No Retiro do Lino, na aldeia da Figueira, à beira de uma casa queimada, o incêndio que provocou a morte a 64 pessoas e mais de 200 feridos continua a ser a conversa de todos os dias. Fala-se do avanço das chamas, de terras chamuscadas, de como conseguiram salvar as suas vidas, casas ou outras pessoas.

"Escapei por um minuto", diz José Esteves, de Pobrais.

O homem, de 52 anos, divide o dia entre fazer o comer para o filho e tratar da "bicharada que sobrou". De resto, não há mais nada, que "tudo o vento levou". Não há lenha, não há quintal, não há árvores, conta.

"Mais importante do que os psicólogos, era postos de trabalho", desabafa José, desempregado, tal como o seu filho.

Por este café, quando se pergunta sobre a perspetiva de os concelhos renascerem das cinzas, como os autarcas têm dito e repetido, todos se riem.

"Para o Zé Povinho, não vem nada. Vai ver se não vão meter tudo ao bolso", comenta Manuel do Carmo, cuja casa ainda "se safou", mas barracão, figueiras e oliveiras foram consumidos pelas chamas.

"Foi uma miséria. Não houve socorro nenhum", sublinha o reformado de Atalaia Cimeira.

O comentário merece logo um chorrilho de críticas dos restantes homens à atuação da Proteção Civil, ouvindo-se um "palhaços", gritado, a alto e bom som, de uma das mesas.

Sentiram-se abandonados no momento em que as chamas passaram pelas suas aldeias e o abandono, sublinham, será aquilo que se vai seguir nos próximos anos.

"Bruxelas já deu no passado para outros incêndios e nunca chegou cá nada", afirma António Nunes, que na primeira semana "nem sabia se era domingo, segunda ou terça-feira".

O habitante de Vila Facaia perdeu as suas 16 ovelhas para o fogo, as videiras, os campos que davam "meia dúzia de sacos de batatas" e as oliveiras.

"Ainda por cima este ano, que ia ser ano de azeite. Tanta azeitona que ia ser apanhada e agora tudo ardido", acrescenta Adelino, responsável do café, enquanto vai buscar uma cerveja, levando na mão uma declaração de prejuízos agrícolas.

"Ainda nem tive coragem de ir ver as ovelhas. Não sei como aquilo está", conta António Nunes.

O futuro também é difícil de enfrentar. Contava "vender um pinhalzinho que tinha" e agora só lhe oferecem um terço do que valia.

"Para a minha idade, isto já não vai dar a volta. Não vou ser eu a ver as oliveiras a crescer outra vez. Entretanto, um ‘gajo’ vai-se embora", diz.

A aflição em relação ao futuro é sentida por todos. Num território com poucas empresas, a maioria das pessoas contava com as hortas, os pés de oliveira, as videiras e um ou outro terreno florestal para compensar a falta de trabalho ou reformas baixas.

"Vivíamos da lavoura, mas agora não há nada. Não sabemos o que havemos de fazer à vida. Por agora, está tudo bem, que há até comida a mais, das ajudas que trazem. Mas depois? A pergunta é o que vamos fazer? O que vamos fazer depois? Daqui a dois anos?", questiona António, desacreditado.

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