Estes marcos de sinalização não são exclusivos do Parque Nacional da Peneda Gerês (PNPG), mas encontram-se aos “milhares” nos seus 70 mil hectares, “existindo desde que há ocupação do território”.

Montadas pelos pastores, as pirâmides de pedras indicavam o caminho, na “serra alta” quando as condições climatéricas de apresentavam adversas. Também sinalizam o caminho até às vezeiras que, por norma, decorrem entre maio e setembro. Uma prática comunitária de pastoreio, em que cada pastor guarda à vez o rebanho de toda a aldeia.

Com o abandono da atividade e o aumento, nos últimos anos, do turismo de natureza no Parque Nacional da Peneda Geres (PNPG), a “sinalética natural” dos pastores, apesar de meios mais modernos de sinalização, continua a ser usada por visitantes, amantes de caminhadas ou em provas desportivas.

Pedra sobre pedra, as mariolas têm vindo a resistir a ventos e tempestades, mas o desconhecimento de alguns ameaça a sua verdadeira finalidade.

Dario Lima, pastor de Arcos de Valdevez, nunca precisou de se socorrer dos “castelinhos”, como chama às mariolas.

“Nunca me desorientei. Conheço bem os montes e dei sempre com o caminho”, atirou.

Com uma "uma vida inteira" dedicada à criação e ao pastoreio de gado pelos montes de Gondoriz, só no verão é que Dario leva as cabras e as vacas de raça cachena à “serra alta”, no Mezio. Encontra várias mariolas pelo caminho e muitos visitantes fascinados pelas construções rudimentares.

“Até tenho visto gente a tirar fotografias às mariolas”, adiantou.

Já Manuel Gomes, da Ermida, em Ponte da Barca, perdeu o rumo “uma vez”, por causa do nevoeiro.

“Topei uma mariola, e fiquei logo a saber onde estava”, afirmou.

O autarca da aldeia, Francisco Lopes, defensor da cultura local, não poucas vezes oferece-se como voluntário para manter os trilhos transitáveis e conservar as mariolas.

Na Serra Amarela, “há bastantes, algumas que o tempo destruiu e que as pessoas que têm o gosto em caminhar reconstruíram”.

Francisco lamentou o aparecimento, junto de ribeiros e lagoas, de novas estruturas de pedras “empilhadas por pessoas que acham piada”.

Na área do PNPG, em zonas onde a cobertura da rede móvel é fraca, as mariolas desempenham uma “importante função” na orientação de caminheiros e turistas.

“É frequente vermos pessoas que acedem a trilhos através de aplicações móveis, aventurando-se na serra, sem conhecer o terreno. Muitas vezes, ficam sem rede ou bateria nos telemóveis, desorientam-se e lá vai a equipa de socorro para as resgatar”, disse.

Os marcos centenários são uma ferramenta importante na vida profissional de Cláudia Fernandes. A jovem de Arcos de Valdevez tem uma empresa de animação turística que orienta muita da sua atividade de lazer pelas mariolas.

Em dias de nevoeiro, ou quando há dúvidas no caminho certo, “a mariola é um suporte físico de grande ajuda e garantia de segurança”.

“Há muitos trilhos que estão marcados por sinalética própria, mas muitas vezes vemos mais rapidamente uma mariola do que a marca no terreno que, por vezes, está tapada por vegetação”, explicou a empresária.

Cláudia Fernandes opera na área do concelho de Arcos de Valdevez integrada no PNPG e aproveita os passeios com visitantes para “informar e sensibilizar” para a importante finalidade das mariolas.

A guia critica quem, “por moda”, cria “amontoados de pedras” para fotografar e publicar nas redes sociais.

“Além de prejudicarem a orientação, os amontoados feitos, desnecessariamente, têm impacto na biodiversidade. As pedras usadas, quando na sua posição natural, serviam de abrigo a pequenas espécies”, alertaram.

O aviso é repetido por Sónia Almeida. A administradora-delegada da Adere/Peneda-Gerês (Associação de Desenvolvimento de Desenvolvimento Regional) referiu que os “amontoados de pedras” têm vindo a surgir, sobretudo, em zonas mais turísticas do parque, como cascatas e lagoas, afetando a fauna e flora desses territórios.

“Infelizmente é uma prática que tem vindo a aumentar, não só em áreas protegidas, como nas praias. Há casos de amontoados de pedras para identificação, por exemplo, de espaços de meditação”, criticou.

Criado há 51 anos, o PNPG atravessa 22 freguesias, situa-se no extremo noroeste de Portugal, na zona raiana entre Minho, Trás-os-Montes e a Galiza, atravessando os distritos de Braga (Terras de Bouro), Viana do Castelo (Melgaço, Arcos de Valdevez e Ponte da Barca) e Vila Real (Montalegre), tendo uma área total de 70.290 hectares.

Constitui, juntamente com o Parque Natural da Baixa Limia/Serra do Xurés, na Galiza, o Parque Transfronteiriço Gerês-Xurés e, em conjunto com esse parque natural espanhol, integra, desde 2009, a Reserva Mundial da Biosfera.

A modelo de cogestão do PNPG, foi iniciada em 2010, entre ICNF, o Fundo Ambiental e a ADERE-Peneda Gerês, organização que desenvolve a sua atividade nos municípios integrantes deste território - Arcos de Valdevez, Melgaço, Montalegre, Ponte da Barca e Terras de Bouro.

Integra também uma instituição de ensino superior, uma associação de defesa do ambiente e outros atores de relevância local.

* Por Andrea Cruz, da agência Lusa

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