Num dos bares do campus da Universidade Católica Portuguesa de Lisboa, a hora de almoço é atribulada e barulhenta. Ouve-se o tilintar dos copos, os talheres a baterem nos pratos e as pessoas falam alto. Mas há ali quem não oiça nada disso. E é para esses que surgiu um projeto inovador que pretende garantir a inclusão social. Sérgio Peixoto é o diretor artístico do projeto Mãos que Cantam e maestro do Coro da Universidade Católica e explicou como tudo isto surgiu.

“Este projeto começou aqui na Católica há cerca de cinco anos. Os surdos eram alunos do curso de Licenciatura em Língua Gestual Portuguesa, que é lecionado pelo Instituto de Ciências da Saúde. O diretor do Instituto, o Dr. Alexandre Castro Palma, com a Professora Dra. Ana Mineiro, a responsável pelo curso de licenciatura, acharam que eles não estavam a integrar-se bem na Universidade. As pessoas nem sabiam que havia surdos aqui e eles estão à nossa volta - ainda há bocado estavam ali sentados. E então perguntaram-me - porque eu dirijo o coro da Universidade, um coro normal, ouvinte - se seria interessante integrá-los de uma forma diferente, através da música. E eu fiquei uma bocado a pensar, porque nunca tinha tido contacto com pessoas surdas, nem familiares, nem amigos, nem nada. Mas achei uma ideia original. E sim, aceitei, e eles também aceitaram a ideia e combinámos um dia e juntámo-nos”, começa por contar.

No entanto, trabalhar com pessoas que não ouvem tem os seus desafios. Além disso, o facto de ser um projeto novo requer começar quase tudo a partir do zero. “Fiz um bocado de investigação antes e não havia nada no nosso país, na Europa havia muito pouco e só agora está a começar a aparecer. Na América, principalmente na América do Sul, havia algumas coisas, mas era muito ligado à Igreja Evangélica e não era bem aquilo que eu queria. Aliás, eu nem sabia bem aquilo que eu queria”, revela.

Mas como é que tudo isto começou, na prática? “Marcámos o primeiro ensaio. Combinei com a intérprete que trabalhava com eles, obviamente, e eu cheguei um bocadinho mais cedo do que ela. Eles [os surdos] já estavam na sala. Entrei e a única coisa que eu consegui dizer foi olá [aceno com as mãos]. Senti, aí, o que é realmente ser a minoria. Numa sala cheia de surdos - sete ou oito surdos a falarem entre si -, eu, o único ouvinte, não consegui comunicar. De repente tive a noção do que é isto tudo, caí em mim e pensei ‘é isto mesmo que eu quero fazer’. No fundo, queremos utilizar a Língua Gestual Portuguesa na sua aceção mais artística e mais extrema e na sua potencialidade infinita, nos seus gestos estéticos e artísticos, e trabalhar isso juntamente com a música, com conceitos musicais. É esse trabalho que temos vindo a desenvolver: trabalhar a música e a Língua Gestual Portuguesa”.

Para Sérgio, “não tinha lógica estar a trabalhar com surdos e não conseguir comunicar”. Foi por isso que começou, também ele, a aprender Língua Gestual Portuguesa. “Estou no segundo nível - são cinco - e não é fácil. Requer muito treino. Mas eu trabalho sempre com uma intérprete do grupo, o que facilita imenso. Estamos a falar de conceitos muito abstratos, que eles não conhecem e que a Língua Gestual não domina. Não é ter uma conversa corrente. Preciso sempre de uma intérprete para ser mais rápido. Agora já é mais fácil, mas no início os ensaios demoravam muito tempo, montar uma peça demorava dois meses. Agora não, porque eles já estão habituados”.

O projeto Mãos que Cantam junta cinco coralistas surdos, o maestro e a intérprete. “Chegámos à conclusão que mais não é sinónimo de qualidade e é muito mais confuso. Este é um número excelente, se assim se pode dizer. Conseguimos abarcar uma série de conceitos e é muito mais fácil. Com muito mais gente a dinâmica e os ensaios - que normalmente acontecem uma vez por semana - seriam mais complicados. Além disso, trabalho com a ‘nata’ da Língua Gestual Portuguesa: a maior parte deles são professores. São surdos que dominam de uma forma superlativa a Língua Gestual Portuguesa, de uma forma académica.

Agora, com a celebração do Centenário das Aparições, o grupo teve um desafio diferente do habitual. Embora cantem todo o tipo de música, é a primeira vez que vão trabalhar em música litúrgica, no sentido de participar numa cerimónia religiosa. “A intérprete que trabalha connosco está ligada ao Santuário de Fátima, trabalha lá como intérprete para os surdos que vão às missas das peregrinações. E surgiu este convite de participarmos também nesta ideia de inclusão de todos nesta cerimónia com a presença do Papa. Fomos convidados para interpretar a música durante a celebração. Nós aqui - principalmente os surdos - estamos a desbravar coisas que nunca foram feitas e conceitos e gestos que nunca foram estruturados. Têm muito a ver com a religiosidade, com os textos litúrgicos”, começa por explicar Sérgio Peixoto.

“O que nós vamos fazer é a oração do Magnificat - que é a oração que Maria fez quando o Anjo lhe disse que estava grávida. São coisas que nunca passaram para o universo dos surdos, estes gestos litúrgicos. Qual é o gesto do Espírito Santo? Qual é o gesto do Magnificat? O que significa ’A minha alma glorifica o Senhor’? A alma tem um gesto, glorificar e Senhor também tem. Vamos então criar um gesto para Magnificat! Há aqui também a criação de gestos que depois são difundidos para os outros surdos por estes coralistas que são conceituadíssimos na comunidade de surdos. Isto é muito importante, porque não é só irmos cantar e apresentar os surdos a cantar. Ou seja, tem a ver com a comunidade surda e com criar gestos para outras coisas, além de gestos litúrgicos, coisa que nunca foi feita e está agora a começar. A oração Magnificat nunca foi interpretada em língua gestual, no mundo inteiro. E, com a presença do Papa, é muito importante porque vai ser transmitida para todo o mundo”.

O entusiasmo de Sérgio por este feito é notório. Durante a celebração do 13 de maio, o grupo marcará presença no final da colunata sul do Santuário e a oração Magnificat será interpretada com o coro do Santuário. “Foi escolhido o Magnificat porque é uma altura da celebração em que há reflexão e não há muita movimentação no pós-comunhão, nem no altar nem na parte da assembleia. É uma altura em que até a própria televisão tem a câmara a mostrar as pessoas ou a estátua da Virgem Maria e não há um destaque quando a música está a tocar. Ou seja, havendo este destaque em Língua Gestual, já há uma coisa diferente. O objetivo é mostrar que conseguimos fazer música e que não há barreiras. Os surdos encontram uma maneira diferente. Nós não podemos direcionar os nossos conceitos e as nossas ideias para lhes mostrar o que é a música. Para eles, ver o mar é música. Tudo o que esteja relacionado com coisas visuais é música. E se eles falam e cantam, é com a língua deles, com a Língua Gestual Portuguesa. Nós fazemos isso com a nossa e eles fazem-no de uma maneira diferente, mas não deixa de ser música”, clarifica o maestro.

As surpresas para esta celebração não ficam por aqui. “Seguiu agora para Fátima uma Ave Maria que nós fizemos com um grupo que se chama Figo Maduro e que é lindíssima. Vamos oferecê-la ao Papa. Mas claro que depois vamos partilhá-la com todos no YouTube e no Facebook, mas só depois do 13 de maio”, revela.

Mãos que Cantam. Música nas mãos e pelas mãos. O objetivo de todos os elementos do grupo é “trazer música com as mãos, não só às pessoas surdas, mas aos ouvintes”. Quanto às reações, variam muito. Sérgio explica que “as pessoas, quando veem este grupo a atuar são surpreendidas e não têm balizas emocionais, não sabem reagir a isto. Há reações muito diversas. Há pessoas que adoram, há pessoas que ficam indiferentes. Depende de cada um. Mas o mais giro é que as pessoas que gostam não conseguem ‘balizar’ essas emoções. Não têm gavetas emocionais para isto. É muito giro ver a reação. Às vezes choram… Porquê? Porque transmitir a música que as pessoas estão a ouvir, através dos gestos, é uma coisa completamente diferente e as pessoas não estão habituadas. É um espetáculo tanto para surdos como para ouvintes. Para ouvintes porque conseguem absorver ainda mais a letra da música e conseguem usufruir de uma aceção estética do projeto. Quanto aos surdos, estes conseguem perceber o que se está a passar num conceito visual diferente e isso é muito importante. É sentir a música, a língua deles, de uma forma rítmica e artística. E é isso que vamos fazer amanhã, com o Papa, em Fátima”, remata.

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