O Novo Atlas da Língua Portuguesa tem menos de três meses de publicação, tendo sido apresentado em novembro de 2016 pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. Trata-se de um livro editado em parceria entre o ISCTE e o Instituto Camões mas cuja ideia nasce de outro trabalho publicado em 2012 intitulado “Potencial Económico da Língua Portuguesa”. Em comum têm um autor, Luís Reto, reitor do ISCTE, que nos explica as razões pelas quais devemos prestar atenção à "afirmação internacional da língua portuguesa".

Quando e porquê foi decidido editar o Novo Atlas da Língua Portuguesa?

Luís Reto – Isto nasce de um projeto que vem de um livro anterior, o “Potencial Económico da Língua Portuguesa”, e no interregno de um outro. Depois de termos recolhido bastantes indicadores, percebemos que faltava aqui um livro diferente, que é um bocado um livro de apresentação e divulgação da língua, mais do que um livro tradicional. Foi pelo levantamento de muitos indicadores que estávamos a fazer para um segundo livro sobre a economia política da língua que surgiu a ideia de fazer este atlas, mas focado muito numa apresentação atraente e graficamente interessante, com um conjunto de indicadores e com uma perspetiva de apresentar a língua tanto ao nível nacional como ao nível internacional. E é por isso mesmo que ele é bilingue, em português e em inglês.

Quais as principais alterações no mapeamento da língua portuguesa que este livro apresenta?

Luís Reto – Mais do que alterações é uma atualização de dados sobre o ensino da língua. Nós fizemos uma colaboração com o Camões e a Embaixada do Brasil e tentámos fazer um mapeamento dos dois países que neste momento estão mais envolvidos na difusão internacional da língua portuguesa, Portugal e o Brasil, e ver como tem crescido a rede do Instituto Camões e a Rede Brasil Cultural. Demos ênfase a essas duas redes, onde estão, que sobreposições têm, e à dimensão do ensino do português nos dois países que são as duas grandes potências globais neste momento: os Estados Unidos e a China.

Não sendo [o português] uma língua no primeiro ou no segundo lugar em termos mundiais, acontece que tem uma prevalência maior nas redes sociais do que o seu peso natural

Como se espelha a língua portuguesa nas novas plataformas de comunicação (Facebook, Twitter, Blogspot, etc)?

Luís Reto – É muito interessante que, não sendo uma língua no primeiro ou no segundo lugar em termos mundiais, acontece que tem uma prevalência maior nas redes sociais do que o seu peso natural, em que normalmente está em quarto ou quinto. Mas em algumas dimensões das redes sociais, no Twitter ou no Facebook, aparece posicionada em segundo ou terceiro. Ou seja, existe um crescimento recente da língua nas redes sociais que é quase exponencial, e em determinadas plataformas ocupa entre o segundo ou o terceiro lugar, com relevo para o Twitter. E olhe, a cidade de São Paulo é a terceira ou quarta cidade no mundo que mais tweets tem, e são em português.

De acordo com a informação divulgada em 2100 existirá mais gente a falar português em África do que no Brasil: serão perto de 500 milhões no mundo, quase o dobro de hoje. 

Luís Reto – O continente africano é o único continente que neste momento está crescer em termos demográficos de forma acelerada. Começou a haver reduções de crescimento, na Europa há muitos anos, nos Estados Unidos também, com o envelhecimento da população e com uma taxa de natalidade mais baixa. A Ásia ainda tem crescimento nalguns países mas noutros está em decréscimo, aliás a China inverteu agora a política do filho único precisamente por causa disso. Mas a África é o continente que mais cresce em termos demográficos. Temos uma série de países que falam português em África, Cabo Verde, São Tomé, Guiné, Moçambique e Angola, principalmente estes dois últimos. Ora as projeções das Nações Unidas sobre a demografia desses países são de um crescimento enorme. E portanto serão países que, se não houver nenhuma catástrofe e se continuarem a ter as taxas de natalidade atuais, serão países em que se ultrapassará, só em Angola e Moçambique, o número de duzentos milhões de pessoas. E assim teremos uma deslocação da força da língua portuguesa do Brasil para África, ficando mais ou menos equiparadas.

As grandes línguas em África serão três, o inglês, o português e o árabe.

Que impacto terá essa alteração na língua? 

Luís Reto – Este é um fator muito importante do ponto de vista geoestratégico, porque as grandes línguas, em termos de línguas maternas, são concentradas. A mais concentrada é o mandarim, falada na China e naquela região. Mas mesmo o inglês, como língua materna, é concentrada no Reino Unido, Estados Unidos e Austrália. Noutros países também é língua oficial mas não é língua materna. No caso do espanhol é a mesma coisa, com uma concentração enorme num único continente. Quanto ao português, e essa é uma riqueza da língua portuguesa, é a sua dispersão geográfica pelos cinco continentes, particularmente por via de dois fatores. Um são as diásporas. Nós temos diásporas gigantescas comparadas com a população que temos. A maior em termos percentuais é a cabo-verdeana, depois a portuguesa, depois as outras são mais pequenas, mas estão espalhadas pelos cinco cantos do mundo. Por outro lado o português como língua materna, tendo o Brasil como grande suporte, será uma das três línguas mais importantes de África já em meados deste século. Uma língua com muita importância que havia em África, o francês, tenderá a diminuir a importância por causa da arabização crescente no sistema de ensino dos países que falavam francês, quase todos países árabes. Portanto, grandes línguas em África serão três, o inglês, o português e o árabe.

Que ações concretas deveriam ser estimulada e desenvolvidas antevendo este cenário?

Em termos de ações a desenvolver, há duas dimensões. A primeira é uma dimensão de ensino. Há grandes carências de professores de português em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé, em Cabo Verde menos, pelo que tem de se fazer um grande esforço, particularmente pelo Brasil e Portugal, de cooperação com os PALOP, para uma boa alfabetização em português e na construção de suportes pedagógicos e didáticos para esses públicos. Temos de fazer isso rapidamente. Os meios de comunicação social hoje são uma maneira de alfabetizar, de difundir a língua. Mas em termos de estrutura real da língua e de conhecimento da língua, o grande desafio que devia ser uma das prioridades da CPLP é dotar esses países africanos de uma rede grande de formação de professores, de disponibilidade de ensino de português em e-learning e de construção de materiais pedagógicos que cumpram as regras da grafia oficializada e do acordo ortográfico. Isto ao nível imediato.

A outra dimensão é a geoestratégica. É cada um dos países africanos começar a ter uma conquista progressiva de influência nas organizações regionais e internacionais em que está presente, bem como nos países vizinhos.

Para além de ser uma língua franca, onde hoje o inglês é mais dominante é na publicação científica. E isso causa vários problemas

Como se promove hoje o património da língua face à hegemonia de uma língua dominante - o inglês - e ao impacto crescente do mandarim?

Luís Reto – Aqui também temos duas dimensões. Uma é o português enquanto língua de ciência. Para além de ser uma língua franca, onde hoje o inglês é mais dominante é na publicação científica. E isso causa vários problemas, porque ao publicarmos em inglês estamos a alimentar o domínio das editoras. Nós temos mais dificuldade para publicar em inglês porque não é a nossa língua materna e temos muito mais intermediários até chegarmos às grandes revistas. Aqui eu acho e tenho defendido que tem de haver uma aliança entre o português e o espanhol. Como estas duas línguas têm um elevado grau de intercompreensão, nomeadamente ao nível escrito, eu acho que devia haver uma política sistemática dos estados iberoamericanos de publicação de revistas e artigos científicos bilingues. Ou seja, se as revistas em espanhol citarem sistematicamente artigos em português e vice-versa, nós somos capazes de ter a maior comunidade linguística mundial. Ao termos esse movimento seremos capazes de forçar os autores que apenas leem em inglês a começarem a aprender português ou espanhol para lerem os artigos das nossas comunidades científicas. Este é um projeto estratégico de médio e longo prazo, mas que pode levar à construção de uma indústria de conteúdos em português e espanhol, para não ficarmos apenas nas mãos dos holandeses e dos americanos. Isto envolve portanto uma estratégia muito sistemática e persistente de apoios e políticas públicas para produção de conhecimento em português e espanhol. Porque se juntarmos as duas comunidades com esse elevado grau de intercompreensão temos uma comunidade de falantes maior do que a comunidade do inglês.

A outra dimensão tem a ver com o mandarim, que vai ser uma língua que se vai impor, por causa do peso económico da China. Porque as línguas, para se tornarem globais, têm de ter pelo menos uma de duas características: línguas de comércio e de conhecimento. O inglês, hoje, tem as duas. O mandarim ainda é basicamente uma língua de comércio. Irá evoluir mas terá sempre duas dificuldades: por um lado é difícil, por outro será sempre regionalmente concentrada. Se juntarmos o espanhol e o português teremos possivelmente o mapeamento mais global ao nível de uma comunidade linguística. Não estou a dizer que deixemos de publicar em inglês, porque isso é fundamental para competirmos em termos mundiais. Mas não devemos ter uma veneração tão grande pelo inglês como temos hoje e devemos conseguir fazer um equilíbrio entre o que é fundamental publicar em inglês e o que devemos começar a publicar em português.

A língua portuguesa é mais forte do que a geografia

Se tivesse de escolher os dados fundamentais para compreender este atlas da língua portuguesa, quais escolheria?

Luís Reto – Aí vão eles:

  • A primeira questão interessante é a taxa de progressão do português do século XV até agora. Só existia um milhão de pessoas em Portugal no século XV, hoje há 260 milhões de pessoas que falam português. Foi a que teve maior crescimento mundial neste período, aumentou 260 vezes. Comparando com o mandarim, eram 103 milhões e passaram para mil e trezentos milhões, cresceram treze vezes. O espanhol e o inglês também cresceram muito menos do que o português, porque já tinham populações muito maiores do que Portugal. E o português vai continuar a ser das que mais crescem, por via das projeções de crescimento para África.
  • Há um conjunto de recursos que os países da CPLP têm e que outros países não têm. O mais importante é a água doce. Temos 16,5% das reservas mundiais de água doce, para uma população de 3,8% da população mundial.
  • Outra enorme potencialidade económica está nas plataformas marítimas continentais e as respetivas Zonas Económicas Exclusivas. Isto porque nenhum país da CPLP é interior, todos têm costa marítima, o que decorre da forma como os portugueses fizeram os descobrimentos marítimos e a colonização. Isto traz vantagens para a pesca mas também para a exploração de todos os recursos biológicos e minerais marinhos.
  • A CPLP é fundamentalmente uma comunidade de povos, muito mais do que uma comunidade comercial. Isto apesar de haver muitas trocas comerciais internas, com uma quota até maior do que seria expectável perante as distâncias geográficas. Aliás, essa é outra característica, a de nenhum país da CPLP ter fronteira com outro país da CPLP. E por isso dizemos no livro que “a língua portuguesa é mais forte do que a geografia”. Mas as trocas comerciais, apesar de significativas, são muito menores do que as trocas de pessoas. E esses movimentos de mobilidade das pessoas, seja por turismo, negócio, emigrações ou imigrações, estão também espelhados no Atlas e são muito significativos. E assim, existe um potencial de crescimento da vertente económica dentro da CPLP.

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