Trata-se de um conjunto de histórias de autores de língua portuguesa emergentes, em que as personagens principais têm identidade ‘queer’ (LGBTQ+), sem que a sua sexualidade e género sejam motivo de opressão ou vitimização, mas apenas outras facetas das personagens, integradas nas suas vidas e agendas pessoais, divulgou a editora.

“Esta antologia surge inserida no movimento que tem trazido maior representatividade à ficção, como possíveis fatores de identificação de uma população que em Portugal (no último estudo conhecido) chega a 10%, percentagem essa que não se vê refletida, nem de perto, no número de personagens retratadas”, adianta.

Segundo Carlos Eduardo Silva, um dos editores da Imaginauta, o maior interesse e abertura para as personagens ‘queer’ tem aumentado a percentagem de representatividade", o que é "especialmente notório nas séries de televisão".

"A ficção especulativa é a literatura do ‘E se...?’ e, portanto, não é de estranhar que seja um dos principais laboratórios de ideias que nos faz refletir sobre nós e sobre o que nos rodeia. E sendo os autores membros da sociedade, também é normal que reflitam nas suas obras o 'zeitgeist' em que vivem", afirma, sublinhando que apesar de ser notória a exploração de personagens ‘queer’ a partir de 1960, por autores como Ursula Le Guin e Samuel Delany, "não se pode dizer que a generalidade dos romances (de ficção especulativa ou não) publicados hoje em dia tenha uma boa representatividade ‘queer’".

Segundo a editora, a principal mensagem que esta edição quer passar é a de que “as pessoas ‘queer’ são pessoas como todas as outras, e no entanto, únicas tal qual como cada um de nós”.

"Lermos sobre personagens com características diversas (sejam elas a nacionalidade, a orientação sexual, a cor de pele, a expressão de género, o estatuto social, a neurodiversidade...) faz-nos compreender que o mundo não se divide em pessoas 'padrão' e os 'outros'. Todos somos 'o outro' aos olhos de alguém. Não acho que seja a função da antologia doutrinar alguém, mas antes abrir uma janela para seis histórias com protagonistas ‘queer’ e convidar os leitores a espreitar", afirma Carlos Eduardo Silva.

Na opinião do responsável, ao ler histórias, o leitor vive na pele de outras pessoas, vê o mundo sob outras perspetivas e, com isso, cria novas maneiras de pensar e aprende sobre empatia, o que lhe permitirá perceber e respeitar as motivações, concordando ou não com elas.

Por outro lado, haver uma maior variedade de características que faça com que mais gente se possa sentir retratada torna as narrativas mais interessantes e democratiza o sentimento de pertença, considera.

“Com a liberdade que só a ficção especulativa dá, esta antologia atreve-se a construir histórias que desafiam a capacidade de imaginação do leitor, levando-o a visitar outros mundos, outros futuros e realidades alternativas em que existem pessoas com sexualidades e géneros de todos os tipos”.

Uma das tradições deste género literário é a criação de narrativas mais fortes acerca dos papéis de género e sexualidade, do que fazem prova livros como “A História de uma Serva”, de Margaret Atwood, “A Mão Esquerda das Trevas”, de Ursula K. Le Guin, ou “Ancillary Justice”, de Ann Leckie, romance não publicado em Portugal, que em 2014 ganhou todos os principais prémios de ficção científica e fantasia.

A Imaginauta considera que esta é uma “antologia necessária em tempos em que a aceitação das pessoas ‘queer’ na sociedade parece querer dar passos atrás”, lembrando a recente tentativa de censura no Brasil de um livro contendo um beijo entre dois homens.

Para compor esta “Antologia Ficção Especulativa Queer”, as histórias foram selecionadas a partir dos contos submetidos à Imaginauta - alguns escritos por autores com contos já publicados, outros por estreantes -, tendo a escolha, principalmente focada na qualidade literária, contado com a ajuda de colaboradores do ‘site’ esQrever.

As histórias desta antologia abordam diversos temas, como o avanço tecnológico face ao fosso entre classes, o oculto e o folclore, os incêndios florestais e as alterações climáticas, um mistério "para lá do tempo e do espaço" encontrado numa discoteca em ruínas, conflitos entre diferentes mundos imaginários e encontros entre dois tempos.

Com introdução de Pedro Carreira, membro da direção da ILGA e fundador do esQrever, este livro conta com histórias da autora de A. M. Catarino, Joana Eça de Queiroz, Inês Montenegro, Marta Afonso, Maurício Lopes Júnior e Nuno R..

A Imaginauta é uma micro-editora especializada em ficção especulativa (ficção que especula sobre mundos que diferem do mundo real, como a fantasia, a ficção científica, ou o horror), que também organiza o Festival Literário Contacto.

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