Estamos a 4 de dezembro e, fazendo contas, faltam apenas 27 dias para terminar o ano. Neste momento já começa a surgir uma certa nostalgia e ouvem-se as habituais frases: “como é que já estamos em dezembro?”, “o ano passou num instante” e coisas tais. No fundo, pensamos no que queríamos fazer e não fizemos. Ou, por outras palavras, lembramo-nos de Santa Bárbara quando faz trovões.

E é por aí que quero começar, mas não pelo que deixamos por fazer, porque já foi tema ontem. Quero começar por referir o dia de hoje no calendário hagiológico (simplificando o palavrão: dos Santos).  É que hoje é dia de Santa Bárbara, de quem falamos (quer se acredite ou não) quando troveja e, principalmente, quando queremos coisas à última hora — mesmo em cima do acontecimento, como bons portugueses que somos. Mas o provérbio não é agora o mais importante.

Deixe-me contar-lhe rapidamente uma das versões da história de Bárbara, uma miúda bonita que vivia lá para os lados do que é hoje a Turquia. Estão a ver a Rapunzel? A base desta história é a mesma: também a Santa foi trancada numa torre, mas esta por ter demasiados pretendentes. Nessa torre, o pai tinha mandado abrir duas janelas, mas Bárbara pediu mais uma: como se tinha convertido ao cristianismo, três janelas representavam, para a jovem, a Santíssima Trindade. Um dia, Dióscoro percebeu a mudança e, pagão convicto, entregou-a ao governador romano da época. Afinal, não adorar vários deuses era um crime e havia que pagar por isso — mesmo que a "criminosa" fosse a sua filha. Bárbara pagou, e às mãos do próprio pai, que a decapitou. Mas também ele sofreu por isso. Conta-se que, como castigo pela intransigência com que tratou a filha, Dióscoro foi reduzido a pó por um raio. E Bárbara, mártir porque nunca negou Cristo, ficou com o atributo de preservar os devotos da morte repentina (e associada às trovoadas, claro).

E agora pode perguntar, caro leitor, por que raio (olhem que expressão oportuna!) fui buscar a história de Santa Bárbara para aqui. Mais: qual a relação com a atualidade, sendo que hoje até tivemos um dia de sol (pelo menos no Oeste, de onde vos escrevo).

Eu explico. Um relâmpago é por definição, um "clarão súbito e rápido proveniente de descarga eléctrica entre duas nuvens ou entre uma nuvem e a Terra". Por sua vez, logo de seguida vem o trovão, um “ruído estrondoso que acompanha a descarga de electricidade atmosférica”. É algo que nos abana desde o momento em que há luz e até que chega o som. A trovoada mexe connosco nesta história de Bárbara, deixa-nos a pensar se foi ou não uma morte justa e também na força que teve uma simples miúda. Há notícias que têm em nós o mesmo efeito, que nos fazem pensar e tremer face ao que lemos e/ou vemos. E que nos fazem pensar no conceito de justiça. Nesse sentido, quero destacar dois artigos de hoje:

  1. O primeiro é uma história catalogada como desporto, mas eu diria que fala mais de humanidade. É um daqueles abanões fortes. Tyson Fury, ex-campeão mundial de boxe, revelou nas redes sociais que um "completo estranho" lhe bateu à porta de casa para confessar que estava com tendências suicidas. Fury, que também chegou a pensar em cometer suicídio, diz que conseguiu demover o indivíduo das suas intenções. E não só pensa tê-lo feito com sucesso, como ainda acabou por ir fazer uma corrida com ele. É caso para dizer que depois da tempestade vem a bonança. Mas o facto é que nem sempre nos apercebemos que, por vezes, uma vida está apenas dependente de um gesto simples, quase até insignificante. Já tentou mudar a vida de alguém?
  2. O segundo é mais uma notícia no caso que tem vindo a chocar o país: Rodrigo, o bebé sem rosto. Hoje soube-se que o médico Artur Carvalho, obstetra envolvido no caso do bebé que nasceu com malformações graves em Setúbal, tem 14 queixas em averiguação no conselho disciplinar sul da Ordem dos Médicos. Quando começaram as investigações eram apenas cinco casos e, feitas as contas, vão surgindo uns após outros. Não consigo pensar em abanões maiores do que estes 14, mesmo não sendo mãe. O que é justo aqui? Fica também o tema para reflexão.

Para terminar deixo duas sugestões literárias que me remetem para estes temas do aprisionamento: seja em locais, na própria vida ou até a nível ético. É preciso ler a A Metamorfose e O Processo, de Franz Kafka. Quando toca a estas questões tendemos a ser, precisamente, insectos que se vão deixando ficar. Ou entramos num estado de claustrofobia pessoal e também não vamos a lado algum. Vamos tentar alterar isso?

Entre olhar para calendários menos usuais, usar metáforas meteorológicas e recomendar livros, eu sou a Alexandra Antunes e hoje o dia foi assim.

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