Segundo o porta-voz, o secretário-geral do Mundial2022, Hassan Al-Thawadi, afirmou que morreram 414 pessoas, mas referia-se ao período entre 2014 e 2020, e esse número incluía não só os trabalhadores que morreram na construção dos estádios do campeonato, que foram 40, mas também os de outros setores e no país inteiro.

“O secretário-geral, Hassan Al-Thawadi, declarou ao programa ‘Uncensored’, de Piers Morgan, que houve três mortes relacionadas com o trabalho e 37 mortes não-relacionadas com o trabalho nos projetos do Comité Supremo de Entrega e Legado (…), informação [que] assenta anualmente nos relatórios públicos do Comité Supremo e abarca os oito estádios, as 17 instalações que não são de competição e outros lugares relacionados com a esfera de atividade do Comité Supremo”, disse o porta-voz do Campeonato do Mundo do Qatar num comunicado.

De acordo com esta fonte, os números indicados por Al-Thawadi, que falou de “entre 400 e 500 operários imigrantes mortos”, correspondem “às estatísticas nacionais que abrangem o período 2014-2020, de todas as mortes relacionadas com o trabalho (414) em todo o país, abarcando todos os setores e nacionalidades”.

Esse número está bastante distante das 6.500 mortes de trabalhadores da construção civil no Qatar noticiadas pelo diário britânico The Guardian numa reportagem no início de 2021.

“Todos os anos, a segurança nestes locais está a melhorar. Creio que, em geral, a necessidade de uma reforma laboral indica que é necessário fazer melhorias. Isso é algo que reconhecemos antes de apresentarmos a candidatura. As maiores [melhorias] que fizemos não ocorreram para o Campeonato do Mundo. Tivemos de fazê-las por causa dos nossos valores”, sublinhou Al-Thawadi.

“O Campeonato do Mundo serviu como um catalisador”, acrescentou.

Os comentários de Al-Thawadi aumentaram as críticas feitas pelos grupos de direitos humanos sobre o custo para os trabalhadores migrantes de o país acolher o primeiro Mundial de Futebol no Médio Oriente, para a preparação do qual foram gastos 20 mil milhões de dólares (19,3 mil milhões de euros) em estádios, linhas de metro e novas infraestruturas necessárias para a realização do campeonato.

A Amnistia Internacional (AI) já se pronunciou sobre a questão, tendo o respetivo diretor para a justiça económica e social, Steve Cockburn, recordado que, ao longo dos últimos dez anos, muitas famílias de trabalhadores imigrantes se confrontaram com a morte dos seus familiares, sem que lhes tenha sido apresentada uma explicação ou providenciado qualquer mecanismo de indemnização.

“A continuação do debate em torno do número de trabalhadores que morreram nos preparativos para o Mundial expõe a dura realidade de que muitas famílias enlutadas ainda estão à espera de verdade e justiça”, declarou o responsável da AI, num comunicado hoje divulgado.

“Na última década, milhares de trabalhadores regressaram a casa em caixões, sem que fosse fornecida qualquer explicação aos seus familiares”, referiu Cockburn, acrescentando ser “provável que o calor extremo e as esgotantes condições de trabalho tenham contribuído para centenas dessas mortes”, mas que “sem investigações completas, a verdadeira dimensão do número de vidas perdidas nunca será conhecida”.

Segundo o diretor da organização de defesa dos direitos humanos, “entretanto, as famílias sofrem a angústia acrescida de grave insegurança financeira, decorrente da perda do principal ‘ganhador de pão'”.

“Não há nada de natural nesta escala de perda, e não pode haver desculpa para continuar a negar às famílias a verdade, justiça e indemnização”, defendeu o diretor da Amnistia, acrescentando que “até que todos os abusos sofridos por trabalhadores migrantes no Qatar sejam compensados, o legado desta Taça do Mundo ficará gravemente manchado pelos maus-tratos que lhes foram infligidos”.

A Amnistia Internacional — Portugal indicou ainda que continua disponível para assinatura “uma petição para que a FIFA e o Qatar compensem os trabalhadores migrantes que foram explorados e vítimas de abusos”, um “apelo [que] será dirigido ao ministro do Trabalho do Qatar, Ali bin Samikh Al-Marri, e ao Presidente da Federação Internacional de Futebol, Gianni Infantino”.

Desde que, em 2010, a FIFA atribuiu ao Qatar a organização do Mundial, o país tomou algumas medidas para reformular as práticas de emprego, o que incluiu a eliminação do chamado sistema de emprego ‘kafala’, que prendia os trabalhadores aos seus empregadores, podendo estes decidir se os funcionários poderiam deixar os seus empregos ou até mesmo o país.

O Qatar também adotou um salário mínimo mensal de 1.000 riais do Qatar (275 dólares ou 265 euros) para os trabalhadores e exigiu subsídios de alimentação e alojamento para aqueles que não recebiam automaticamente esses benefícios dos seus empregadores, atualizando ainda as regras de segurança para evitar mortes.

As declarações de Al-Thawadi também renovam as dúvidas sobre a veracidade dos relatórios de Governos e empresas privadas sobre ferimentos e mortes de trabalhadores em Estados do Golfo Pérsico, cujos edifícios foram construídos por trabalhadores de países do sul da Ásia, como a Índia, o Paquistão e o Sri Lanka.

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