A Cidade Maravilhosa, icónica, porém mal tratada, deseja brilhar a partir de 5 de agosto, quando se tornará a primeira cidade olímpica da América do Sul. Algumas melhorias já são visíveis - seja em alguns estádios, na construção de uma via que atravessa a principal avenida do centro da cidade e vai até ao aeroporto doméstico, em grandes projetos de transporte que incluem rotas expresso de autocarro e uma nova linha de metropolitano.

"Vamos dar mil voltas em Barcelona", afirmou no ano passado um confiante presidente do município do Rio, Eduardo Paes. Mas a ambição parece desmedida nesta cidade em grande parte pobre e violenta, que sofre com engarrafamentos constantes e uma espetacular, porém poluída baía, onde serão realizadas as provas olímpicas de vela.

Transporte para todos?

Quando a tocha olímpica se apagar a 21 de agosto, o Rio contará com um sistema de transportes ampliado, que permitirá incrementar a percentagem da população que usufrui destes serviços de 38% para 66%. Uma extensão de 16 km da linha de metro ligará em 13 minutos os turísticos bairros de Ipanema e Copacabana à Barra da Tijuca, uma viagem que antes podia demorar mais de uma hora durante as horas de ponta no trânsito infernal da cidade. "Será o maior legado dos Jogos Olímpicos", declarou o subsecretário de Transportes do Rio, Bernardo Carvalho.

Se terminada a tempo, a nova linha 4 transportará 300 mil pessoas por dia e impulsionará a retirada de circulação de 2.000 carros por hora durante a hora de ponta. O metro estará integrado com um sistema de autocarros com 59 km de vias exclusivas e estima-se que cada unidade retirará 126 carros de circulação. Contudo, o crítico Comité Popular da Copa e das Olimpíadas considera que o novo sistema beneficia principalmente os bairros mais abastados e ignora quem mais precisa, a população mais humilde. Com mais de 4.000 famílias desalojadas das suas casas devido às obras olímpicas, na maioria em zonas de forte especulação imobiliária, o comité acredita que um dos legados dos Jogos será uma cidade "mais segregada".

Elefantes brancos?

O presidente do município do Rio garantiu que os ginásios, campos e piscinas não acabarão por tornar-se "elefantes brancos", como aconteceu com muitos dos estádios do Mundial de Futebol de 2014. Duas das instalações do parque olímpico foram construídas seguindo o modelo da "arquitetura nómada": a área de basquete será desmontada e transformada em quatro escolas públicas, enquanto o parque aquático será dividido em dois centros de natação. Das instalações fixas, um dos ginásios tornar-se-á uma escola experimental desportiva e o outro um centro de treino de alto rendimento. O parque olímpico de Deodoro ficará disponível para 1,5 milhões de pessoas de uma das zonas mais pobres da cidade.

Com a economia em sérias dificuldades, contudo, cresce a incerteza em relação ao interesse imobiliário pós-Jogos nos novos apartamentos da Vila Olímpica. Também é incerto o uso que se dará ao polémico campo de golfe, construído dentro de uma reserva ecológica e o primeiro público do Brasil, apesar de não ser de todo um desporto popular no país.

E a água?

A maior dúvida da promessa olímpica é a baía de Guanabara, onde serão realizadas as competições de vela e windsurf e onde são despejadas todos os dias toneladas de lixo e esgotos, na maioria sem tratamento. Os projetos fracassados de limpeza consumiram em vários anos cerca de 10 mil milhões de reais. O governo do estado do Rio de Janeiro tinha prometido limpar 80% da famosa baía para os Jogos, mas a meta foi abandonada ao chegar aos 49%. Um novo plano foi anunciado em agosto e estará pronto... em 2035, 20 anos depois das olimpíadas.

Também continua pendente a descontaminação da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde serão realizadas as provas de remo. As autoridades garantem que não há riscos para a saúde dos atletas. "O Brasil tende a aproveitar a euforia destes grandes eventos para prometer mais do que pode cumprir efetivamente. Acham que os eventos por si só vão resolver elementos estruturais da cidade", lamentou Pedro Trengrouse, assessor da ONU durante o Mundial e coordenador do curso de Direito Desportivo da Fundação Getúlio Vargas, no Rio.

Melhor que Barcelona?

"A influência de Barcelona em muitos aspectos ainda existe e teve um peso nos Jogos do Rio", afirmou à AFP Emilio Fernández Peña, diretor do centro de estudos olímpicos da Universidade Autónoma de Barcelona. Para os Jogos Olímpicos de 1992, Barcelona dedicou cerca de 80% do orçamento em melhorias na cidade, com forte impacto no turismo, que subiu de 1,7 milhões de visitantes em 1991 para 7,9 milhões em 2014.

O Rio investiu 64% do seu orçamento olímpico de quase 40 mil milhões de reais em obras de legado e recebe atualmente cerca de 1,5 milhões de turistas por ano. Mas com a economia em franco declínio e uma grave crise política em andamento, superar Barcelona não parece fácil. Entre as áreas renovadas destacam-se a zona portuária, que agora exibe uma nova cara, com um museu concebido pelo espanhol Santiago Calatrava e uma praça espetacular, grandes avenidas e túneis modernos, assim como novas ciclovias.

Contudo, as zonas de pobreza mantêm-se intactas e a violência tem recuperado o controlo de áreas que estavam "pacificadas" por um programa de ocupação policial. À taxa nacional de desemprego de 9% junta-se a dúvida em relação ao que acontecerá com os 30 mil operários que trabalham nas obras olímpicas. A nova Barcelona? Só o tempo dirá.

Veja a infografia interativa sobre os JO2016:

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