Fernando Pinho juntou as suas histórias e paixões para criar um projeto que visa mudar a vida das crianças com cancro no Myanmar, na antiga Birmânia. E é assim que surge, em 2015, The Amélia Project Foundation, uma iniciativa que tem como objetivo ajudar estas crianças a chegar ao único hospital pediátrico do país. Internacionalmente, o projeto é conhecido como Please Take Me There.

“A origem do Projeto Amélia tem já cerca de 15 anos, por volta da altura em que o meu irmão foi diagnosticado com leucemia. Eu tinha 27 anos e foi um processo de cinco anos em que estive com o meu irmão a tentar encontrar dadores de medula para o salvar. Ele acabou por ser um dos 35% de crianças que são curadas, na Europa. Na altura, o processo terminou bem e eu continuei a minha vida sem saber que aquilo tinha deixado alguma coisa. Só mais tarde é que vim a perceber. Depois fui para Inglaterra, licenciei-me em teatro, casei, tive uma filha. E foi precisamente quando decidi ficar em casa com a minha filha que decidi aproveitar aquele tempo em que estava fora do meu trabalho para fazer algo de origem humanitária. Naif [ingénuo] como eu era, acabei por chamar Amélia ao projeto, por causa da minha filha, sem saber que as coisas iam evoluir para a organização que hoje temos”, recorda.

No entanto, esta não é a única razão para o nome do projeto. Em 1932, Amelia Earhart foi a primeira aviadora a voar sozinha sobre o Atlântico. Fernando conta que foi esta história que “trouxe simbolismo para o projeto: a forma como o transporte pode mudar vidas”. E é isso que o Projeto Amélia faz.

Fernando passa, em média, três meses por ano no Myanmar. Dedica a sua vida ao projeto e não se vê a fazer outra coisa. Quanto à filha, que tem agora quatro anos, diz que esta “tem consciência do projeto”. E mais: Amélia pergunta muitas vezes quando pode ir com o pai. Honrado, Fernando não hesita: “em breve vou levá-la. Ela sabe exatamente o que eu estou a fazer, tem um orgulho imenso em dizer aos amigos que a fundação do papá tem o nome dela. É bom saber isso. Foi da minha comunhão com ela que tudo isto surgiu. Por isso, sinto-me feliz”, diz.

Na antiga Birmânia, um país com mais de 50 milhões de habitantes, existem inúmeras crianças com problemas oncológicos. As suas famílias não têm como pagar as viagens necessárias até ao hospital que representa a sua única hipótese de cura ou, pelo menos, o alívio da doença. Sem tratamentos, mais de 2700 crianças morrem de cancro. Fernando Pinho refere que as viagens até ao hospital duram cerca de 12 horas. “Há famílias em viagens de três a quatro dias, em média são 24 horas de viagem no total [ida e volta]”.

No terreno está uma equipa que envia relatórios acerca do desenvolvimento das crianças e famílias ajudadas. “Há uma equipa que trabalha junto do hospital. Inclui uma assistente social, um contabilista, um gestor de bases de dados e um médico. Com o que eles relatam, todos os meses escolhemos um ou dois casos que são partilhados com as pessoas que nos têm vindo a ajudar. Assim, as pessoas têm noção do que estão a fazer. Mas, por outro lado, todos os portugueses que estejam interessados em ver as coisas lá também podem ir. Todos os anos organizamos uma viagem em que podem ir connosco e ver o que está a acontecer”, conta o criador do projeto.

O Projeto Amélia, associado à organização World Child Cancer - que ajuda crianças com cancro nos países em desenvolvimento -, oferece apoio financeiro para ajudar as famílias a viajaram para o hospital desde setembro de 2016. No entanto, esta ajuda só é possível com o contributo de todos. Através do site do projeto é possível doar valores que permitem assegurar as viagens: com 24€, uma criança é transportada  para o hospital, por via terrestre, para receber um ciclo de tratamento; com 48€, são efetuados dois ciclos de tratamento, em meses diferentes; tratar uma criança durante um ano custa cerca de 198€, 16,50€ por mês. No entanto, qualquer montante é bem-vindo: estão disponibilizados os dados para transferências bancárias de qualquer valor.

Nos poucos anos de projeto, já são muitas as histórias que existem para contar. Para Fernando é difícil encontrar a que mais o marcou, tal é a intensidade com que vive o Projeto Amélia. Contudo, há situações que se repetem e que são impossíveis de esquecer. “Marca-me muito quando viajo com uma família, quando saem do hospital e regressam a casa com a nossa ajuda. Marcou-me muito uma viagem em que tivemos de caminhar durante horas por pântanos, descalços, com cobras a passar ao nosso lado e chegar à vila - e quando digo vila refiro-me a três ou quatro casas - e descobrir que temos as pessoas todas à nossa espera. Não foram trabalhar, as crianças não foram à escola só para nos agradecer o facto de estarmos a levar aquela família de volta a casa. Isto acontece-me quase sempre que faço estas viagens e isso deixa-me extremamente sensível. Para estas pessoas o que estamos a fazer é tanto e para nós é tão pouco”, confidencia.

À semelhança do que foi realizado no ano passado, começou no dia 31 de março a campanha “24 Horas” no Aeroporto de Lisboa. O objetivo é reunir apoios que garantam o transporte de 500 crianças com cancro - os casos identificados pelo projeto - que vivem em situações de pobreza extrema, recebendo o equivalente a 0,40€ por dia e sem cuidados de saúde.

Quanto à ideia desta campanha, Fernando conta que surgiu há dois anos, quando decidiu viver 30 dias em 11 aeroportos. “O simbolismo era alguém estar fechado dentro do aeroporto à espera de ajuda para chegar a algum lado. No Myanmar é assim. Existem crianças que precisam urgentemente de apoio, que precisam de ajuda, que estão a morrer porque estão em casa e ninguém as leva ao hospital”.

Esta ação de solidariedade estará pelo Aeroporto Humberto Delgado até ao dia 9 de abril, domingo. A iniciativa conta com a participação de atores, cantores, jornalistas e cidadãos anónimos. “Pedimos ajuda a dezenas de figuras públicas e a cidadãos anónimos para contar estas histórias, para que os portugueses saibam que do outro lado do mundo há milhares de crianças que morrem de cancro sem nunca serem vistas por um médico, muitas delas sem nunca descobrirem que tiveram cancro. Têm mortes dolorosas, terríveis”, realça.

No dia 7 de abril está confirmada a presença de Luísa Sobral, compositora da canção vencedora do Festival da Canção. A cantora ficará 24 horas pelo aeroporto, iniciando a sua participação às 20h.

No aeroporto, apenas se divulga a causa e as histórias que lhe estão associadas. “No aeroporto não recolhemos donativos. Por questões de transparência, nós não aceitamos nada em mãos. Só por transferências bancárias, de forma a haver registos. Mas aqui recebemos muitas pessoas, explicamos o que fazemos, fazem-nos perguntas, querem saber como podem ajudar”, explica o criador do projeto.

Em 2016 foram angariados mais de 55 mil euros. Com este dinheiro, cerca de 400 pessoas foram ajudadas no Myanmar, criando-se ainda um fundo de emergência que pode ajudar cerca de duas famílias por dia.

Mas existem mais formas de ajudar as crianças com cancro de Myanmar. “Acreditamos que todas as pessoas conseguem ajudar, mesmo com pouco. Temos a ideia de doar o aniversário, por exemplo. Em vez de terem presentes, as pessoas registam o aniversário no nosso site e pedem aos amigos e à família que vão lá doar algo para a campanha. O ator Joaquim Horta, por exemplo, esteve cá hoje e fez isso. O que acontece é que o aniversariante está a ajudar uma criança durante um ano a chegar ao hospital. É uma forma diferente de ajudar", exemplifica Fernando Pinho.

"Por outro lado, para quem tem mais espírito de aventura, no final de 2018 vamos fazer uma expedição à base do Evereste e também serve para angariar fundos. Quando chegarem lá acima, vão perceber que ajudaram tanto… cada pessoa vai conseguir ajudar cerca de 20 crianças! É um desafio para quem já está mais preparado. E depois temos também outras opções, desde postais de aniversário feitos por nós, até este “24 horas” e o donativo tradicional. No fundo, é encontrar diferentes formas de as pessoas se envolverem”, remata o responsável. Seja qual for a hipótese escolhida, o dinheiro obtido reverte na totalidade para a causa.

A nível nacional e internacional, é o ator Joaquim de Almeida que dá voz ao projeto. Num vídeo, enquanto são apresentadas imagens das crianças e das suas famílias, ouvem-se as histórias e as dificuldades a que estão sujeitas. “Mas o que é surpreendente é que nós podemos resolver esta crise. Nós podemos ajudar estas crianças a viajarem para o hospital, receberem tratamentos e viverem uma vida de esperança, com dignidade”, ouve-se.

Para ajudar à divulgação do Projeto Amélia, vai acontecer, em breve, um concerto no Aeroporto de Lisboa, com a atriz e cantora Sofia Escobar. Além disso, todos os dias, em Inglaterra - onde está sediada a organização -, existem pessoas no terreno a divulgar a iniciativa.

Quanto às figuras públicas que têm passado pelo aeroporto - alguns apenas por umas horas, outros ficam mesmo a dormir por lá -, Fernando afirma que não existem critérios de seleção. “Fazemos convites, as figuras públicas que já estiveram cá voltam e falam com os amigos porque gostaram da experiência e isto agora começa a ser quase orgânico: falam uns com os outros e aparecem”. Mas nem todos os voluntários são famosos. “Quanto aos cidadãos anónimos, temos de abrir inscrições, porque o espaço é limitado e temos sempre muitas pessoas a quererem vir. Abrimos inscrições um mês antes e os primeiros a inscrever-se são os primeiros a vir. Não fazemos seleção porque precisamos da ajuda de toda a gente”, frisa.

Nuno Guerreiro, cantor conhecido por dar voz a Ala dos Namorados, é uma das figuras que dá a cara pelo Projeto Amélia. Ainda com poucas horas no aeroporto, Nuno não esconde a alegria por fazer parte desta causa. “É um privilégio fazer parte de um projeto tão grande e com uma essência tão boa. É de louvar tudo isto! Cheguei até aqui através de colegas que já o tinham feito e que me deram a conhecer o projeto. Apaixonei-me logo e aqui estou. Tenho pena de não poder estar mais tempo, porque vou para o Algarve, se não amanhã estaria novamente aqui, com todo o gosto. Tudo o que pudermos fazer para angariar fundos para estas crianças é extraordinário”, diz.

Quanto ao impacto que tem nas pessoas, frisa o facto de “muita gente perguntar o que se está ali a fazer”. Além disso, ressalta a importância de “divulgar o projeto o mais possível nas redes sociais, de passar a palavra”.

No pequeno espaço do projeto, meia dúzia de cadeiras são o único mobiliário que proporciona o mínimo conforto aos corajosos que ali permanecem. Nuno Guerreiro considera que o stand tem “um ambiente muito giro”. Ali, todos “falam muito sobre o projeto, sobre como ajudar no futuro. Surgem ideias de viagens à Birmânia, para ajudar no terreno”. Pessoalmente, o cantor não esconde o desejo de ir ao Myanmar. “Sou uma pessoa muito ativa fisicamente, gosto de ajudar, de ir sem medo, sem pudor. A palavra mesmo é ajudar, nem que seja com um abraço, ao levar comida, transportar. Somos melhores pessoas ajudando os outros, principalmente as crianças. Quando contribuo para algo assim, a vida corre melhor”, refere.

Pedro Barroso, ator que ficou conhecido pela participação na série juvenil Morangos com Açúcar, ultrapassou as 42 horas no aeroporto. “Nunca tinha passado tanto tempo num aeroporto. Mesmo que tivesse passado, nunca seria nesta perspetiva. Claro que há o cansaço do desafio, mas faz parte. Sente-se aqui uma corrente muito positiva. Passar aqui mais tempo do que aquele que estava inicialmente definido não tem a ver com um desafio pessoal, com superação de algo. A questão das 24h tem uma carga simbólica. O Fernando passou 30 dias em aeroportos! No ano passado não consegui estar presente, mas agora quis perceber como as coisas eram feitas no terreno. Gosto de projetos com continuidade, de projetos que eu entenda e que me façam sentido. Se não me fizerem sentido, se não estiverem de acordo com os meus valores, não resulta. É tudo uma questão de sinergia”, explica.

À semelhança de Nuno Guerreiro, também Pedro tem vontade de ir à Birmânia. “Quero dar continuidade a isto. Quero, mais tarde, ver o que se passa lá. Ser uma figura pública também é ter esta missão de dar voz”, ressalta.

Mas o que é necessário para aguentar tantas horas seguidas no aeroporto? “Quanto menos planeares e quanto mais desapegado de obrigações tu vieres, melhor tu te entregas. As coisas vão-te acontecendo! Vais fazendo publicações nas redes sociais, falas com pessoas, chegam colegas de trabalho, trocas histórias, crias laços. O aeroporto não para. As pessoas chegam aqui com as malas, com um destino, e eu estou a ter a oportunidade de estar aqui parado, neste pequeno salão”.

A rotina no aeroporto acaba por ser igual à de todos os dias. “Faço a minha vida normal, vou à casa de banho. Acordei aqui de manhã e pensei ‘epah, não me posso espreguiçar porque tenho pessoas aqui à volta’, mas dormi três horas! Depois já se pensa ‘que se lixe, preciso é de ir à casa de banho com a bolsinha das coisas, completamente a borrifar-me!’, diz entre risos.

Todo o Projeto Amélia, centrado, de momento, na campanha "24 Horas", é uma aprendizagem. “Aqui geres o cansaço, o sono, as emoções. Tem tudo a ver com o desapego, com deixar as coisas fluírem. É vires para aqui com o coração e partilhares as coisas. Se a tua natureza intrínseca for boa, vais mudando o mundo”, remata Pedro Barroso.

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