“Portugal é um país que já teve uma cultura de cânhamo muito, muito forte, e que depois foi abandonada, por razões económicas. Hoje em dia, o cânhamo está a ser utilizado como alternativa ao betão. Portugal podia-se tornar pioneiro na utilização de cânhamo na produção de um material alternativo ao betão”, diz ao autor, em entrevista à Lusa.

“Climax Change!: How Architecture Must Transform in the Age of Ecological Emergency”, ainda sem tradução em português, é editado pela Actar e lançado este sábado, às 18:00, na livraria Circo de Ideias, no Porto.

Para fazer face à emergência climática, o arquiteto sugere que a disciplina olhe para “a questão da economia circular, no facto de, também nas construções que são feitas, estar previsto o reaproveitamento dos materiais após a exaustão do seu uso no edifício, e isso são coisas que estão a ser investigadas, e fazem parte dessa tal inovação tecnológica que o livro também refere como um dos caminhos, não uma solução mágica, (…) mas uma das possibilidades que temos de encarar para responder à escala massiva dos problemas que vêm aí”.

Segundo o arquiteto, a pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia vieram evidenciar a crise dos recursos: “é óbvio que estamos a esgotar os materiais todos com os quais estamos habituados a construir, ou estamos a usar materiais que contribuem para o ecocídio — o último crime reconhecido pelo Tribunal Penal Internacional”.

“Mesmo após a pandemia, aqueles que advogam um regresso ao normal não se aperceberam de que havia aqui uma oportunidade, que a pandemia mostrou bem — até fomos capazes de parar o nosso crescimento económico — para rever como é que fazíamos uma transição justa”.

O autor reconhece que “a Europa de facto advoga” princípios como “uma transição energética, económica e a nível de recursos”, mas “às vezes não é implementado com a rapidez que era necessário”.

“Daí a necessidade de todos poderem contribuir para a mudança”, considera, “e o campo da arquitetura, seguramente, pode ser um dos que tem um papel decisivo”.

Para isso, é preciso recuperar “uma arquitetura mais local, que usa recursos locais”, que podem tornar-se economicamente viáveis através da “inovação tecnológica”.

O caminho é o “regresso à arquitetura orgânica, muito mais inspirada na natureza”, considera.

“Hoje em dia, com as tecnologias digitais que temos disponíveis, é possível fazer imitações da natureza muito mais perfeitas e muito mais dinâmicas do que era possível no passado”.

Há já, relata, “arquitetos que estão a investigar as qualidades estruturais de plantas e a adaptar esses modelos através de inteligência artificial para criar novas estruturas mais resistentes e mais leves no campo da arquitetura”.

Mas até que essas exceções se tornem norma, diz, “tem de haver uma mudança de mentalidades também nos arquitetos, para abraçarem esses caminhos, e não estarem à espera que [as inovações] façam o seu caminho lento”.

“Tem de haver uma certa pressão para que haja essa mudança”, conclui.

Pedro Gadanho é professor convidado da Universidade da Beira Interior e lecionou também, entre 2000 e 2012, na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.

Foi Loeb Fellow na Universidade de Harvard, entre julho de 2019 e junho de 2020, que o ajudou na preparação deste livro.

No campo da cultura, foi curador de arquitetura contemporânea no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque, entre 2012 e 2014, diretor do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa, de 2015 a 2019, e dirigiu a candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura em 2027, de 2020 a 2022.

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