Há uma cena em “Sid and Nancy”, filme sobre a relação amorosa entre Sid Vicious e Nancy Spungen, na qual o músico (interpretado por Gary Oldman) persegue a sua namorada (Chloe Webb) pela rua, imediatamente após a ter agredido, e é brindado com todo o tipo de “mimos” por parte desta, entre os quais se destaca a expressão “menino da mamã”. É, provavelmente, a única cena real num filme que foi posteriormente criticado por John Lydon, vocalista dos Sex Pistols e grande amigo de Sid, como contendo inúmeras imprecisões – sendo óbvio que Hollywood não iria deixar que essas coisas que apelidamos de “factos” se intrometessem numa boa história.

E é a única cena real porque, apesar de toda a sua postura, de toda a sua sociopatia e de toda a mitologia que foi sendo criada em torno de Sid Vicious ele era, no fim de contas, um menino da mamã. Quem o conheceu descreve-o como alguém com um sentido de humor “imbecil”, um “palhacito” adorável, cujas falhas na idade adulta poderão ser explicadas pela infância difícil que teve, na qual a figura materna foi a única constante, desde o nascimento até à sua morte em 1979, fruto de uma sobredose de heroína.

Nascido John Simon Ritchie a 10 de maio de 1957, Sid Vicious é o resultado de um encontro entre John e Anne Ritchie, que se conheceram na Royal Air Force, as forças aéreas britânicas. Com poucos meses de vida, Sid mudou-se para Ibiza com a sua mãe. Aí, aguardaram pela chegada de John, que nunca apareceu. Qualquer psicólogo poderá concluir que foi a falta de uma figura paterna forte na sua vida aquilo que despoletou o que Sid Vicious se viria a tornar: uma figura respeitando a velha máxima de ser “maior que a vida”, para muitos a epítome de um género e de um estilo que provocou ondas de choque que ainda hoje se sentem, o punk rock.

Tal como com muitos outros, o primeiro contacto de Sid com esta subcultura teve lugar em Londres, à porta da SEX, a loja de roupa detida pela estilista Vivienne Westwood e pelo empresário Malcolm McLaren. A sua alcunha partiu de Lydon, então (ou sempre) conhecido como Johnny Rotten, cujo hamster (de seu nome Sid, em homenagem a Syd Barrett, dos Pink Floyd) mordeu certa vez John Simon motivando o comentário: Sid is really vicious! Foi com essa nova identidade que o rapazinho descrito como “extremamente atraente” e “envergonhado” acabaria por marcar, de uma forma indelével, o punk.

Os Sex Pistols eram então um talento, ou uma falta dele (era essa a piada), emergente. Mas a sua entrada no quarteto aconteceria ligeiramente mais tarde. Antes disso, fez parte dos Flowers of Romance, juntamente com Keith Levene, guitarrista que acabaria a formar uma banda com Lydon, os Public Image Ltd., e com Palmolive e Viv Albertine, dois dos membros das Slits. O primeiro momento de glória em palco aconteceu no mítico festival que teve lugar no 100 Club, em Londres, e que durante dois dias apresentou ao mundo, sem este saber, a sonoridade punk rock. Aí, Vicious atuou como baterista dos Siouxsie and the Banshees, num concerto que foi mais happening que espetáculo musical; sem ensaios e sem saber tocar o que fosse, Vicious limitou-se a acompanhar Siouxsie Sioux numa “interpretação” da Oração do Senhor, vulgo Pai-Nosso...

A “santificação” do seu nome começaria, também, nesse festival. Furioso com os Damned – uma das primeiras bandas punk do Reino Unido, que chegaram a considerá-lo para o lugar de vocalista – Sid arremessou um copo para o palco enquanto a banda tocava, acertando num pilar; os cacos atingiram uma rapariga, que ficou cega de um olho. O lado mais violento da sua personalidade começava a vir à tona. Mas foi também esse lado, ou sobretudo esse lado que, para o bem e para o mal, fez dele – para muita gente – a epítome do punk. Ao contratá-lo para os Sex Pistols, para o lugar do baixista Glen Matlock, disse McLaren que «se Johnny Rotten é a voz do punk, Vicious é a atitude».

Sex Pistols, 1977 (E - D) Paul Cook, Sid Vicious, Johnny Rotten e Steve Jones | créditos: Arquivo AFP

De facto, em termos de “atitude”, Sid Vicious era imbatível. Não só pelo seu aspeto físico: o cabelo espetado e desgrenhado, a boca num esgar desafiante e perpétuo, o preto das suas roupas (ocasionalmente pontuado por uma velha tática de choque punk: suástica sobre fundo vermelho, numa braçadeira), os inúmeros cortes nos braços, a corrente ao pescoço presa com um cadeado, mas também pelo facto de, pura e simplesmente, não saber tocar baixo. Em época punk, que foi também época de reação aos momentos mais obtusos e balofos do rock n' roll, em especial ao rock progressivo, “saber tocar” era quase anátema – mas Vicious levou-o a níveis extremos. Aliás, em “Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols”, álbum de estreia – e o único – da banda britânica, o baixo que se escuta (exceção feita a 'Bodies') não é o de Vicious, mas sim o de Steve Jones, guitarrista.

Foi durante as gravações do álbum que surgiu na sua vida a figura que haveria de o conduzir à ruína – e que, pela forma como o controlava, se pode também apelidar de “figura materna”: Nancy Spungen, groupie norte-americana que aterrou em Londres e que foi descrita, ao longo da infância, como “temperamental” e “violenta”. Terá sido Spungen – para muitos, a mulher que levou o músico para “maus caminhos” – a mostrar a Sid Vicious o “prazer” (mas sobretudo a agonia) da heroína. Não que Sid não fosse já versado em drogas; Jah Wobble contou que, certa vez, foi a casa de Vicious e viu-o a “chutar” speed mesmo ao lado da mãe, que se deliciava com uma injeção de heroína. Tinha apenas 16 anos...

Com os Sex Pistols a serem notícia em todos os jornais, com críticas vindas de todos os quadrantes de uma sociedade que preferia a “segurança” e a “normalidade” aos putos que só pareciam ter prazer na destruição e no niilismo, Vicious seguiu com a banda para os Estados Unidos, participando numa digressão que acabou por conduzir ao fim da banda, com as palavras imortais de John Lydon num concerto em São Francisco: «alguma vez se sentiram enganados?». Era o culminar de uma história que os próprios viam como honesta, mas que para todos os efeitos era fabricada – fruto da mente perversa de Malcolm McLaren e da sua vontade em chocar a burguesia, inspirado pelos Situacionistas dos anos 60.

O argumento de que os Pistols não foram mais do que uma boys band (com excelentes canções rock: 'God Save the Queen', 'Pretty Vacant' ou 'Anarchy in the UK', só para enumerar algumas) faz algum sentido, e vai de encontro à ideia de que tudo naquela banda foi plástico, imaginação de um único homem que depois se fartou e se voltou para o hip-hop. Mas isso não quer dizer que não fossem compostos por pessoas “honestas”: Lydon, claro, mas sobretudo Sid, cujo único objetivo na vida era apenas o de se “divertir”, sem querer saber daquilo que se encontrava à sua volta. Sid Vicious tornou-se famoso não só porque era o look punk, mas também porque era a sua personalidade; era o amigo bêbado e pateta que fazia asneira constantemente e que nos insultava, ou que poderia partir a dado momento para a violência, e o qual não conseguíamos abandonar pelo simples motivo de que mantinha longe a apatia. Era um adolescente comum, igual a tantos outros adolescentes comuns: farto do mundo, numa procura constante pela próxima injeção de adrenalina.

O fim dos Sex Pistols não significou o fim da carreira “musical” de Sid Vicious, que pôde então dedicar-se àquilo que muitos viam como a sua verdadeira força: a voz. Em 1978, editou uma das versões mais improváveis da história do rock n' roll, o clássico 'My Way', popularizado por Frank Sinatra, em toada – naturalmente – punk. Canção essa que, vistas bem as coisas, assenta nele que nem uma luva: tudo quanto Sid fez, fê-lo à sua maneira, com a ajuda de Nancy Spungen, que se tornou sua “manager”.

Ainda que tenha dado alguns concertos pelos Estados Unidos, sobretudo no Max's Kansas City, icónica sala de espetáculos nova-iorquina, a carreira a solo de Sid Vicious acabou por não descolar. E foi-lhe colocado um ponto final de forma abrupta a 12 de outubro de 1978, quando Nancy Spungen foi encontrada morta na casa de banho do quarto que o casal partilhava no Hotel Chelsea, em Manhattan, após ter sido esfaqueada no abdómen. Até hoje, não se sabe ao certo o que se terá passado nessa noite; tudo aponta para que uma discussão entre ambos (e as discussões eram recorrentes) tenha acabado de forma trágica. Vicious acordou na manhã seguinte, mal refeito de uma ressaca de heroína, sem memória de ter assassinado Nancy, dando relatos contraditórios às autoridades; confessando primeiro o crime, “sem malícia”, depois dizendo que não se recordava ao certo de a esfaquear, e terminando com um “ela caiu em cima da faca” - que era sua.

Este momento terá sido para o punk aquilo que o festival de Altamont, em 1969, foi para o sonho hippie. Nesse evento, um membro do público foi, também ele, esfaqueado por um elemento dos Hell's Angels durante um concerto dos Rolling Stones, pondo fim à ideia de que tudo na cena hippie era “paz e amor”. Tal como então, a violência da morte de Nancy Spungen mancharia para sempre o punk; deixava de ser rebelião para passar a significar, apenas, o perigo. A sua figura maior era, agora, meramente um assassino.

Enquanto o caso era investigado pela polícia, Sid Vicious envolveu-se numa altercação com Todd Smith, irmão da artista e poetisa Patti Smith, sendo detido e enviado para a prisão de Rikers Island. A 1 de fevereiro de 1979, foi libertado sob fiança, com esta a ser paga pela Virgin Records, de Richard Branson. A sua libertação motivou festa grossa: nessa noite, amigos e família do músico juntaram-se num apartamento em Manhattan, com Vicious já a pensar no futuro – carreira solo, sucesso, uma vida em condições e longe do pesadelo.

Na prisão, tinha conseguido deixar a heroína. Mas, nessa mesma noite, terá pedido a um amigo seu, fotógrafo, que lhe entregasse alguma (a mãe do músico diz ter sido ela mesmo quem a forneceu e quem a administrou a Sid Vicious). No dia seguinte, 2 de fevereiro, o seu corpo era encontrado no quarto do apartamento em questão, vítima de uma sobredose. Acidental ou premeditada, também é difícil dizer; relatos apontam para que Vicious nunca tenha mostrado quaisquer tendências suicidas, mas outros dizem que ele sabia de antemão que iria morrer aos 21 anos. Acertou: faleceu a três meses do seu 22º aniversário. O legado que deixou no punk, contudo, permanece imutável. Todos quantos seguem o estilo, mais que a música, devem algo a Sid Vicious. E todos os que procuram escapar à indolência do trabalho diário têm nele uma espécie de guru: viveu como quis, o quanto quis, sem responder perante ninguém. Não se pode apagar a tragédia que se terá passado naquele quarto, mas também será impossível esquecer o homem em si – o “pateta” que virou estrela rock sem ter pedido nada e sem lhe ser pedido nada que não ser ele próprio.

(Artigo corrigido às 11h43: Corrige na frase “mantia longe apatia” para “mantinha longe a apatia”.)

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