal é mais enxuta, mais asseada e mais clarificadora, porque diz que eu posso escolher mais ou menos integração, mas sei o que pertence à União e o que pertence aos Estados. Neste modelo de Europa temos muitas zonas cinzentas e isto faz com que a União se imiscua onde não se deveria imiscuir.

Pode dar exemplos?

Por exemplo, nos Estados Unidos não há o reconhecimento das cartas de condução. Se eu tiver uma licença do Alabama, ela pode não servir para o Texas ou para a Carolina do Sul. A pena de morte existe nuns Estados e não noutros, tal como o divórcio tem umas condições nuns Estados e outras noutros. O grau e autonomia pode variar, o que importa é que a repartição de competências seja clara. Aquilo que na Europa, neste momento, é menos positivo, ou até negativo, é que existe um conjunto tão lato de competências partilhadas que nunca sabemos onde começam e acabam as dos Estados-membros e as da União. E isso presta-se a uma certa imiscuição.

E onde é que isso deixa a responsabilização?

Antecipou o que eu ia dizer: um dos motivos pelo qual a Europa às vezes tem má fama é porque sempre que uma coisa é boa ou corre bem o político diz lá na sua capital que foi obra dele, sempre que é má ou corre mal diz que foi imposição da União Europeia. Esta amálgama de competências, esta falta de clarificação, é negativa para o próprio prestigio da integração europeia.

O que faziam os seus pais?

O meu pai era profissional de seguros. A minha mãe era dona de casa, embora recomendasse sempre às outras pessoas que o não fossem, porque achava que era redutor do estatuto da mulher.

Quem são os seus amigos?

Tenho muitos amigos. Em geral são pessoas de fora da política, mulheres e homens, uns que estiveram comigo na primária, outros que foram meus vizinhos, outros que fizeram comigo o secundário ou a universidade e um ou outro que conheci já no exercício profissional. São amigos íntimos, não são pessoas públicas: Pedro Magalhães, Nicolau Freitas, Mónica Azevedo, Pedro Azevedo, Paulo Santos Carvalho…

Qual o seu maior medo?

[Pausa] Nunca pensei… Mas não sou muito de grandes medos.

O seu pior defeito?

Talvez alguma teimosia.

A pessoa que mais admira?

A pessoa que mais admiro, e também de quem mais gosto, é a minha mãe, poderia dizer. Mas penso que nesta resposta se espera alguém de fora e poderia usar vários critérios, mas alguém vivo e personalidade pública, talvez o professor Gomes Canotilho. Ou Lucas Pires, que já morreu, ou Manuela Ferreira Leite, que admiro imenso. E também poderia falar de amigos, porque admiro dois ou três - não é que goste mais deles do que doutros, gostamos dos amigos com os defeitos que têm, mas estes são pessoas mais completas.

A sua principal qualidade?

Acho que a convicção.

Qual a maior extravagância que alguma vez fez?

Não sei. Fiz várias… Há uma coisa que faço muito: férias de carro, longas viagens. O meu sonho é fazer Porto-Moscovo, uma viagem a que chamo “a Europa de costa a costa”.

Qual o seu filme de eleição?

É muito difícil responder. Há um filme que me marcou muito e que vi muitas vezes, mas que é um clássico: “O Mundo a seus Pés”. Porque sim e porque representa a entrada no novo mundo, com aquela frase final: “RoseBud”, que me marcou sempre. Cada vez que revejo, vejo de um ângulo diferente, há ali muitas coisas que mexem comigo.

Que traço de perfil é preciso ter para trabalhar consigo?

Paciência. E tem de ser uma pessoa dedicada e disponível.

Uma qualidade que para si seja sobrevalorizada?

A inteligência e a beleza.

Mente?

[Sorri] Procuro não mentir.

O que o faz perder a cabeça?

Há várias coisas, mas há uma que detesto: pessoas que amuam. Quando tenho um problema gosto de o discutir e detesto as pessoas que entram em blackout em vez de verbalizar a sua insatisfação e de a discutir. Entram numa espécie de resistência passiva e ficam, por exemplo, dias e dias a trabalhar ou a conviver de modo formal e lacónico. Isso desespera-me.

O que o deixa feliz?

A humanidade das pessoas, um gesto de desprendimento, a entrega ao outro.

Se pudesse, o que mudaria imediatamente na Europa?

Há tanta coisa para mudar… Algo que tivesse um efeito multiplicador. Mudava a linguagem, que é muito tecnocrática, demasiado distante e codificada.

Se fosse uma personagem de ficção, quem seria?

Vou dizer uma coisa um bocadinho estranha, porque não é muito inspirador e é até um pouco extravagante, mas seria o Spirou. Tem uns laivos de Fantásio e outros de Astérix ou de Tintin.

Como gostava de ser lembrado?

Gostava de ser suavemente esquecido.

O melhor presidente de sempre?

[Abraham] Lincoln.

Quem não tem direito a uma segunda oportunidade?

Toda a gente tem direito a uma segunda oportunidade.

Qual a pior profissão do mundo?

O desemprego.

Se fosse um animal, que animal seria?

O marsupilami, do Spirou.

Pode contar uma anedota sobre políticos?

Conheço muitas, rio-me imenso, mas nunca me recordo de anedotas.

É, como outros, deputado do Parlamento Europeu há dez anos. É tempo de mais?

Um estudo feito pela Fundação Francisco Manuel dos Santos conclui que um país é tanto mais influente quanto maior é a experiência dos seus deputados no Parlamento Europeu. Quando falamos no Parlamento Europeu falamos de relações diplomáticas internacionais, e a rede, o conhecimento que cada deputado tem é essencial para o seu peso e para a sua influência. Quanto mais tempo ele tem, mais influência tem.

O que é interessante, porque os diplomatas são obrigados a uma certa rotatividade…

Certo, mas mudam os embaixadores, não as embaixadas inteiras, há uma continuidade. O que penso que é saudável para qualquer lista é ter sempre uma renovação mitigada, ter pessoas que ficam, para assegurar a presença e importância do país, e ter outras que mudam. Porque, não tenha dúvidas, aqui os deputados mais relevantes, os que verdadeiramente pesam, estão cá há 20 ou há 15 anos. Esses são os que conhecem os dossiers, conhecem a casa, têm uma rede própria de pessoas, de influências. Não tenho dúvidas de que o meu segundo mandato foi mais importante do que o primeiro. E, embora me possa ficar mal dizê-lo, sou um deputado influente.

O governo, através do ministro Pedro Marques, desviou 26 milhões [fundo de solidariedade incêndios] para despesas burocráticas da administração central

O que é que já fez pela União Europeia e por Portugal na Europa?

Fizemos coisas muito importantes, e agora falo como delegação do PSD, uma vez que também sou chefe de delegação. Neste mandato conseguimos que o Parlamento Europeu aprovasse uma proposta que não retira um cêntimo dos fundos a Portugal. Fi-lo muito em ligação com o deputado José Manuel Fernandes, que é o nosso deputado para a área do orçamento, mas obviamente que foi por estar na presidência do PPE [Partido Popular Europeu, até aqui o maior no âmbito europeu e onde se inclui o PSD] que conseguimos impor isto, contra uma proposta da Comissão a que o governo português está resignado e que nos faz perder 7%. Outro ganho que considero muito importante foi o fundo de solidariedade para os incêndios de Pedrógão e de 15 de outubro, no valor de 50,6 milhões de euros. É muito difícil conseguir este apoio - infelizmente o governo, através do ministro Pedro Marques, desviou 26 milhões para despesas burocráticas da administração central, quando o destino da verba era pura e simplesmente para reparar danos nas zonas atingidas, não para a Autoridade Nacional de Protecção Civil reparar computadores. Outra coisa muito importante: a questão da Venezuela, onde temos uma comunidade muito importante. Se há pessoa que deu visibilidade à questão venezuelana no PE fui eu. Depois há questões mais europeias e de que os portugueses estão menos a par, como o relatório sobre o futuro da Europa.

Conte-nos sobre esse relatório…

Fui a pessoa encarregada pelo PPE de fazer um relatório sobre o futuro da Europa. Fizemos dezenas de reuniões, com dezenas de emendas, e fui eu que redigi o primeiro documento e também o documento final, no qual até está uma ou outra ideia contra a qual eu estou, mas que é o resultado do consenso a que se chegou. Depois, o mais importante é uma coisa imaterial e que não se vê: é ser vice-presidente do grupo e ser vice-presidente do Parlamento Europeu, estar a coordenar 216 deputados, a influenciar os votos e as votações a toda a hora, mudar a linha do grupo quando esta vai para caminhos que podem prejudicar Portugal ou que podem ser prejudiciais para a União Europeia. Isto não é susceptível de ser aferido em termos de quantidade, mas tem um efeito maior.

Voltando um pouco atrás: quem fiscaliza a forma como é utilizado o fundo de solidariedade ou outros?

Será fiscalizado pela Comissão Europeia, mas só daqui a dois anos. Só passado esse período de tempo é que se faz uma avaliação da forma como foi despendido o dinheiro desse fundo.

Por falar em Comissão, qual gostaria que fosse a pasta do comissário português?

Há muitas pastas que podem ter interesse para Portugal. Teria muito interesse mantermos o comissário Carlos Moedas, que está a fazer um excelente papel, é uma pessoa influente e está a mexer numa área crítica para Portugal, que é a da Investigação e da Ciência. Outra pasta muito interessante, e que Portugal nunca teve, é a da Agricultura. Depois há uma área para mim muito relevante, e onde penso que as fissuras na União são maiores e que e preciso trabalhar mais, que é a da Justiça e dos Assuntos Internos, que tem a ver com as migrações e onde poderíamos ter um papel de mediação. Na próxima Comissão a Segurança e a Defesa terão um papel decisivo e poderia ser uma coisa completamente nova, um caminho a desbravar…

Tem nomes para cada uma delas?

Não vou por aí, porque o comissário vai depender do novo governo. Aliás, não sei se a escolha dos comissários será feita antes ou depois das eleições legislativas, temos de ver isso. Em termos de calendário normal a escolha seria feita por volta de setembro, mas como é possível que haja uma derrapagem, poderá ser já o novo governo a escolher.

E o novo governo será o governo atual?

Estou confiante de que não será. Vejo um grande desgaste do governo atual. Tenho uma grande experiência de más sondagens e bons resultados - às vezes quando tenho boas sondagens até fico mais preocupado. Neste momento o que vemos é um desgaste do atual governo e o PSD a subir nas sondagens, mas estamos ainda muito longe do fim do mandato.

Quantos deputados gostaria o PSD de eleger nas europeias?

A meta do PSD é muito clara: ganhar as eleições. E penso que isso está ao nosso alcance. Temos atualmente seis deputados e esperamos reforçar esse número, mas não vou fixar um número concreto.

Segundo o Eurobarómetro, os cidadãos europeus têm cinco preocupações primeiras: crescimento económico, desemprego jovem, alterações climáticas e proteção do ambiente, imigração e terrorismo. Gostaria de saber o que preconiza para cada uma delas.

No caso do crescimento económico está previsto o chamado InvestEU, a nova geração do Plano Juncker, e que tem uma boa hipótese de ir para os 700 mil milhões de euros, uma grande melhoria. No caso dos fundos europeus, porque o investimento passa muito pelos fundos europeus, o objetivo é não perder um cêntimo. O investimento está nos piores níveis de sempre e, do meu ponto de vista, é preciso fazer reformas. O pior que fez o governo português, e isso não depende da União Europeia, é ter deixado que o crescimento fosse apenas induzido pelo crescimento externo. Agora vamos sofrer as consequências de uma certa desaceleração porque, talvez até por a coligação ser feita à esquerda, não houve nenhuma reforma para as PME exportadoras, que são quem poderia fazer a diferença em termos de crescimento. Portugal, comparado com países com os quais se deve comparar, teve um crescimento muito modesto, euro diria até sofrível, senão mesmo medíocre.

E quanto ao desemprego jovem?

Diria que a escala de prioridades dos cidadãos é uma escala da qual comungo. No caso do desemprego jovem temos uma proposta, um pacote que é uma combinação de vários programas, Erasmus, EURES, Corpo Europeu de Solidariedade e DiscoverEU. Mas destaco o programa EURES, que apoia o primeiro emprego na Europa. Não há dúvida que o desemprego jovem, mesmo nos países que têm bons números, está sempre bastante acima da média do desemprego total e temos de encontrar soluções, por isso o programa EURES precisa de ser reforçado e massificado. Queremos que deixe de ser um programa piloto e passe a ter a dimensão do Erasmus.

Alterações climáticas e proteção do ambiente?

Aí não mudaria muito o rumo do que tem vindo a ser feito, quanto muito reforçaria. Não tenho uma proposta mágica, mas acho que estamos no bom caminho.

Migrações?

No caso das migrações a questão é muito mais complexa. A proposta da Comissão era muito equilibrada, mas os países de leste não estão a aceitá-la. Penso que a solução poderia passar por pôr os países de leste a pagar a guarda costeira e de fronteira e o acolhimento por outros países, fazendo uma repartição de outro tipo. Ou seja, todos intervêm no plano das migrações, mas uns recebem imigrantes e outros não. Penso que teremos de nos resignar a essa solução, mas vamos ter de pôr os países de leste a pagar um preço, as coisas não podem continuar como estão. E vamos ter de distinguir a ajuda humanitária das migrações. No caso da ajuda humanitária ainda temos muito a fazer, mesmo nos campos que já existem e que continuam a estar abaixo da decência humana. Aí temos de ser muito generosos. Na questão da migração económica temos de ser mais seletivos, não podemos aceitar todos e temos de ter uma capacidade de controlo dos fluxos, como fazem muitos outros países. Se o fizermos conseguiremos acolher mais gente e em melhores condições. O controlo do processo não pode ser desordenado, mas também não pode ser a construção de um muro.

Terrorismo?

Hoje sabemos que a segurança e a defesa são prioridades europeias. Estas áreas vão ter um reforço orçamental muito grande, vai haver um Fundo Europeu de Defesa, que está muito orientada para o terrorismo, não apenas para a defesa militar no sentido mais tradicional. Os remédios não são muito diferentes dos caminhos que estão a ser apontados. Mas há nesta matéria uma coisa que gostava de dizer: sou contra um exército único, sempre. Penso que é mau para Portugal, que deve querer que a defesa e a segurança estejam articuladas com a NATO - e se o Reino Unido sair deve ser um parceiro preferencial na área da segurança e da defesa.

Sei que se interessou por política desde muito cedo, mas entrou tarde para o meio. Como foi isso, pode contar um pouco o percurso desde a infância?

Os meus pais, católicos informados, esclarecidos - vinham dos cursos de cristandade, das equipas de CPM [preparação para o matrimónio] - foram muito ativos durante a revolução. A família do meu pai é bastante mais progressista, a da minha mãe mais conservadora, com percursos diferentes, embora politicamente consistentes. A maioria dos seus amigos era do PPD, alguns do CDS e outros socialistas. Entrei para a política muito tarde, só em 2004, mas todos os que fizeram comigo a primária e o secundário acharam uma coisa natural, porque eu só falava de política e era o meu hobby principal. Fui sempre muito bom aluno - muito mau a ginástica. Inicialmente pensei em ir para História, mas a minha mãe, sem nunca me condicionar, aconselhou-me a ir para Direito, que poderia ter ligação com História e tinha mais saída profissional. Fui excelente aluno e fiquei assistente na Universidade Católica. Direito criou isto: eu estava imerso, muitas horas por dia, mas também saía muito, era uma pessoa bastante divertida e social. Nunca fui uma pessoa conservadora, sou e sempre fui muito liberal, mesmo como católico fui sempre um católico progressista, se é que isso ainda existe. Sou uma pessoa bastante aberta na área dos costumes e da moral.

Tenho muito boas relações com a igreja, mas sabem bem que sou bastante desafinado

Mas é um homem de fé?

Sou uma pessoa com fé, um cristão de cultura católica, é assim que me defino. O catolicismo é mais um acidente, primeiro sou um ser humano e depois português. Ou seja, tenho de encarar o outro como igual, independente de ser português ou outra coisa qualquer, da mesma forma que primeiro sou cristão e só depois católico. Ser católico é-me natural porque foi assim que cresci. Tenho muito boas relações com a igreja, mas sabem bem que sou bastante desafinado.

E o Direito, conformou-se?

Depois de ter sido assistente fui advogar e a advocacia tirou-me alguma criatividade. Era muito mais criativo, escrevia muito mais, fazia muito teatro no secundário, fiz várias peças, de Almeida Garrett, de André Branco, de José Régio… Ainda hoje declamo muito - gostava imenso de declamar poemas, sabia imensa poesia de cor. Fui sempre expansivo, mas ao mesmo tempo tímido nas questões pessoais. No fundo, um falso extrovertido, com um certo receio de expor a minha intimidade. E, já que entramos num domínio quase psicanalítico das confissões: há uma coisa que sempre me marcou: nunca tive medo da morte. Uma vez fiz uma autobiografia e disse: “se morresse hoje, se morresse amanhã, ainda era feliz, depois não sei”. Um certo desprendimento da vida, mas não tenho desapego.

Por falar nisso, foi por questões de saúde que perdeu peso?

Depois aos 12/13 anos comecei a engordar, até então era magro. Mas tenho um problema de obesidade mórbida na família, qualquer coisa de ADN que vem do lado paterno: o meu avô, pai do meu pai, morreu com 206 quilos, um tio morreu com 150, outro com 120, um com 33, outro com 40, outro com 44 anos. Eu tinha um historial muito grave e, quando ultrapassei a casa dos 100 quilos, os médicos estavam muito preocupados e aconselharam-me a fazer uma cirurgia bariátrica. E a verdade é que resultou. Há seis anos que estou mais ou menos com o mesmo peso e muito melhor do que estava. Custa-me zero. Sempre fiz muitas dietas, tive sempre muita facilidade em emagrecer. O que acontecia é que passado um ano ou ano e meio voltava a engordar, e há um padrão ioiô comum, é que normalmente vai-se para um peso superior ao que se tinha antes de se ter iniciado a dieta: perdia 18, ganhava 20. Perdia 20, ganhava 23. Agora sinto-me bem e do ponto de vista estético também me sinto bem - é mais venal, mas faz parte da condição humana.


Esta entrevista integra o Especial Europa 2019 do SAPO24, porque nunca a compreensão da identidade europeia foi tão importante na história do projeto europeu. 

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