Daniel Knupp, médico e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), criticou as ações do Governo no combate ao novo coronavírus, detetado pela primeira vez no Brasil em 26 de fevereiro do ano passado.

“No início da pandemia, o Ministério da Saúde deu uma resposta adequada dentro do que se sabia à época, mas desde que trocou a primeira composição do ministério [com a demissão do ex-ministro Henrique Mandetta, em abril de 2020] a resposta tem sido desastrosa”, avaliou.

“Especialmente no Governo e no Ministério da Saúde a resposta está sempre um passo atrás ou indo na contramão como quando defendem o tratamento precoce [uso de um conjunto de remédios como a cloroquina sem eficácia comprovada contra a covid-19] e na falta de ênfase em promover medidas que podem auxiliar de facto o combate à pandemia, como o distanciamento social e o uso de máscara”, acrescentou o médico.

Domingos Alves, especialista em modelagem computacional e membro de um grupo de cientistas da Universidade de São Paulo (USP) que recolhe e analisa dados da pandemia, também entende que as autoridades não apresentaram uma resposta adequada à pandemia.

“O Governo brasileiro e os 26 governadores [dos estados] não tiveram uma resposta eficiente para a crise” e “as medidas foram tomadas sempre de maneira paliativa, sem tentar quebrar a cadeia de transmissão do vírus”, afirmou.

Alves explicou que houve uma redução significativa no número dos testes RT-PCR realizados no Brasil a partir de setembro e, por isso, mesmo as autoridades que defendem testagem em massa nos seus discursos na prática não conseguiram travar a transmissão do vírus nem acompanhar as suas transformações.

Uma das mutações do vírus deu origem à variante brasileira ou P1, descoberta no Japão em amostras recolhidas em dois viajantes que estiveram em Manaus, capital do estado do Amazonas, que gera preocupação porque apresenta características semelhantes às mutações de estirpes mais infecciosas do novo coronavírus no Reino Unido e na África do Sul.

“O Brasil tornou-se o melhor laboratório a céu aberto para o vírus”, disse.

O especialista previu que o Brasil poderá chegar à marca dos 300 mil mortos no espaço de um mês “se a taxa de mortalidade diária permanecer” acima dos mil mortos.

Para Knupp, outra característica relevante da pandemia no Brasil foi a polarização política e a sua influência no comportamento da população.

“De um lado a gente via e vê pessoas respeitando o distanciamento social, importando-se com a sua saúde e a dos outros, procurando adotar medidas para se proteger, como o uso de máscara e, de outro, a gente via e vê pessoas que não dão a mínima e acham que a pandemia é uma invenção, uma teoria da conspiração”, destacou o médico.

Um grupo liderado pelo Presidente, Jair Bolsonaro, adotou uma atitude negacionista, enquanto outro bloco composto pela oposição, cientistas e especialistas defendeu medidas de distanciamento social, máscaras e a vacinação obrigatória.

A polarização incentivou a disseminação de notícias falsas e teorias da conspiração, incluindo campanhas promovidas por grupos anti-vacinas e defensores de tratamentos com medicamentos como a cloroquina, cujos efeitos não foram comprovados.

A crise sanitária também afetou a economia, provocando a falência de empresas, paralisação da indústria, fecho do comércio não essencial e milhões de desempregados.

Arthur Igreja, especialista em finanças, inovação e professor convidado da Fundação Getúlio Vargas (FGV), referiu que a pandemia permitiu ver “o quanto uma economia desigual num país desigual penaliza a sociedade”.

“Em muitos países as pessoas foram fazer teletrabalho na pandemia e, aqui, isto causou um problema gigantesco porque os trabalhadores informais, os desamparados, não tinham opção e começámos a ver a economia colapsar”, explicou.

O especialista observou, porém, alguns aspetos positivos, especialmente o choque de digitalização sem precedentes dentro das empresas.

Arthur Igreja avaliou que Governo colocou em prática uma política económica heterodoxa e correta ao adotar medidas de renúncia fiscal e o pagamento de um apoio de emergência aos mais pobres, mas estes acertos acabaram eclipsados pela política negacionista do Presidente e a lentidão na aquisição das vacinas.

“Agora o Brasil terá de se endividar ainda mais porque o problema em si não é tratado”, e a vacinação decorre “a conta gotas”.

“É curioso ver o discurso [do Governo dizer que quer] retomar a economia, mas a estratégia, a tática é a pior possível se levarmos em conta o que é necessário para reativar a economia”, concluiu.

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